"Nzambi a tu bane nguzu um kukaiela"

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


Escola Pan Africana Marcus Mosiah Garvey


sábado, 17 de setembro de 2016

SÁBADO, 24 DE SETEMBRO - 14H

UM CÁSSICO DE SPIKE LEE,COM UMA EXCELENTE TRILHA SONORA. 

(FILME E DISCUSSÃO)


SINOPSE: Crooklyn é um filme de Spike Lee no qual a atriz Alfre Woodard estrela como Carolyn Carmichael, uma mãe carinhosa e preocupada que luta com dificuldades para acertar a vida de seu marido Woody (Delroy Lindo), um músico desempregado, e educar seus cinco filhos.
Complementado por uma contagiante e exclusiva trilha sonora de Rhythm & Blues, este delicado filme, repleto de cores, é um tributo à família americana.

LOCAL: Rua Manima, 68, São Paulo - SP, 08180-140, Brasil

(TRAV. DA RUA TIETÊ - PENÚLTIMA RUA A ESQ)

(JD. HELENA (PONTO FINA)

* CONTRIBUIÇÃO: SUCO, SALGADOS,DOCES,FRUTAS, ETC

quarta-feira, 14 de setembro de 2016



Lançamento do livro ASSATA SHAKUR - ESCRITOS com Gilza Marques e Andreia Beatriz (REAJA) 

"Meu nome é Assata Shakur (nome de escrava Joanne Chesimard) e eu sou uma Revolucionaria Preta." 

+ ESPECIAL TUPAC SHAKUR (videoclipes) 

+ Intervenção poética com Beatriz Venâncio e Daniel Marques.



Lançamento do livro ASSATA SHAKUR - ESCRITOS com Gilza Marques e Andreia Beatriz (REAJA) 

"Meu nome é Assata Shakur (nome de escrava Joanne Chesimard) e eu sou uma Revolucionaria Preta." 

+ ESPECIAL TUPAC SHAKUR (videoclipes) 

+ Intervenção poética com Beatriz Venâncio e Daniel Marques.

LANÇAMENTO DO LIVRO "ASSATA SHAKUR: ESCRITOS (GILZA MARQUES e ANDREIA BEATRIZ)



Lançamento do livro ASSATA SHAKUR - ESCRITOS com Gilza Marques e Andreia Beatriz (REAJA) 

"Meu nome é Assata Shakur (nome de escrava Joanne Chesimard) e eu sou uma Revolucionaria Preta." 

+ ESPECIAL TUPAC SHAKUR (videoclipes) 

+ Intervenção poética com Beatriz Venâncio e Daniel Marques.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

"Amor preto como elemento estruturante da causa pan-africana" (Abisogun - UCPA - Setembro/2016

O povo preto carece de uma percepção: a necessidade de construir uma identidade que possa transcender as mediocridades inerentes à condição humana e, assim, elevá-lo ao patamar que lhe é de direito. 
A perfeição encontra-se no mundo das ideias, apenas. E este plano metafísico é forjado a partir de nossos desejos, vontades e necessidades de supressão das verdades do caráter humano. “A humanidade é má…”, disse o poeta; pega a visão! No bojo geral, é isso; aja visto o passado de barbáries e massacres praticados uns contra os outros; e nem falamos das macros barbáries ou das hecatombes promovidas pela sanha humana na sua busca de riqueza e poder; nos referimos, pelo menos nesta breve reflexão, as micros barbáries, as indiferenças, ao descaso e ao escarnio com o qual tratamos um igual, em sentimentos e direitos… na parte que nos toca, em pigmento/melanina. 
A miséria produz este tipo de coisa, essa categoria de gente, que por si só já é a barbárie em sua mais pavorosa demostração de perversidade, mas não é monopólio dos miseráveis tais percepções e ações uma vez que o grosso da desgraça destilada ao mundo surge justamente dos produtores da miséria geral e irrestrita, surge dos mesquinhos, dos avarentos, dos estupradores que temem perecer na terra pela intensidade dos raios solares ou, usando um conceito caro à filosofia politica e econômica do final do século XIX, dos burgueses com seus olhos azuis de demônio; como salientou o irmão Malcolm X. 
Não podemos mensurar tal fato, mas matamos um ser com um olhar, com um simples comentário desestabilizamos todo o estado de espírito e psíquico de alguém e o empurramos para um primeiro estágio de uma quase depressão e incapacidade de ação ou revide. Racismo mata. Haverá o dia da simetria, suave! Entretanto, existem aqueles que, por terem o “coração bom”, criaram mundos ideais e passaram a viver dentro deles – não há problema nisso e nem de perto isso flerta com a esquizofrenia clínica – em que o amor, a justiça, a fraternidade e a solidariedade, são valores máximos, indiscutíveis, pedras basilares da existência e fundamentos de um projeto civilizatório mais condizente com as necessidades da natureza. E esses, com razão e sentimento, se indignam com a crueldade e injustiça dos outros para com os outros. Pensam que poderia ser um dos seus, seu sangue, sua carne. 
A dor e a compaixão são reais e não apenas roteiro de uma religião carcomida pela necessidade de existir e se perpetuar em detrimento das forças centrífugas da história. E se revoltam. E odeiam. E pensam maldade. E entram em crise por tais pensamentos. Mas não se importam. 
O amor pelos seus é mais forte e inexplicável. E explodem. E agridem e são agredidos ao agredir. E pensam nas consequências. E se retraem. E se calam. E não dormem a noite incomodados com bolas de desaforo entaladas na garganta. E são sufocados, na parte mais escura e silenciosa da noite, pela não ação do dia anterior. Pela negação de suas personalidades. Pela impotência. E gritam, em um ousado e rebelde silêncio, impropérios contra si mesmas. E pela manhã traçam planos para pintar o mundo real com as cores do seu mundo ideal: e isso é revolucionário… e isso é lindo porque dignifica a humanidade e restaura o melhor que existe nela. 
Tudo isso parece muito universal. E é. E o universal foi invenção do colonizador. Aqui ninguém está de bobeira! 
Para o colonizador, o universal é sinônimo de ocidental. E ocidental, por sua vez, é sinônimo de branco. 
O grande poeta da negritude, Aime Cesaire, tempos atrás, nos alertou sobre a necessidade de não se diluir no universal, pois somos pretos. Somos africanos. Temos que ter nossas próprias bases éticas e morais e buscar, a partir de uma prática genealógica, não aquela ferramenta e conceito teórico criado por Foucault, mas uma genealogia mais próxima de uma arqueologia dos sentidos, dos significados, das produções imateriais de uma África longínqua e que talvez exista somente em nossa mente, em nosso inconsciente, no sentido garveysta. Talvez essa África seja apenas um ethos que surgiu da necessidade de negação do branco e de suas barbáries. Não tem problema, não, pai! Com o Ocidente, sabemos, acontece o mesmo, apenas não é colocado em xeque! Pega a visão! É isso! Este tem que ser o entendimento: o poder nos fez ser “o diferente”, “o outro”, mas para nós, “pretos de elite”, usando o conceito do irmão pan-africanista por essência Thembi Sekou Okwui, “o outro” são eles, poucas ideias!, seja como for, vivemos em um mundo hostil e temos que fazer com que a nossa carne e nosso sangue, pois a história de opressão nos tornou um ser uno, indivisível, viva em um mundo melhor do que o mundo que nossos pais viveram e que, infelizmente, ainda somos obrigados a viver. 
Voltando ao início da reflexão, o ingrediente para superar as mediocridades humanas é o amor. Simples assim! Não falamos do amor platônico, do amor cristão ou menos ainda do amor medieval, eternizado por Tristão e Isolda… pensamos e agimos a partir de paradigmas estranhos à nossa carne, sangue e espírito… e isso nos deixa em permanente desequilíbrio com o mundo […] somos um povo adoecido […] a descolonização passa por estas questões… Enfim… falamos de amor de iguais, amor gerado pelo ódio àqueles que querem o nosso desaparecimento da terra… amor preto… amor africano… amor de malungos… de quilombolas… de escravizados em plena ação de rebelião e fuga!!! amor pelos pequenos, pelos velhos, pelos que partiram… Parando por aqui, que já tá meloso demais… e não temos tempo pra melodia […] temos que cultivar e cativar o amor, ensinar o amor, se os adultos já estão por demais adoecidos, que canalizemos nossas energias às crianças, pois as crianças se tornam o que os adultos possibilitaram que elas se tornassem… 
Não sejamos medíocres, então! Pega a visão!!! Sejamos dignos, íntegros, verdadeiros e respeitosos para com os nossos!! Saudações pan-africanas…

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

UCPA - 19. ENC. DOS ERÊ (Atividade p/nossas crianças)



Data: 17/Set/2016 - 14h.

