"Nzambi a tu bane nguzu um kukaiela"

sábado, 12 de agosto de 2017


Marcus Mosiah Garvey Jr. nasceu em 17 de agosto de 1887, na Baía de Santa Ana, na Jamaica. Seus pais eram Marcus Mosiah Garvey, um pedreiro e Sarah Jane Richards, uma trabalhadora doméstica. O Marcus Garvey teve onze irmãos, dos quais nove morreram durante a infância. Somente Marcus Garvey e sua irmã velha, Indiana, viveram até a idade adulta.



A segunda esposa de Marcus Mosiah Garvey foi Amy Jacques Garvey (1895-1973). Eles se casaram em Nova York, em 1922, logo após seu divórcio. Amy Jacques desempenhou papéis organizacionais importantes na UNIA e foi a principal responsável por transmitir para as pessoas os ensinamentos pessoais de e sobre Marcus Garvey, depois que ele morreu. Ela e Garvey tiveram 2 filhos Marcus Garvey e Julius Winston Garvey.




A primeira esposa de Marcus Mosiah Garvey foi Amy Ashwood Garvey (1897-1969). Eles se casaram em Nova York em 1919, mas divorciaram-se em 1922. Amy Ashwood era uma ativista pan-africanista que dedicava uma atenção especial para a luta e os direitos das mulheres pretas.


Marcus Garvey inspirou todos os principais movimentos pretos do século XX, tanto na África como nas Américas. Alguns dos seguidores da ideologia de Garvey incluem Elijah Muhammad, Louis Farrakhan, Malcolm X e Martin Luther King Jr. Também líderes de estados independentes africanos, como os presidentes Nnamdi Azikiwe, Kwame Nkrumah, Jomo Kenyatta, Nelson Mandela, Patrice Lumumba, Julius Nyerere, etc.

Garvey teve um acidente vascular cerebral em janeiro de 1940, o que o deixou parcialmente paralisado. Em maio de 1940, George Padmore escreveu um artigo afirmando que Garvey havia falecido, o que irritou tanto a Garvey que ele sofreu um segundo acidente cardíaco fatal. Marcus Garvey morreu em 10 de junho de 1940, em Londres, aos 53 anos.

Em 1928, Garvey criou o Partido Político do Povo (PPP), que foi o primeiro partido político moderno da Jamaica e o primeiro a defender os interesses da maioria preta. O manifesto do partido exigia a representação oficial no Parlamento britânico, um salário mínimo, uma reforma agrária, uma universidade jamaicana, uma reforma judicial, um sistema elétrico administrado pelo governo, escolas públicas e bibliotecas públicas além de uma ópera nacional.




Marcus Garvey lançou o primeiro empreendimento comercial da UNIA, o Black Star Line Steamship Corporation em Nova York, em 1919. Os objetivos da corporação foram estabelecer um modo eficiente de transporte, comunicação e comércio entre os pretos do mundo e melhorar a estatura, a auto-imagem e o orgulho desse povo. A população preta de várias partes da da diáspora investiram na corporação, comprando ações por cinco dólares cada.


Garvey viajou para a Inglaterra em 1912. No país britânico, Marcus Garvey trabalhou nos escritórios do jornal African Times e Orient Review sob a liderança de Duse Mohammed Ali, o famoso nacionalista preto e jornalista. The African Times e Orient Review foi a primeira revista política produzida por e para os pretos até então publicada na Grã-Bretanha. Essa revista fora lançada entre os anos de 1912-1913 e 1917-1918.

Na foto: Duse Mohammed Ali


A primeira divisão da UNIA foi formada em Nova York, em maio de 1917. Dentro de um mês, a organização tinha 2 milhões de membros em todo os Estados Unidos. Em 1920, a UNIA tinha 1.100 capítulos em 40 países ao redor do mundo, como Reino Unido, Cuba, Panamá, Costa Rica e Gana. Em 1926, a adesão da UNIA cresceu para mais de 11 milhões de membros. Marcus Garvey construiu a maior organização preta da história.