Local: EMEF Antonio Pereira Ignácio

R. Sara Kubistchek,186 -Castro Alves - Cid. Tiradentes

* Contribuição: Suco, doce, brinquedo, doces, salgados

- Como chegar?
Ônibus Cid. Tiradentes
...descer no Term. Cid. Tiradentes
...seguir em direção ao bloqueio (saída) virar a esquerda... subir a R. Sara Kubistchek
...atravessar a rua
...e avistará a escola

domingo, 11 de setembro de 2016

Grito Negro (José Craveirinha)

Grito Negro Eu sou carvão!

E tu arrancas-me brutalmente do chão

e fazes-me tua mina, patrão.

Eu sou carvão!

E tu acendes-me, patrão,

para te servir eternamente como força motriz

mas eternamente não, patrão.

Eu sou carvão

e tenho que arder sim;

queimar tudo com a força da minha combustão.

Eu sou carvão;

tenho que arder na exploração

arder até às cinzas da maldição

arder vivo como alcatrão, meu irmão,

até não ser mais a tua mina, patrão.

Eu sou carvão.

Tenho que arder

Queimar tudo com o fogo da minha combustão.

Sim!

Eu sou o teu carvão, patrão.

sábado, 3 de setembro de 2016

Estamos em guerra - Danilo Ramsés - U.C.P.A (União dos Coletivos Pan africanistas) 02/09/2016

Estamos em guerra... guerra racial, mas só nós morremos... a supremacia branca nos mata todos dias de várias formas, e a sua polícia é apenas uma das várias formas de nos matar.
 E entre nós tem os que não sabem que estão em guerra, tem os que sabem mas estão do lado dos algozes, tem os que sabem e dizem combater o inimigo mas mais nos atacam do que atacam a supremacia branca, e os que estão se organizando dedicados determinados a ajudar a reerguer nosso povo preto lindo do mundo inteiro, e destruir por todos meios necessário quem nos destrói, matar o mundo branco, ocidental...
 liberdade, resgatar os valores africanos e reconstruir África...  temos muito trabalho pela frente, não será fácil, e nunca foi. Vai ter momentos que iremos achar que tudo que estamos fazendo não está trazendo resultados, mas o trampo é assim mesmo, de formiguinha.
Daqui a sei lá quantos anos mais irmãs e irmãos vão estar melhor preparados, o importante é que estamos plantando a semente da nossa libertação africana, que vai chegar, disso temos certeza... olha só, há alguns anos atrás todas as pretas e todos os pretos andavam de cabeça baixa, acoados, isso minha mãe diz pra mim, e até hoje tem, mas não como antes, porque plantaram a semente no passado, e estamos aqui, no passado quem usava nas favelas uma camiseta estampada 4P? Ou 100% Preto?  parece pouca coisa mas tudo isso é resultados dos nosso mais velhos que plantaram a semente no passado...
Precisamos estar mais entre nós, precisamos nos aquilombar, estar juntas e juntos como um povo preto forte, um povo africano, pode parecer loucura mas com todos os problemas auto ódio e etc, o único momento que nos sentimos bem é quando estamos juntos,  até os que nem sabem que são pretas e pretos, da pra sentir isso, veja as festas, no funk das quebradas, nos Dub, ou nos Black no centrão na sete de abril, enfim, só presente pra sentir isso, mas é a real, apesar dos pesares do auto ódio,  o que o nosso povo quer é estar junto, nos sentimos bem juntos, porém isso acontece mais na curtição apenas...
 Curtição, nosso povo é de festa também, mas estamos em guerra, guerra racial, precisamos lutar, a festa é linda e é uma arte, mas em uma guerra a arte pela arte não muda nada, então vamos fazer dessa arte um instrumento de luta, e que já temos  por exemplo o Hip Hop, que resgatou váriaaaaas e váriooooos pretas e pretos de todo o mundo, através seja na parte de Djs, do Break, do Graffiti, ou do Rap,  o Hip Hop resgatou a nossa verdadeira historia enquanto africanos, e abriu os olhos para essa guerra racial que vivemos, e muitas e muitos de nós estão na luta hoje graças ao Hip Hop,  particularmente o Rap, a Voz libertaria africana que ecoou pelos guetos, com vários livros ritmados transformados em música, e que graças ao Hip Hop hoje somos Pan africanistas,  porque nos fez ter acesso a histórias de lutas de libertação preta africana do passado e ter interesse por elas,  como aponta na letra o Preto Dum Dum do grupo de Rap Facção Central: "Pau no C* do português que pisou aqui, quero saber, ver e ler sobre meu herói Zumbi !!!!!" ,  sem o Hip Hop e particularmente o Rap, muitos de nós estariam ainda ignorantes e alienados, serviçais e submissos diante dos brancos, e pior, muitos teriam caído na armadilha que a supremacia branca nos impõe, as drogas e o crime...
 é, eles vivem nos incentivando ao consumo, tênis de marca roupa de marca, mas não nos dão emprego para comprarmos legalmente, isso faz com que muitos dos nossos vão roubar para ter, ou entram para o tráfico, único trampo que são aceitos...  esse é um exemplo de instrumento de arte como forma de luta que nos apontou o caminho...  a luta, a radicalidade, o amor ao nosso povo africano.
 E vamos nos organizar nessa guerra, o importante é formarmos nossas crianças, fortalecer os mais velhos, cuidarmos um dos outros, plantar as sementes revolucionárias do futuro, e jamais desistir, jamais ficarmos sem se defender aos ataques da supremacia branca, porque guerra é guerra...

Fogo na babilônia, Fogo no mundo branco ocidental!!!!!!!

PODER PARA O POVO PRETO


Danilo Ramsés - U.C.P.A (União dos Coletivos Pan africanistas) 02/09/2016

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Pan-Africanismo por essência: Partido dos Panteras Pretas (Tati Nefertari - UCPA - AGO/2016)

Pan-Africanismo por essência: Partido dos Panteras Pretas
(Tati Nefertari - UCPA - AGO/2016)

Quando falamos nos Panteras, as primeiras analises que surgem são de que eles eram um grupo radical de pretos comunistas, maoístas e outras analises que seguem o mesmo caminho, o que não é difícil de entender quando analisamos o contexto dos EUA pós segunda guerra e guerra fria. É através desse contexto que podemos encontrar a ligação deles com o comunismo, mas para, além disso, é necessário que façamos uma analise que vá na essência e nas raízes de quem era/foi os Panteras pretas.
Criado em 1966, os Panteras surgem como resultado da luta dos direitos civis, onde o racismo, pobreza, segregação, linchamento e a violência policial caracterizava a vida do povo preto nos EUA, se opondo a integração e ao movimento de não violência, foram influenciados por outros grupos de revolucionários pretos, em especial Malcolm X. Era através das filosofias e posições de Malcolm que os Panteras se baseavam, Bobby Seale declarou que “Sem Malcolm X o partido não teria surgido” e não so Seale, mas era unanime entre todos os membros, sendo capa então do jornal do partido, com a seguinte frase: “Malcolm X teve um impacto profundo na missão revolucionaria do Partido dos Panteras Pretas “.
Malcolm X era nacionalista preto e muçulmano da nação do Islã, que por sua vez foi influenciada por Marcus Mosiah Garvey e sua organização. Foi uma das vozes mais ouvida e respeitada nas comunidades pretas.