Durante todo o mês de agosto de 1920, a organização UNIA-ACL de Marcus Garvey realizou sua primeira convenção internacional na cidade de Nova York. A maioria dos eventos aconteceu no New York Liberty Hall. Os maiores eventos foram realizados no mundialmente famoso Madison Square Garden, na cidade de Nova York. Cerca de 25 mil pretos de todo o mundo participaram da convenção. As delegações de 25 países africanos também participaram.


Em 1918, nove anos após o lançamento do seu primeiro jornal, The Watchman, Marcus Garvey e a UNIA lançaram o jornal Negro World. Esse periódico cresceu rapidamente e passou a ser de um fenômeno semanal para um fenômeno mundial; com uma circulação de 200.000, número alto para a época. Apresentava relatórios dos capítulos da UNIA, poesias, trechos literários, uma página de mulheres e comentários sobre eventos globais significativos para os pretos. O jornal da UNIA possuía seções em espanhol e francês. As autoridades coloniais temeram o jornal, e o Negro World fora proibido em muitos países, como Belize, Trinidade, Guiana, Jamaica e vários países africanos


Em um esforço para reconstruir a influência internacional da UNIA, Marcus Garvey mudou-se para Londres em março de 1935. Em Londres, Garvey continuou a falar amplamente sobre o nacionalismo preto e a "África para os africanos, na África e no estrangeiro" , aparecendo freqüentemente no Speaker's Corner Hyde Park.


Em 1923, quando sua empresa de navio a vapor entrou em falência, Garvey foi condenado por fraude postal por usar o correio dos Estados Unidos para coletar dinheiro para investimento em um navio. O governo americano por meio do FBI durante anos tentou uma forma de desarticular a UNIA e deportar Marcus Gavery, e essa questão da fraude postal foi o pretexto que os brancos americanos queriam. Ele foi para a prisão por dois anos. Sua sentença foi comutada pelo presidente Coolidge antes que Garvey fosse deportado para a Jamaica.


Em 1919, Edgar Hoover contratou o primeiro agente preto do FBI para se infiltrar na UNIA. O agente James Wormley Jones foi designado como número de código 800. Outro caso, foi que, um dos confidentes de Garvey, Herbert Boulin era um espião do FBI conhecido como agente P-138.
Na foto: Marcus Garvey sendo preso.



O FBI estabeleceu um programa especial de contra-inteligência chamado COINTELPRO, para neutralizar dissidentes políticos. Entre os anos de 1956 e 1971, o FBI utilizou o programa COINTELPRO para investigar grupos políticos nacionais "radicais" para a inteligência que levariam ao envolvimento de inimigos estrangeiros com esses grupos. De acordo com documentos do FBI, um dos propósitos do programa COINTELPRO era "expor, interromper, desviar, desacreditar ou neutralizar as atividades dos nacionalistas pretos". Eles queriam evitar a ascensão de um "messias" preto; décadas depois de terem destruído Marcus Garvey, os brancos ainda temiam a sua influência e legado.

A Convenção da UNIA adotou a Declaração dos Direitos dos Povos Negros do Mundo, que foi um dos primeiros e mais completos documentos de defesa dos direitos humanos e detalhando os abusos contra os negros em todo o mundo. O documento exigiu como: a. A liberdade da África para os negros do mundo. A condenação do termo "nigger" e a estipulação de que o "negro" deve ser escrito com uma capital N. Não há tributação sem representação. Igualdade de tratamento perante a lei. A condenação da segregação e do linchamento.


A Black Star Line, empresa da UNIA, comprou o seu primeiro navio o SS Yarmouth em setembro de 1919. Mais tarde, foi oficialmente renomeado o SS Frederick Douglass. O navio passou a navegar por três anos entre os EUA e as Índias Ocidentais como o primeiro navio da da UNIA, com uma equipe totalmente preta e um capitão também preto.

O principal objetivo de Garvey era a independência de todos os países africanos e a criação dos Estados Unidos da África. A UNIA embarcou em um plano para repatriar alguns pretos dos Estados Unidos e outras partes da diáspora africana de volta à África. Libéria, um país estabelecido em 1822 pela American Colonization Society era a base geográfica pretendida pela UNIA.

Em 1920, Garvey estabeleceu a Black Factories Corporation e ofereceu ações para os afro-americanos comprarem. Ele destinou um milhão de dólares para o projeto. Ele queria produzir tudo o que uma nação precisava para que os afro-americanos pudessem confiar completamente em seus próprios esforços. Ele gerou renda e forneceu empregos em suas numerosas empresas, incluindo uma cadeia de supermercados e restaurantes, lavanderia a vapor, loja de costura, loja de vestidos, loja de meias (vestuário, moda, chapéus, acessórios, etc.), editora e uma fábrica de bonecas pretas.
Somente na cidade de Nova York, Garvey possuía vários edifícios, possuía uma frota de caminhões e tinha mais de 1000 negros trabalhando em seus negócios. A UNIA de Marcus Garvey também operou o Phyllis Wheatley Hotel (3-13 West 136th Street, Nova York, NY).

Marcus Garvey voltou para a Jamaica da Inglaterra em julho de 1914. Com a ajuda de um associado Enos J. Sloly e cerca de quatro outros, ele criou a Associação Universal de Melhoria do Negro e a Liga das Comunidades Africanas e lançou-a em 1º de agosto de 1914, que é o Dia da Emancipação do Caribe dominado pelos britânicos.



Veja o que José Correia Leite falou sobre Marcus Garvey:
"O movimento garveysta entre nós ficou restrito, mas serviu para tirar certa dubiedade do que nós estávamos fazendo".
(José Correia Leite)
Na foto: José Correia Leite.






 
Garvey teve inimigos, incluindo J. Edgar Hoover e, ironicamente, W. E. B. Du Bois. Du Bois era um integracionista que não apoiava um estado preto separado e nem a repatriação. DuBois, acompanhado de outros membros da NAACP, organizaram a campanha 'Garvey Must Go' e apoiaram o governo dos EUA para que ele o deportasse para a Jamaica.

A Associação Universal de Melhoria do Negro e a Liga das Comunidades Africanas (UNIA-ACL) adotaram oficialmente em 13 de agosto de 1920 no Artigo 39 da Declaração dos Direitos dos Povos Negros do Mundo, durante a Convenção de um mês em Madison Square Garden, em Nova York . A bandeira da UNIA, também conhecida como a bandeira do nacionalismo preto, futuramente adotada pelos pan-africanistas, contêm as seguintes cores: vermelho, preto e verde.