Poder Preto (Black Power)

Os Panteras eram adeptos do Poder Preto e viam a comunidade preta como uma colônia e concordavam sobre a necessidade de autodeterminação, pois precisavam desenvolver suas próprias fontes de força politica, econômica e cultural, por mais que seu slogan tivesse sido “todo poder ao povo” eles explicaram, mas precisamente nas palavras de Fred Hampton que todo poder ao povo era: “Poder preto para as pessoas pretas, poder amarelo para as pessoas amarelas...” e sendo uma organização revolucionaria nacionalista preta, eles defendiam e lutavam pelo poder preto.
Stokely expos o poder preto da seguinte maneira: “Para nós, o poder preto implica que nos libertemos das estruturas racistas e opressivas do poder branco. Isso exige que possamos controlar nossas coletividades Afro-Americanas, que possamos dirigir nossos próprios negócios, que tenhamos um poder de decisão no que concerne a politica e a economia”.
Viam a necessidade de criar uma organização que derrubasse o governo e colocasse o poder nas mãos da comunidade preta, chegaram a apresentar um plebiscito preto com o objetivo, de acordo com Eldridge Cleaver, de dar aos pretos a oportunidade de decidirem se queriam a criação de uma nação soberana própria, uma nação preta. Malcolm também já havia divulgado esse conceito. É então a partir daqui que surgiram seus programas e ações.

Programa dos 10 pontos

O programa de 10 pontos dos panteras, cujo titulo era “O que queremos agora! No que acreditamos” delineava os objetivos do partido, sendo elaborado através da influencia dos 10 pontos feito por Malcolm X para a nação do Islã, intitulada de “O que os muçulmanos querem” onde permaneceu apenas o caráter nacionalista de Malcolm/Nação do Islã.
O programa mostrava como a comunidade poderia ganhar poder e se organizar, mas também mostrava os propósitos do partido que foram colocados em praticas através de seus outros programas.

Programas dos Panteras

Ao decorrer da existência do partido, os panteras criaram e deram desenvolvimento a diversos programas como: Escolas de libertação, clinicas de saúde gratuitas, programa de distribuição de alimentos gratuitos, programa de vestimenta gratuita, centros de desenvolvimento para crianças, programa de calçados gratuitos, programa de ônibus gratuito para visitação a presos, fundação de pesquisa de anemia falciforme, cooperativas de habilitação gratuitas, programa gratuito de controle de praga, patrulhas comunitárias, e o seu programa de maior visibilidade, o café da manhã gratuito para as crianças.
O café da manhã gratuito para as crianças foi o primeiro programa dos panteras a ser realizado no final de janeiro de 1969, sob o comando de Seale. Quando Seale foi preso em agosto de 1969, David Hilliard que era chefe de gabinete passou a coordenar e deu prioridade no desenvolvimento dos programas. David via os panteras como uma família, o que de fato era, devido as tradições comunais (Comunalismo Africano) que ele havia vivido no Sul rural negro com sua família. Foi através dessas suas experiências que Hilliard deu crescimento aos diversos programas comunitários dos Panteras.
Os programas eram oferecidos nas varias filiais do partido, as vezes durante pouco tempo devido aos ataques constante que os Panteras sofriam, mas todos as filiais ofereciam o programa de café da manhã gratuito para as crianças.
O programa de café para as crianças chegou a alimentar, segundo os dados dos Panteras, VINTE MIL crianças no ano de 1969. A alimentação era feita com doações de supermercados e empresas locais e oferecidas em igrejas locais da comunidade, aqueles estabelecimentos que se recusavam a ajudar sofria com boicotes e piquetes, e envergonhamento diante ao publico via jornal dos Panteras, como alguns xingamentos do tipo "porco capitalista" e "religiosos hipócritas" e assim possibilitava o recebimento de muitas doações.  O programa destacava que a fome era um dos fatores que prejudicava no aprendizado das crianças, pois elas não conseguiriam aprender alguma coisa de estomago vazio, e atacava também o grave problema que era a fome infantil. Para a realização do café os Panteras chegavam ao local pela manhã, bem cedo, para prepararem as coisas para que a comida estivesse pronta nas chegada das crianças, e muito dos Panteras tinham que buscar as crianças em casa e após ao café leva-las para a escola. Durante a refeição, enquanto as crianças se alimentavam, os Panteras ensinavam lições de libertação através das mensagens do partido e ensinavam sobre a historia do nosso povo preto.
Após o sucesso do café da manhã, o partido iniciou o programa das clinicas de saúde, pois a população preta não eram atendidos pelo sistema de saúde local, e quando atendidos tinham um serviço muito precarizado, muitas pessoas nunca haviam ido ao a uma visita medica. As clinicas dependiam de serviços voluntários de médicos locais, enfermeiras e doações da comunidade, os serviços prestados eram: primeiros socorros, exames físicos, pré-natal, teste de envenenamento por chumbo, teste de pressão alta e anemia falciforme. Existiam pelo menos 11 clinicas e muitas levavam nomes de Panteras assassinados pela policia, como a clinica de Bunchy Carter de Saúde. Algumas além dos exames promoviam discussões sobre relações sociais do povo preto, como relações entre homens e mulheres e preocupações da juventude preta.
Permanecendo ainda na área da saúde, os Panteras criaram sua fundação de anemia falciforme que era uma doença que atingia cerca de 1 a cada 500 pessoa preta, levando campanhas de conscientização sobre a doença que levou a comunidade a aprender sobre a doença e se cuidar. A assistência medica dos Panteras incluíam também esforços para combater o vicio em drogas e muita das vezes eram liderados por ex viciados em drogas, que diziam que as drogas eram plano do opressor para garantir a nossa escravidão.
Um outro programa que se destacava era o programa de ônibus gratuitos para a visitação dos presos que ajudou muitos pretos encarcerados a manterem contatos com a família, já que o custo era muito alto para as passagens  e muitas família não tinham condições para isso. O programa tinha vários objetivos, dentre eles o de manter o contato dos presos com sua comunidade os ajudando na sua reabilitação, nesse sentido Ronald Stark argumentava: "Só porque um Irmão ou uma Irmã cometeu um crime é correto que eles sejam afastados de suas famílias, amigos e da comunidade sem nenhuma comunicação?" Outro objetivo era denunciar e alertar para a prisão injusta de um numero desproporcional de pessoas pretas, e das prisões injustas dos Panteras. Além disso era oferecido aos presos um programa de comissário gratuito, onde haviam serviços de advogados e doações de produtos de higiene pessoal e alimentos. Esse programa foi inspirado no programa da nação do Islã tido como exemplo o Irmão Malcolm e outros presos.  
Os Panteras criaram também as escolas de libertação, e lutaram bastante para torna-las eficazes, essas escolas ensinavam as revolução do Poder Preto, incluindo conhecimentos de historia preta, atendendo crianças do jardim de infância ate o fundamental, além de suas aulas de reforço. A escola do partido no Blooklyn implantou no currículo escolar uma grade afrocentrada, onde ensinavam além das historias africana, danças também.
Devido a experiência de muitos Panteras nas escolas, todos sabiam da necessidade de reeducar o povo preto que todo esse tempo havia tido uma educação falsa e sucateada, uma educação de obediência para continuarem escravos que era o sistema do poder branco os ofereciam.
Ao decorrer da criação e desenvolvimento dos programas, todos eles foram atacados, de todas as maneiras possíveis, seja física com os policias jogando bombas, ou seja com o governo distribuindo informações caluniosas. Mas foi através de seus programas que os Panteras como organização se mostraram nacionalistas pretos e sua ligação com outras organizações como a Nação do Islã e com o movimento de Garvey.

 Quem foi os Panteras Pretas?

Como Mumia Abu Jamal relata: "Nunca houve um só partido, mas mais de quarenta e cinco; núcleos e seções vivendo suas próprias peculiaridades e idiossincrasias locais, dispersos por todo o território dos Estados Unidos, com uma ramificação na Argélia, no norte da África, todos reunidos em uma só busca por um ideal revolucionário"
Eram um grupo de revolucionários, nacionalistas pretos, que estavam disposto a morrer pelo que defendia, pela total libertação do povo preto, pela completa libertação. Contra toda a estrutura racista do poder branco vicioso, para além de ideologias politicas, o comprometimento com a comunidade preta e com sua libertação era o que os guiava, ou como gostavam de dizer: "O Partido dos Panteras Pretas se consideravam uma organização nacionalista preta revolucionaria e levava a herança ideológica de Malcolm X"
A maioria dos membros entraram para o partido por causa do seu ideal, pelo ideal do Malcolm. Como podemos observar no caso de Lumumba Shakur, lider da seção do Harlem e Sekou Odinga lider da seção do Bronx, ambos faziam parte da OUAA Organização de Unidade Afro-Americana de Malcolm X, e entrou no partido apos a morte de King, pois procuravam uma organização que exemplificasse a visão e direção de Malcolm e seu amor pelo povo preto.
Eles faziam parte da Filial de Nova Iorque, que era uma das maiores, mais ativas e mais eficazes dos Panteras, onde a maioria (se não todos) usavam nomes Africanos, seus verdadeiros nomes no lugar do nome obtido como escravos. Alguns exemplos são: Kuwasi Balagoon, Abayama Natara, Baba Odiga, e entre eles tambem estavam Afeni Shakur. Isso tem muito a nos dizer!
Os Panteras Pretas eram Pan-Africanistas por essência, e suas ações nos mostram com a mais obsoluta certeza, é essa essencia que os mantém vivos, essa mesma essência que vem nos mantendo vivos e unidos, que fez surgir os Novos Panteras Pretas (declarados, Pan-Africanistas) Unidade e Poder Para o Povo Preto.

Libertem Mumia Abu Jamal!!!

(Tati Nefertari - UCPA - AGO/2016)

Diáspora e África - (Sundjata Dikembi Keita - U.C.P.A.) 30/AGO/2016

As vezes tudo parece obstáculo, e mais ainda, tudo parece perdido. Nossas lutas, magoas, nossas perdas nossos erros; tudo nosso, até a solidão é nossa. 
Como já disse o irmão Diop “só temos um ao outro” uns aos outros, por isso tudo é nosso. 
Essa unidade entre nosso povo é o que nos faz forte, sem ela não há resistência possível, sem a unidade só resta a insistência patética. 
“Ninguém se preocupa em salvar o mundo, estando em desespero” (Marvin Gaye) por isso temos que acolher os nossos desesperados. Existe a necessidade de transcender os dilemas em prol dos nossos. Amor, paz, vida, liberdade, não tratamos aqui de poesia romântica, o enunciado é não ser possíveis ou viáveis essas palavras e atitudes entre os pretos (as). 
Onde estão nossos argumentos a favor do amor, da paz, da vida e da liberdade dos nossos? 
O Pan-Africanismo nos dá a direção certa e nos fortalece. Assim como uma árvore, buscamos forças nas raízes, e o tronco forte sustenta seus diferentes galhos, que por sua vez dão seus mesmos frutos para a vida. Assim é o Pan-Africanismo. A África somos nós, homens, mulheres, jovens, idosos, claros e escuros e o dilema principal multireligiões, todos pelo reconhecimento de uma causa. Provar desta unidade e conhecer a sua dimensão é uma escola que abrange todas as crises existenciais e prepara melhor os nossos para a vida. Os problemas do povo preto, devem ser resolvidos pelo povo preto, não há legitimidade em outro povo resolve-los. Em quase todo lugar do mundo (ou no mundo inteiro) os problemas de um irmão preto serão os mesmos, não importa se é homem, mulher, jovem, idoso se é rico ou pobre nem mesmo sua religião importa para a sociedade, a sua cor determina seu lugar no mundo branco, e sabemos que integração e mesmo inclusão, não é união. 
Portanto voltando-se para o pan-africanismo os obstáculos políticos, religiosos ou geográficos que separam o povo preto, primeiramente devem ser enxergados para assim serem transpassados, essa é nossa busca, a unidade do povo preto. Uma unidade possivelmente real e sem constrangimentos, então, podemos voltar a sonhar. 

Sundjata Dikembi Keita (U.C.P.A.) 30/AGO/2016

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

PAN-AFRICANISMO SEM BATISMO (Gabriel - U.C.P.A.) 22/8/16

Saudações Africanas!