sábado, 15 de julho de 2017


Carmen Pereira (1937-2016) foi uma mulher preta e africana, nascida em Guiné-Bissau, que usou a sua vida para defender o seu povo e o seu território, nacionalista africana, guerrilheira e, por uma questão de princípios, uma pan-africanista por essência; integrou o movimento revolucionário, junto com Titina Sillá e Francisca Pereira, PAIGC (Partido Africano pela Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde) e, portanto, participou ativamente na dura guerrilha contra o colonialismo e racismo português. Chegou a ser, no ano de 1984, após a independência do país, presidente em exercício de Guiné-Bissau; entrando para a história como a primeira mulher a presidir um país africano, na era moderna, e única a presidir Guiné-Bissau. A luta sempre esteve presente na vida de Carmen Pereira, pois ele cresceu tendo como exemplo o seu pai que, com muitas dificuldades, se tornou um dos poucos advogados pretos existentes em Guiné-Bissau, naquela época, colônia de Portugal. Mas tarde ela haveria de se casar, ainda muito jovem, e o sentimento de indignação frente ao racismo branco e o nacionalismo preto que transpirava em todos fez com que o casal logo entrasse no movimento de libertação. Nesse primeiro momento a atuação foi moderada, pois ficaram no campo da análise e organização; o que mudou pouco tempo depois, uma vez que na medida que o colonialismo ia tomando formas mais agressivas a resistência radical e armada se fez necessária. E em 1962 a irmã Carmen Pereira entrou para o PAIGC e logo se tornou uma pessoa ativa e importante no movimento; com armas em punho. Devido a tradição de resistência, por parte das mulheres africanas, o PAIGC criou uma cultura que visava igualar homens e mulheres em suas fileiras, assim Carmen se tornou uma líder das mulheres e peça chave na luta por independência. A atuação de Carmen transcendeu os limites geográficos das colônias portuguesas e ela se tornou a líder e delegada na Organização Pan-Africana de Mulheres na Argélia (organização pan-africanista que agregava mulheres de várias partes da África); pelo seu protagonismo na luta de libertação, em muitos casos tendo a sua importância no mesmo nível que a de Amílcar Cabral, Carmen Pereira passou a ser duramente perseguida pela PIDE, polícia política de orientação fascista responsável por desmantelar a resistência nas colônias portuguesas, teve que, com o coração na mão por ter que abandonar os seus irmãos no campo de batalha, fugir do país. Nesse época, ela morou no Senegal, por um tempo, e logo depois partiu para estudar medicina na União Soviética. Após voltar da União Soviética, Carmen Pereira continuou os seus trabalhos junto ao PAIGC e após a independência ela ocupou vários cargos no governo, como por exemplo, Ministra da Saúde e Assuntos Sociais, Presidente da Assembleia Nacional, foi também responsável pela promulgação da Constituição da República de Guiné-Bissau, Presidente do Parlamento de Cabo Verde e Guiné-Bissau, membro do Conselho de Estado, Vice-Primeira Ministra e Presidente em Exercício, em 1984. Estudar e entender a história de Carmen Pereira, Titina Sillá e Francisca Pereira, é entender o papel das mulheres na causa pan-africana e na luta de libertação do povo preto, seja na África, seja na diáspora. Sabemos que a violência histórica imposta aos nossos ancestrais e aos nossos iguais, nos dias de hoje, não tem precedente na história da humanidade, entretanto, mais do que isso, é importante sempre lembrar que a resistência promovida pelo nosso povo preto também não tem precedentes na história. Carmen Pereira é uma referência pan-africana, pois ela poderia, em sua juventude, ter seguido outros caminhos que lhe apetecesse, porém ela trilhou o caminho da luta coletiva, em amor aos seus e não na busca por interesses próprios. Vida longa a essa nossa irmã preta; Carmen Pereira, uma pan-africanista por essência.