Falar sobre Pan-Africanismo contemporâneo por essas bandas do atlântico é sempre um desafio e tanto. É de conhecimento geral que somos poucos os indivíduos declaradamente pan-africanistas, contamos com poucas organizações, coletivos e quilombos empenhados na real emancipação dos nossos e, mesmo com nossos esforços constante e incansável nas quebradas, nas cadeias, nas escolas, nos albergues e com moradores de rua, a esmagadora maioria do nosso povo desconhece não só a própria condição enquanto afrodiáspora, como mesmo a menção da palavra pan-africanismo desperta a estranheza da grande maioria acerca de seu significado. Encarar esse cenário com certo otimismo requer não só uma louvável vontade e coragem de pôr a mão na massa e o pé na lama. É preciso também perceber as demonstrações cotidianas da insatisfação manifesta em nosso povo e, a partir daí, elaborar meios de despertar não só a noção de que somos indivíduos pretos – algo que a própria branquitude faz questão de enfatizar -, mas que somos também Africanos e carecemos de atuação organizada tendo como objetivos a libertação, união e solidariedade entre todos os pretos e pretas, tanto no continente-mãe África quanto nas diásporas.
É notório que a música - principalmente, mas não só – vem contribuindo muito e desde sempre para trazer a lume tanto as problemáticas que o nosso povo enfrenta cotidianamente como também elementos importantes para fomentar o pertencimento racial entre os nossos, de tal maneira que ninguém espera que um homem preto de quebrada ouça Negro Drama dos Racionais MC’s do começo ao final com indiferença, e também que a mulher preta, que sobe e desce pelo elevador de serviço todos os dias pra limpar a casa de algum boy, ouça Identidade de Leci Brandão sem marejar os olhos. Mas para além dessas maravilhosas demonstrações facilmente perceptíveis de como muitos de nós somos condicionados, a partir de nossas próprias bases culturais, ao despertar do ‘ser preto’ e de tudo o que isso traz consigo numa sociedade moldada para brancos, há também a busca inconsciente por uma relação harmoniosa e ao mesmo tempo em constante mutação e conflito entre quem somos e o que nos é imposto enquanto padrão cultural e de conduta a ser seguido, e essa conturbada relação é, indubitavelmente, o comportamento padrão entre pretos aqui no Brasil.
O Pastor e escritor Marco Davi de Oliveira em sua obra ‘A Religião Mais Negra do Brasil – por que os negros fazem opção pelo pentecostalismo?’ nos diz: 
“Alguns aspectos contribuem para a identificação da religiosidade do povo negro no Brasil. O primeiro, que salta aos olhos, é a utilização do corpo como instrumento de culto. Nas igrejas pentecostais, o corpo é usado livremente no momento da adoração, indo de palmas e danças até expressões incomuns, como rastejar no chão, abrir os braços numa posição de vôo, correr sem sair do lugar etc. [..] O segundo aspecto que chama a atenção na liturgia pentecostal e que atrai os negros no Brasil é a musicalidade. Podemos ver – não só no Brasil, mas em todo o mundo – que a musicalidade do negro está relacionada com a vida, o sofrimento, as lutas por libertação e os momentos de nascimento e morte. Essa musicalidade fez diferença, por exemplo, na história sofrida dos negros escravizados no Brasil. Quando, em meio a tanta dor, os negros cantavam e dançavam, demonstravam a resistência que os caracterizaria em todos os continentes.”
Tanto a necessidade de pertencer a um pensamento ou confissão religiosa socialmente tolerável quanto a imposição e manutenção de características indissociáveis e ancestrais do nosso povo nesses ambientes são aqui expostas. O canto e a corporeidade preta, aliados à espiritualidade e religiosidade sem retaliação ou perseguição – sabemos que, em termos de ocidente, o cristianismo é a confissão socialmente desejável e que tal critério é estabelecido pela branquitude -, é muito mais do que qualquer preto pode almejar como refúgio diante dos massacres cotidianos que enfrentamos em diversos âmbitos.  Importante ressaltar que esse fenômeno não se limita ao campo religioso, temos, por exemplo, uma quantidade notável de pretos e pretas aderindo quase que automáticamente a vertentes políticas que lhes confira alguma liberdade de ser enquanto indivíduos pretos e lutadores sociais – outra característica inerente a nós -, denominações tais como o feminismo negro, movimento negro classista e outras vias de pensamento acabam por incorporar os pilares teóricos centrais, esses que não carregam o sufixo ‘negro’.
João Elias, escritor e militante de longa data, nos lembra em sua obra ‘A Impotência da Raça Negra Não Tira Proveito da Fraqueza dos Brancos’:
“A atuação de líderes negros tem sido marcada pelo desejo de conciliação com a sociedade branca, apesar da clara rejeição e sabotagem dos brancos sobre os negros. Vários são os fatores que colaboraram para que a conciliação tomasse o lugar da confrontação. Sem dúvidas um dos mais importantes fatores é o medo. Os brancos sempre estiveram melhor armados que os negros. Embora não haja intimidação declarada, os negros sabem que esta força armada pode ser utilizada para conter suas pretensões. A passeata de 1988 no Rio de Janeiro é um exemplo notável de demonstração de força. Nessa passeata os negros pretendiam repudiar o monumento a Duque de Caxias, notório matador de negros, quando foram contidos por duas longas filas de soldados do exército armados com metralhadoras. Quem sentiu o cano da arma apontado em sua direção sentiu que a situação poderia ter um desfecho trágico.
[..]
Outro fator responsável pelo desarmamento do espírito negro é o seu excessivo espírito festeiro. Os estudiosos da confrontação dizem: “quem se diverte não conspira”. Os mesmos instrumentos utilizados pelo negro para produzir o samba são utilizados pelos brancos para marcar a cadência de desfile militar. Enquanto o negro embriaga-se e dança, o branco marcha disciplinarmente ao lado de seus canhões. 
[..]
Outro grande fator é a atuação de certos negros que se destacam perante alguns políticos brancos usando o discurso racial. Vendem uma influência que não possuem em troca de uma falsa mobilização do negro. 
[..]
Outro fator é a crendice espalhada pelo Brasil de que a discriminação do negro é somente social e não racial.”
Novamente se faz presente a constante busca pela colocação social harmoniosa enquanto povo preto, seja ao dar de ombros para a possibilidade de confronto ao que está posto, seja atuando na política enquanto linha auxiliar da supremacia branca. Novamente, a inadequação se evidencia quando é preciso negar a principal contradição, de raça, para conquistar espaços jamais reservados a quem desempenhar o papel de denunciar o racismo para além dos jargões vazios ‘somos todos humanos e iguais’, e essa inadequação sutil e indiscutivelmente paradoxal se mostra quando o indivíduo elege-se enquanto NEGRO que não trata ou “simplesmente” secundariza a questão de raça... Admite-se e identifica-se enquanto um indivíduo pertencente a um determinado povo sobre o qual recaem determinadas questões e, apesar disso, escolhe por assumir o posicionamento tolerável e que lhe possibilite colocação social tal como aos brancos. Nosso povo, como vemos, é prisioneiro física e intelectualmente, mesmo cotidianamente defronte aos dilemas de raça e manifestando-se em relação a eles, percebendo ou não.
O problema para a branquitude em sua tentativa de impor-se de maneira inconteste e hegemônica começa justamente na inadequação do negro aos seus preceitos de maneira absoluta. Por que inserir ‘negro’ em ‘feminismo’ e em ‘movimento classista marxista-leninista etc’? Por que a musicalidade, a dança e a corporeidade nos cultos pentecostais e não o famigerado e insípido recato característico aos brancos? Por que o pentecostalismo, o feminismo, o marxismo e outras ideologias enquanto escolhas para pretos que optaram por ressignificá-los na tentativa de resgatar algo qual essas ideologias e vias de pensamento, bem como seus genitores teóricos, sequer desconfiam do que se trata, pra começar? 
O que impede a completa assimilação de pretos e pretas por movimentos e idéias oriundos da propaganda da supremacia branca se a maioria dos nossos irmãos e irmãs sequer sabem da existência de alternativas? 
Como é possível, num campo sem concorrência e com ‘natural’ tendência à fusão e assimilação do negro ao norte cultural euro-caucasóide, que esse presságio não se confirme na prática e a cultura dominante não leve à cabo seu processo de aculturação completa dos negros?
Há várias respostas, concordâncias e discordâncias referentes a esses questionamentos, posto está que, além do caráter messiânico, essas ideologias e doutrinas compartilham em comum também o fato de que nenhuma delas foi criada por pretos e tampouco PARA pretos. Essa busca pela adequação inconsciente de negros e negras será sempre vã e às custas de mutilações de valores essenciais a nós enquanto indivíduos com localização cultural e geográfica própria, inerente; essa busca é, sobretudo, a busca pela África que nunca será vista enquanto nossos irmãos permanecerem isolados do que é genuinamente Africano-centrado. É busca desorientada e inconsciente pelo retorno, geográfica e/ou cultural e espiritualmente. 
Temos, então, enquanto povo preso nesse cárcere além-mar, gritos de revolta e denúncia veiculados nas artes em resposta a diversos métodos de opressão racial, como há um anseio silencioso por um modelo de sociedade que nos resguarde a liberdade de agência, crença e pensamento enquanto indivíduos consciente ou inconscientemente africanos. Anseio generalizado, pouco explorado e que só pode ser compreendido por concepções que, obrigatóriamente, tenham a RAÇA como principal paradigma, central e basilar.
Nessa perspectiva, observando e vivendo a carência ontológica, banzo a nível macro, a única cosmovisão e organização política capaz de suprir as demandas do povo preto – declaradas nas artes e literatura ou manifestas em anseios e buscas por adequação nos segmentos da sociedade -, é o Pan-Africanismo. Somente pretos cristãos pan-africanistas são de fato libertos da instituição ‘pentecostalismo’, como no exemplo aqui citado, enquanto ferramenta da supremacia branca para oprimir e perseguir religiões e costumes negro-africanos. Somente pretos pan-africanistas podem defender economia cooperativa – a palavra kiSwahili UJAMAA antecede em muitos séculos qualquer teoria pretensamente progressista européia - e ser de fato anti-imperialista sem incorrer no erro de defender, por tabela ou agenda, intolerância religiosa travestida de materialismo, massacres de povos já flagelados pelo período colonialista travestidos de revoluções e imposições ditatoriais a outros povos e culturas travestidas de ações libertárias clarividentes. Somente no Retorno a liberdade é possível.

Ralph Ellison, escritor e autor de ‘Homem Invisível’, traduz a caminhada de muitos de nós, militantes ou não, antes de obtermos qualquer conhecimento sobre nossas dúvidas mais íntimas:
“Toda a minha vida eu tenho procurando por algo, e em todo lugar onde andei alguém tentou me dizer o que era. Eu aderi às respostas, embora elas muitas vezes caíssem em contradição e até mesmo fossem auto-contraditórias. Eu era ingênuo, eu estava olhando para mim e pedindo a todos os outros, exceto a mim mesmo, respostas a questões que eu, e somente eu, poderia responder. Levei muito tempo e recebi muitos e dolorosos golpes de bumerangue em minhas expectativas para finalmente alcançar uma concepção que todas as pessoas parecem nascer com ela: que não sou ninguém além de mim mesmo.”
Nosso mestre, ancestral e amado líder, Honorável Marcus Mosiah Garvey, nos diz há muito que “um povo sem o conhecimento de sua história, origem e cultura, é como uma árvore sem raízes”, ressaltando, desde aquela época e ainda atual se repetida nos dias de hoje, que a desorientação ontológica sempre existirá enquanto não resgatarmos nossa identidade e valores Africanos violentamente arrancados de nós. A incompletude há de nos ser habitual até que ‘sankofemos’, até que façamos o retorno ao que é nosso e a quem somos.
O otimismo citado inicialmente é pertinente, pois se por um lado a imensa maioria do nosso povo desconhece qualquer referência pan-africanista e não tangencia por si de maneira concisa à sua condição de indivíduo preto pertencente à África e vivente na diáspora, por outro é fato que, mesmo após séculos de constante bombardeio propagandístico da branquitude que não consegue conciliar genocídio e discriminação racial com aculturação e paternalismo epistemológico, nosso povo não se acomodou e nem dá indícios de que irá se curvar completamente, apesar das pontuais exceções e consternadores ‘Pai Tomás’ entre nós.
Esse olhar não indica uma tarefa fácil para nós e para o nosso povo, o grande objetivo é demonstrar que devemos intensificar nossos trabalhos no sentido de dar norte ao nosso povo que, por simples falta de opção visível e por constante repressão social e militar, acaba optando por se esconder nas fileiras brancas para continuar vivendo. E que, salvo desespero da branquitude em tentar nos calar à força, a tendência é que, com a continuidade da nossa luta, a situação melhore com o passar do tempo, que mais e mais pretos e pretas se enxerguem como tal, se identifiquem como fruto de África e, posteriormente, como a própria África, onde quer que estejam.
Não será fácil, mas como diria Mano Brown: ‘... tá com medo de quê? Nunca foi fácil! Junte seus pedaços e desce pra arena! Mas lembre-se... Aconteça o que aconteça... Nada como um dia após o outro dia.’

Nós por nós!

Uhuru!


PAN-AFRICANISMO SEM BATISMO (Gabriel - U.C.P.A.) 22/8/16

PALAVRA AO RÉU - Por: Abiṣogun Olatunji Oduduwa - UCPA - 2004 / Revisão 2016

“A distância entre um audacioso e bajulado Tio Tom e um intelectual lambe botas reside apenas em sofisticação e estilo. Pensando bem Tio Tom aparece aqui muito mais limpo porque normalmente está apenas tentando sobreviver, preferindo pretender ser algo diferente do seu próprio ser, para agradar o homem branco e, assim, receber favores. Contudo o intelectual adulador não pretende ser diferente do que é, mas odeia o que é e procura modelar-se a imagem de seus ídolos brancos. Torna-se um homem branco num corpo preto. Escravo obstinado e autômato, passa a ser o mais valioso do homem branco na opressão dos outros pretos.” (Eldridge Cleaver)

Verão de 2004. Fazia uma quente tarde de verão quando iniciei este ensaio e, como já é de praxe nesta época do ano, estava chovendo – Aoboboí Oṣùmàré! A água da chuva – Obàtálá – caía sobre a terra – Odùdúwà e Onílé –, fecundando-a; ao mesmo tempo em que fazia exalar da mesma um aroma maravilhoso – o gosto e o cheiro da natureza. A mesma terra pela qual lutamos; a terra dos nossos ancestrais; a terra que os quilombolas conquistaram com trabalho, inteligência e bravura. O mundo criado pelos nossos ancestrais nos pertence.
Meu pai Ṣàngó também estava presente e se manifestava nos raios e trovões – Àṣe Kawó Kabiyèsílé! Ṣàngó! Naquele instante, sentir-me diferente. Era como se estivesse em relativo estado de transe; não um transe de possessão, mas uma sensação de liberdade plena. Essa sensação, que irradiava por todo o corpo, foi traduzida em grande disposição – Àṣe – para a luta e trouxe consigo um imenso senso de justiça e vontade de guerra; podia ser revanche, também. Então, naquelas circunstâncias, como arma só dispunha de papel e caneta; e o pior, encontrava-me sob o olhar de hiena do capitão-do-mato. Estava em uma espécie de cárcere. E, nessa atmosfera hostil, comecei a registrar em uma folha de papel os sentimentos e reflexões que brotavam no meu corpo.
***
A nossa origem é gloriosa. Hoje sabemos de nossa ascendência e história; pelo menos nós, que abraçamos a consciência Pan-africana como estilo de vida e morte. Temos plena ciência do processo histórico ao qual fomos submetidos: dos primórdios aos dias atuais.
Há vários milhares de anos, o primeiro ser humano se originava na África; este que era categoricamente preto; assim como você e eu. Também foi na África que as primeiras grandes civilizações da história da humanidade se originaram: Egito, Núbia, Meroé, Nok, Mali, Gana, Songhai, Ifé… Nós criamos a noção sociedade, de família, de escrita; o que depois haveria de ser chamado pelos apropriadores de dialética… Descobrimos e fundimos os metais e desenvolvemos as tecnologias agrícolas; embalsamamos nossos mortos; aprendemos a cultuar e invocar nossos ancestrais; compusemos poemas, músicas; criamos danças e comidas para os nossos deuses e filhos, nossas origens e descendências, nossos protetores de cabeça e norteadores da vida.
Nossos ancestrais, por milhares de anos e sem o barbarismo típico dos povos setentrionais, governaram o mundo. Entretanto, em determinado momento histórico, o povo branco e a cultura europeia surgiram. Nós, povo preto, dêmos origem ao povo branco – os fósseis mais antigos encontrados na Europa possuem características africanas. O clima, a geografia, a alimentação e o meio ambiente e social forneceram as condições necessárias para esta metamorfose. E, posteriormente e num passado não muito longínquo, fomos nós que ensinamos o povo branco a andar, caçar, falar, se organizar e escrever. No entanto, o isolamento deles, por milhares de anos, na desértica e gelada Europa, fez com que desenvolvessem um mecanismo de autodefesa altamente destrutivo para outros povos: a xenofobia. A base da xenofobia e da própria essência da supremacia branca é o medo do desaparecimento. Deste entendimento da própria existência surgiram atos como o infame comércio de gente, a escravização, os massacres, os estupros, os espólios, as colonizações, o capitalismo, o nazismo e outras formas de genocídio e de racismo epistêmico.
A invasão das Américas, o sequestro e deslocamento em massa de africanos que foram trazidos para estas terras, a escravização de seres humanos, durante 400 anos de forma licita e por mais de 100 anos de forma ilícita, culminou num estado de absoluta degradação. Hoje vivemos em favelas, cortiços e ruas. Somos marcados pelas constantes humilhações e execuções oriundas dos cachorros do Estado – a polícia. É contra estes poderes que a luta deve ser direcionada. Nosso objetivo e destruir o sistema ou se libertar dele. Das duas uma: ou matamos o senhor-de-engenho e destruímos a senzala e a casa-grande ou se insurgimos num levante total. E alcançaremos a liberdade dirigindo-se na mesma direção dos nossos ancestrais que, utilizando-se de coragem e audácia, construíram os quilombos; esses que foram, e ainda são, a extensão física, geográfica, social, cultural e espiritual da África. O resto é perfumaria. Então, a meta é construir o quilombo e fazer o enfrentamento.
A luta Pan-africana tem que ser, por dever e para melhor eficiência, contínua e composta exclusivamente pelo povo preto. Devemos romper com a agenda da integração racial. Pessoas não-pretas não devem participar de forma orgânica da nossa luta, jamais! E se tiverem um sentimento verdadeiro e honesto eles compreenderão e acatarão a nossa posição e enfrentarão o racismo no meio de seu próprio povo. O racismo é uma patologia psíquica e social e se manifesta por meio de vozes e silêncios, pela presença e ausência. Todos os brancos são brancos, não há outra saída para a branquitude que não o reconhecimento dos privilégios trazidos pela sua condição racial e a renúncia dos mesmos. Raros são os casos em que os brancos renunciaram dos privilégios trazidos pela cor da pele. Todo escorpião é um escorpião; alguns tipos – conservadores – picam logo de início enquanto outros – liberais – picam com o passar do tempo; no entanto, ambos nunca deixam de picar.
Seja como for, a nossa luta tem que ser de povo, de rua, de multidão e mutirão; no corpo-a-corpo e jamais a luta efêmera do gabinete. Os irmãos dos Black Panther já diziam coisas reveladoras sobre os revolucionários de escrivaninha: “Esses Tio Tom não passam de contrarrevolucionários…”. A luta Pan-africana tem que estar fundamentada na honestidade e jamais em interesses financeiros e pessoais; a causa deve ser coletiva e pelo bem comum; fora disso é qualquer coisa, menos Pan-africanismo. Nós, Pan-africanistas, conhecedores do passado de massacre e resistência, sabemos que a opressão da supremacia branca causou rupturas culturais e deixou sequelas em nossos irmãos; e isso afetou e deturpou suas percepções e suas concepções éticas e morais. No decorrer da História, de nossa gloriosa trajetória de resistência, sempre surgiram, como sempre surgirão, o tipo Pai Tomás ou Pai João. Por exemplo, contemporâneo a Palmares teve Henrique Dias – funcionário da coroa portuguesa que lutou contra os quilombolas –; teve, recentemente, Mobuto e Sanvibi – funcionários dos Estados Unidos, Reino Unido, Bélgica, Alemanha e França, enfim, do Ocidente –; esses do tipo que mataram Malcolm X, Lumumba, Amílcar Cabral e Thomas Sankara. Marcus Mosiah Garvey, no início do século passado, já se posicionava, firme e coerentemente, em relação às organizações financiadas por brancos e por fundações ou instituições filantrópicas; ele, em seus discursos inflamados, em seus escritos e ensinamentos verdadeiros, cheios de orientações e amor, exortava e não hesitava ao afirmar que: “Os negros da NAACP são traidores declarados do povo preto…”. Na época, a NAACP era financiada por judeus e por brancos liberais, fazendo jus ao slogan carregado pelos Estados Unidos de ser o “país da filantropia”. A NAACP tinha até um destes brancos como presidente.
Estamos cientes que a luta deve ir além das críticas aos Pai Tomás. Nunca devemos perder de vista os nossos primordiais objetivos e quais são os verdadeiros inimigos. Somos Pan-africanistas e amamos o povo preto na África e na Diáspora; em geral, amamos até os irmãos traidores, mas o nosso amor e tão verdadeiro e intenso que, para o bem comum do povo preto, poderemos tomar como referência as atitudes revolucionárias das crianças de Soweto, que, por sentimentos de coragem e justiça, juntamente, com uma postura e uma consciência política firme, colocavam os traidores dentro de pneus, jogavam gasolina, e ateavam fogo. Isso em nome da Revolução Pan-africana; em nome da consciência e libertação africana e do nacionalismo preto. Pois, somente Èṣù, dentro da cosmogonia nagô, pode se dar ao luxo de: “Jogar nos dois times sem nenhum constrangimento…”.
Como observamos, a luta tem que ir além das críticas ao aparato policial do Estado e aos Pai Tomás. A luta é contra uma série de mecanismos que, sistematicamente, visam a nossa destruição, o nosso enfraquecimento físico, mental e espiritual; sendo curto e grosso, o nosso genocídio em nível planetário. E um desses mecanismos é a desarticulação da resistência africana. Estão minando as nossas lutas. Esta tática vem se dando, principalmente, pela cooptação dos nossos líderes ou supostos líderes, alguns sinceros e verdadeiros, porém ingênuos, esses que se deixam enganar facilmente por qualquer promessa, migalha ou esmola; outros, em maior número, são canalhas por essência e quando entram na luta, visando a autopromoção, procuram, logo e desesperadamente, que o sistema ou que um branco liberal qualquer lhes comprem; resumindo, são marqueteiros de si próprios. A situação agravou-se nas duas últimas décadas, pois o desemprego, o consumismo e a ocidentalização do ser africano se intensificou e se alastrou de forma incontrolável. A opressão capitalista não poderia ficar de fora desta dinâmica e o medo branco, consequentemente, potencializou-se. Diante disso, estamos inclinados a pensar que o povo branco é conservador e teme perder o privilégio e o bem-estar social que usurpou. Sabemos, do mesmo modo, que todo povo que é oprimido um dia se levanta contra seus opressores; fator este que traz sérias complicações na manutenção das estruturas do poder branco. Visando remediar este estado de coisas, a supremacia branca tratou de intensificar a desarticulação da resistência africana e iniciou isso a partir do financiamento sistemático das ONG's negras, fazendo deste modelo a única forma viável de organização e luta. Muitos dos nossos acreditaram neste ouro de tolo.