Andresa Maria de Sousa Ramos, mais conhecida como Mãe Andressa (1850-1954) foi uma mulher preta africana, nascida em Caxias, Maranhão, que liderou durante 40 anos a casa de culto aos voduns, divindades africanas do povo jeje, conhecido como a Casa das Minas (Querebentã de Zomadônu, nome em fon); durante todos esses anos ela manteve viva a cultura, o estilo de vida e a filosofia dos povos jeje (fon, mina e ewe), etnia originária do antigo reino do Daomê. Mãe Adressa foi a última princesa africana da linhagem direta do povo de língua fon; e ficou conhecida como uma das principais nochê (sacerdotisa da tradição de voduns) da diáspora africana e a quarta mulher a comandar a Casa das Minas; foi a última vodunsi-gonjaí e o seu nome africano, que segundo a tradição dos povos jeje é dado pelo próprio vodum, era Rotópameraçuleme. A Casa das Mina, terreiro de tradição essencialmente matriarcal, onde apenas as mulheres podem chefiar e comandar os trabalhos comunitários e religiosos, foi fundada no início do século XIX por Nã Agotimé, rainha africana do Daomé, mãe de Gezo, o rei do Daomé, que, após conflitos sucessórios, foi vendida para comerciantes de escravizados e trazida para a Bahia, ilha de itaparica, onde recebeu o nome de Maria Jesuína, e de lá foi para o Maranhão, onde fundou o templo destinado a cultuar os deuses e ancestrais do seu povo, especialmente o seu vodum familiar: Zomadônu. Andressa era descendente direta de Nâ Agotimé. Durante o infame comércio de gente preta para as Américas, foram trazidos para o Brasil africanos das mais variadas etnias e com as mais diversas tradições e complexos civilizatórios; dentre estas, as que mais se destacaram e criaram raízes profundas com frutos perenes foram as tradições dos n’kises, divindades dos povos banto, os orixás, divindades dos povos iorubás, e os voduns, divindades dos povos jeje. Pela dedicação e esforços de mulheres pretas, guerreiras, camponesas e rainhas, aqui convertidas em escravizadas e pequenas comerciantes, essas tradições civilizatórias foram preservadas; e a Casa das Minas, seja sob o comando de Nâ Agotimé, seja sob orientação e comando de Mãe Andressa, é a prova viva que a selvageria branca não conseguiu suprimir a nossa capacidade de resiliência e luta incansável e imbatível contra o racismo e o colonialismo branco europeu. O trabalho e as experiências religiosas dessas mulheres africanas que, não mais em suas terras, construíram templos religiosos, verdadeiros palácios ancestrais, para que os povos africanos de várias outras etnias pudessem reviver a suas tradições e reencontrar os seus deuses, parentes e pais, inquestionavelmente, são as mais autênticas experiências pan-africanas da diáspora, ao lado dos quilombos, portanto, entendemos que a irmã e sacerdotisa do culto aos voduns Mãe Andressa foi uma pan-africanista por essência, pois ela cultivou e trabalhou em prol de algo que pudesse agregar o povo preto; além de fazer o resgate direto das tradições do Daomé, fazendo da Casa das Minas um pedaço da África, agora, um território multiétnico, entre outras palavras, um pequeno Estado pan-africano.