Devemos lembrar das declarações do irmão Malcolm X sobre a Marcha de Washington; rotulada, pelo nosso príncipe negro, como: “A Grande Farsa”. E nossa reflexão e análise ganhará mais credibilidade se pontuarmos ainda que quem financiou tal marcha, dentre várias outras pessoas e instituições, foram as maiores instituições filantrópicas do mundo: Fundação Ford e Fundação Rockefeller. As mesmas que, após mais de meio século depois, continuam o financiamento de ONG's no Brasil e no mundo. Diante disso, não fica difícil constatar que os racistas brancos visam desarticular e destruir os pretos no mundo inteiro. Por isso, somos Pan-africanistas! A nossa luta é planetária: Angola, Brasil, Haiti, EUA, Granada, Gana, Equador, Jamaica… Todos os filhos da África unidos, tendo como princípio amor, respeito, união, fraternidade, verdade, autonomia, autossuficiência e ódio unânime pela exploração imposto pelo demônio oriundo dos cáucasos gelados. Todos esses são ingredientes fundamentais na metodológica de combate. Pois somos filhos da Natureza, somos a própria Natureza, e amamos os deuses e a Natureza; já o demônio, personificado no capitalismo e no eurocentrismo, odeia os deuses e a Natureza; se odeiam. Sendo assim, os deuses nos amam, pois estamos, continuamente, em contato com eles e nós os amamos.
Os brancos intensificaram a desarticulação e estão desmantelando a rebeldia africana. Utilizam-se dos trabalhos sujos das ONG's, das bandeiras partidárias, dos sedutores gabinetes, dos cargos e outras formas de aliciamento para tão nefasto fim. Desde a época que os brancos pisaram em nosso território africano, levando consigo a maldade, a cobiça, a individualização dos bens, a desordem e a cultura judaico-cristã, é que existem irmãos que se deixam levar por essas mentiras europeias, por esses sentimentos mesquinhos e medíocres. Os valores pagos por eles são sempre os mesmos: vagina e pinto branco, dinheiro, espelhos, cargos, quinquilharias, posição e status social. No correr dos séculos, os capitães-do-mato sacrificaram milhões de crianças, jovens, homens, mulheres e velhos – todo um povo africano foi espalhado pelo mundo – em troca do veneno do homem branco. Entregaram-nos em holocausto para seus deuses carniceiros, para o seu panteão de divindades, o panteão do Pai Tomás, que é composto pelo deus e a deusa suprema – homem branco e mulher branca – e pelos seguintes deuses: o deus cargo, a deusa carreira, o tão cultuado deus dinheiro, o deus consumismo, o deus capitalismo… Essa é a concepção de fé do opressor e do traidor.
Somos filhos de Ṣàngó, Àṣe Kawó Kabiyèsílé!, somos Oju Ọba, Olhos do Rei, e temos o dever de falar e apontar o que acreditamos ser o errado; temos o direito de bater o nosso Oṣé para rachar a escrivaninha e derrubar os palanques. Ọba Kòso ara dúdú àiyé; um raio na cabeça do traidor, não por eles, pois a morte para o traidor é pouco, eles nem se quer merecem Ikú – morte –, mas pelos irmãos que eles utilizam como massa de manobra, como escada e trampolim para se elevarem, para se autopromoverem. Além dos canalhas se venderem, por quinquilharias, ainda vendem os irmãos. E, se não fosse suficiente, ficam com o dinheiro e com o cargo. Não podemos nos enganar. Nos ludibriaram em Palmares, com as promessas do Cucáu; nos ludibriaram na Guerra do Paraguai, nos prometendo a alforria. Abolicionistas, republicanos, liberais, democratas, sindicalistas, esquerdistas, direitistas, filantropos; todos nos ludibriaram. Compraram alguns dos nossos e fizeram com que estes nos entregassem na bandeja em holocausto ao inimigo. Nestas jogadas políticas só tivemos baixas, uma atrás da outra. Pois é, Durban passou e deixou o seu legado, o legado de que lutar pelos negros é o que pede o novo mercado de trabalho social. Ser militante negro é a bola da vez.
Sabemos que o desemprego anda em alta e para completar o moral, a ética, a honestidade e a coragem, em baixa. E, motivadas por estas sombrias conjunturas, as filas na busca por novos empregos estão compridas: professores, vereadores, deputados, lideres comunitários, estudiosos e até mesmo o “líder” da nação estão na fila. Todos querem trabalhar com a questão racial. A maioria está conseguindo, pois a demanda é grande, pois existe um grande número de oprimidos e escravizados, prestes a se rebelar, para ser pacificado. Estes terão que ser ludibriados e amansados por programas assistencialistas e esmolas, por leis e propagandas. Porém, no mundo real, longe dos gabinetes, câmeras e holofotes, o genocídio continua a todo vapor!
A questão é a seguinte: os irmãos têm que serem levados a entender que não existem caminhos fáceis e menos ainda atalhos na nossa luta, na nossa libertação física, mental e espiritual. Luta que se faz necessária para nossa permanência na Terra. Existem alguns atalhos, porém esses atalhos nos conduzem direto para o covil das serpentes e não para o nosso verdadeiro objetivo. São atalhos fictícios e suicidas, que no decorrer encontraremos dinheiro, mulheres brancas, cargos, carros, status social; contudo e por fim, o veneno do homem branco e o caixão: o genocídio africano.
Nós que somos, na medida do possível, revolucionários; que somos os guerreiros dispersos do povo preto; os remanescentes quilombolas; a vanguarda e retaguarda da luta; tomaremos como referência irmãos dignos, tais como: Ojéladê Odé Walê, José Correia Leite, Steve Biko, Winnie Mandela… Homens e mulheres que dedicaram suas vidas na luta pela liberdade de seu povo, nosso povo. Toda essa falange, composta em sua maioria por anônimos, que se viraram de todas as formas possíveis, mas sempre mantendo a dignidade, a integridade, a perseverança e a ética; sempre munidos com o amor e o respeito à causa Pan-africana. Seres humanos que jamais tiveram como finalidades os interesses pessoais. Essas são nossas referências e não àqueles que beberam e se lambuzaram do veneno do homem branco estuprador. Nesse grupo temos, também, Jomo Kennyata, o Grande Mau-Mau do Quênia, que foi, juntamente, com Kwame N’Krumah, o Redentor da África, sem sombra de dúvida, duas das maiores expressões do Pan-africanismo e sinônimo de honestidade e luta. Ambos foram garçons, lavaram copos e pratos no Ocidente para os brancos, mas estudaram e se prepararam; depois retornaram para suas terras de origem e tornaram-se chefes de Estados. Somos um povo composto por homens e mulheres inteligentes, arrojados e criativos, e com plenas capacidades para sobrevivermos com dignidade. Não precisamos de corruptores canalhas. Sabemos que as coisas não são fáceis, nunca foram. Porém, piorou depois que fomos arrancados da África, a terra de nossos ancestrais. Durante mais de cinco séculos só passamos por provações. E a honestidade diante dessas dificuldades será recompensada pela confiança e pelo respeito de todo o povo, uma vez que: “A mentira só dura, enquanto a verdade não chega…”. E os pretos do mundo estão chegando, estão espalhados, perdidos, iludidos, mas estão se encontrando nos labirintos da vida e da luta. Os combates serão longos e nossos filhos e netos, com perseverança, chegarão na terra prometida. Tiraremos nossos inocentes irmãos das garras do Tio Tom, esse que tem um lugar reservado na revolução: o mesmo que está reservado a seus controladores, os brancos colonialistas.
Por enquanto, temos que ouvir os mais velhos – aqueles que tem alguma coisa interessante para nos ensinar, pois idade não significa sabedoria –, estudar, ler, trabalhar, conhecer a nossa verdadeira história, tanto a do nosso território de origem – África – quanto da nossa presença e resistência nas Américas. Ancestralidade, permanência e linhagem africana no mundo, isto é o que nos interessa de fato: existência plena. Já que temos que ter referência, raiz e firmamento, para o que pensamos e falamos; agimos. Temos que ter em que se segurar, um apoio. Então, a partir daí, estaremos aptos a adotar a filosofia política e cultural do Pan-africanismo, da consciência africana, e as táticas de resistência e luta que foi legado pelos antigos. E tudo que engloba a consciência e ação. E com nossa sabedoria ancestral e milenar venceremos a opressão secular da supremacia branca. Já que estaremos revestidos com a nossa sagrada filosofia primitiva, a mesma que nos tornam aptos a refletir sobre o que está em nossa volta, sobre o passado, presente e futuro do nosso povo. E essa capacidade de refletir sobre o que nos foi imposto, sob a violência da cruz, da espada, do fuzil e da brancura, que nos conduzirá à liberdade.
Meu lindo e grandioso povo, para rompermos com as tão destrutivas prisões mentais, que o processo branco de aniquilação africana impôs, temos hoje, mais do que nunca, que adquirir um conhecimento libertador e revolucionário. Portanto, temos que ter em mãos alguns livros para lê-los e entendê-los. Livros que foram escritos pela família preta espalhada pelos quatro cantos do mundo, tais como: Malcolm X, de Malcolm X e Alex Haley; Escrevo o que eu quero, de Steve Biko; Racismo e sociedade e A África que incomoda, ambos de Carlos Moore; Alma no Exílio, de Eldridge Cleaver; Os Condenados da terra e Pele negra, máscaras brancas, ambos de Frantz Fanon; todos os escritos e a filosofia de Marcus Garvey; Unidade cultural da África Negra, de Cheikh Anta Diop; …E disse o velho militante, de José Correia Leite e Cuti; A arma da teoria, de Amílcar Cabral; Zenzele, de J. Nozipo Maraire; O poder negro, de E. U. Essien Udom; Parte de minha alma, de Winnie Mandela; Malcolm X: uma vida de reinvenções, de Manning Marable e o Quilombismo e O Brasil na mira do Pan-africanismo, ambos de Abdias do Nascimento. Esses são alguns dos vários livros ideais na aquisição da consciência africana; são eles os escritos da revolução preta. Porém, devemos lê-los com uma visão crítica, fria e analítica, e, a partir disso, absorver o que for de melhor serventia à nossa causa; após isso será, como profetizou Emmanuel Dongala, “um fuzil na mão, um poema no bolso”.

PALAVRA AO RÉU - Por: Abiṣogun Olatunji Oduduwa -  UCPA -  2004 / Revisão 2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lembrando Nina, com amor e revolta… (Abisogun - 19/8/16 - UCPA)


Para nós, povo africano na diáspora, muito por conta da experiência do infame comércio de gente e da consequente escravização, fazer arte sempre foi um paradoxo; pois transitamos em uma linha tênue que separa arte e política. Sem sombra de dúvida, o povo africano é o maior produtor de cultura do Ocidente, talvez tal fato tenha se dado pela tentativa de fugir da dor, da solidão e do desamparo. Por esse motivo, a nossa cultura tem um ethos de tristeza; principalmente a música. Tristeza que é canalizada e verbalizada como uma ferramenta de luta, um instrumento de libertação. O que desagrada o senhor de escravos. Pois querem nossa música, nossa cultura, nossa fantástica capacidade de proporcionar felicidade, mas não querem, de jeito algum, a liberdade dos nossos corpos e mentes… Dentre toda a tradição de artistas africanos na diáspora, com risco de erro, Nina Simone talvez tenho encarnado o que seria a síntese do paradoxo anteriormente citado, uma vez que ela fez música, fez o melhor jazz que já se ouviu por essas bandas do mundo, e fez política, fez política radical, pregou a libertação negra e a aniquilação da supremacia branca… Seria uma arte engajada, como diria os críticos, ou seria a própria condição da existência preta no mundo? Tanto que, em um momento de ebulição revolucionária, fora considerada a “poeta da revolução…”. Nina, assim como vários outros irmãos pretos, pagou um preço alto por ousar fugir da fronteira que lhe fora imposta e, principalmente, por atacar a supremacia branca. O “grande pai branco” não aceita críticas! E o demônio, oriundo dos cáucasos gelados, movimentando a sua famigerada máquina de moer carne e alma da gente preta-africana, destruiu Nina Simone, jogando-a no ostracismo… Fazendo dela um bagaço de gente… Como fez com muitos outros… Porém, ela foi uma combatente que fez as suas escolhas e que não vacilou quando o assunto foi a liberdade do seu povo. É certeza que não se arrependeu… “Quem bebe das águas da liberdade jamais se arrepende…”, diz o provérbio africano. A nossa Nina, com sua pele de ébano e sua expressão e porte de rainha, movimentou multidões com a sua voz e continua movimentando pessoas pretas em várias partes do mundo; desta forma, fez a sua parte e deu a sua parcela de contribuição na luta permanente pela vida preta. E você, preto? E você, preta? Qual é a sua parcela de contribuição? Neste sábado, a nossa parcela de contribuição, enquanto organização pan-africana, dentre outras coisas, vai ser rememorar o significado da vida e do legado artístico e revolucionário de Nina Simone: uma africana retinta que usou os dedos e a voz como arma de luta. Axé, povo preto!!!

(Abisogun - 19/8/16 - UCPA)