Virgínia Leone Bicudo (1910-2003), foi uma mulher preta, por definição do viés de análise pan-africano, uma mulher preta-africana, nascida no Brasil no ano de 1910, o seu pai era um homem preto, filho de uma africana que sofreu nas costas o peso da escravização, e a sua mãe era uma italiana branca; entretanto, ela, consciente sobre a ideologia do branqueamento e tentativa do Estado branco de eliminar a chamada "mancha negra", nunca titubeou em relação a cor da sua pele e sua origem racial; segundo ela, a primeira coisa que ouviu, por parte de crianças brancas, quando saiu de casa foram as palavras: “Negrinha! Negrinha!”. Essas palavras impactou, marcou e definiu a vida e a carreira desta irmã, que foi educadora, trabalhou em escolas públicas, ministrando aulas de higiene pessoal e saúde, depois se formou em sociologia e se especializou na área de psicanálise, portanto, ela foi professora de escola pública e universitária, socióloga, cientista política, psicanalista e antropóloga social; seu objeto de estudo por excelência foi as relações raciais e o impacto do racismo na psiquê das pessoas pretas. Foi professora da USP, uma das primeiras professoras universitária negra no Brasil, além de ser professora também na Santa Casa de Misericórdia e na Escola de Sociologia Política. Ela confidenciou que foi buscar na sociologia a origem dos seus sofrimentos, imposto pelo mundo demoníaco do homem branco, para que a partir disso pudesse curar as suas dores pessoais; e nessa busca ela esbarrou em Freud e na psicanalise: o que mudaria a sua vida e a forma de enxergar o racismo. Falar de Virgínia Bicudo nos causa uma dor muito profunda, uma mágoa e o desespero de saber o quanto o nosso povo, sem nação ou terra, sofreu e ainda sofre nessa terra (para nós, nacionalistas pretos, essa parada bate forte pra caralho), pois fazer isso é transitar pelos cruéis labirintos da solidão, do desamparo e do constante sentimento de impotência que é ser preto na diáspora africana, principalmente neste inferno odioso chamado Brasil. Fala de Virgínia Bicudo é também falar do racismo, do epistemicídio (assassinato de um tipo de conhecimento), ou racismo epistêmico (diminuição de um tipo de conhecimento), e, principalmente dimensionar o quão cruel é o mundo branco para os descendentes de africanos: eles nos odeiam e só não nos matam em fornos porque a nossa capacidade de resistência os colocariam e situações complicadas; mas não nos iludamos, eles nos odeiam e o que puderem fazer para nos matar, nos apagar da história ou se apropriar do que criamos eles farão. Virgínia Bicudo foi uma visionária, vanguarda do estudo do povo preto dentro de uma perspectiva de agência e centralidade preta, ela foi a primeira pessoa preta, e mulher, a defender em uma acadêmia uma tese sobre as questões raciais no Brasil. Ela fez isso antes de virar moda com os brancos Florestan Fernandes, Oracy Nogueira, Octávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Roger Bastide, e vários outros; porém por força do racismo e do ódio anti-preto a sua obra e contribuição foi por eles e seus discípulos apropriada, excluída, invisibilizada e a sua figura foi jogada ao ostracismo, as vezes mesmo difamada e hostilizada por aqueles brancos que só criaram fama a partir das bases teóricas disponibilizadas pela nossa irmã Virgínia Bicudo. Por exemplo, em 1955, a UNESCO promoveu uma pesquisa no Brasil, sobre as questões raciais, a cargo de Florestan Fernandes e Roger Bastide, ambos brancos, supostamente não racistas, porém a contribuição de Bicudo, pioneira e referência no sobre questões raciais no Brasil, ficou excluída e marginalizada, indicada apenas como leitura complementar. Numa lógica de honestidade e autoridade acadêmica, Bicudo seria a pessoa mais recomendada a dirigir esta pesquisa e relatório. Mas foi rejeitada. Isso por parte de brancos supostamente “amigos dos pretos”. Imagina os brancos que eram inimigos dos pretos. Isso é racismo e genocídio em sua mais completa crueza. É imperativo que resgatemos essa mulher preta, isolada, porém atrelada aos seus irmãos pretos em dor, espírito e compromisso ancestral e atávico. Se hoje, com o advento das facilidades proporcionadas pela internet, não conhecemos a irmã Virgínia Bicudo, mesmo os mais estudados do assunto, imagina em outros tempos, tempos em que não eramos alfabetizados, imagina a solidão de uma pessoa preta que pensou a mente de um povo que ela sabia que não ia ter acesso aos seus escritos e portanto não teriam as condições necessárias para se curar das dores como ela quase conseguiu. Quase conseguiu, porque, mesmo após o amadurecimento intelectual, ela pensou em cometer suicídio, mais de uma vez, devido a pressão do mundo branco que chegou ao ponto nefasto de espalhar panfletos pelas ruas difamando-a. Parece surreal, parece mentira, mas não é, foi real; imagina a cena: psicanalistas brancos distribuindo panfletos pelas ruas de São Paulo difamando uma irmã preta que foi pioneira na psicanalisem, uma irmã que criou as bases para expansão e difusão da psicanálise do Brasil, chamavam-na de charlatã e falsária! Quantos dos nossos não cometeram suicídio por não suportar o ódio destilado pela dissimulação agressiva do mal? A dissertação de mestrado dela, apresentada na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, com o título de Estudo de Atitudes Raciais de pretos e mulatos em São Paulo, em 1945, foi pioneira e revolucionária e, já na época, demoliu não somente o mito da democracia racial brasileira, mas principalmente o falso discurso dos sociólogos marxistas e funcionalistas de que o chamado problema do negro era social, de classe, pois ela, estudando o caso de 31 pessoas, além de algumas famílias de classe média, que tinham seus filhos em escolas públicas, constatou que mesmo ocorrendo mobilidade social as pessoas pretas não deixavam de ser hostilizadas pelas pessoas brancas, as vezes com situações econômicas mas adversas. Antes de Frantz Fanon, e isso é um dado revelador, Virgínia Bicudo já defendia a tese que o racismo era uma patologia que causava graves danos mentais nas pessoas negras, que, fragilizadas pelas agressões raciais, não conseguiam desenvolver todo o seu potencial humano. Bem, paremos por aqui, seja como for, principalmente para esses jovens pretos que estão chegando, torna-se necessário o resgate dos nossos, o resgate dessa nossa irmã preta, neta de uma africana escravizada, alguém que viveu isolada dos seus e cercada pelo demônio, que a todo momento tentou derrubá-la e quando não conseguiu, contrariados pela força da inteligência e inovação desta africana, tentou embranquecê-la: chegando a colocar nos registros oficiais “Virgínia Bicudo, socióloga e psicanalista de cor branca”. Hoje, a obra dela está sendo estudada e sua vida escrafunchada nas universidades de psicologia e sociologia, porém apenas nas mãos de pessoas brancas.

Audley Moore, nome de nascimento, e Queen Mother Moore, nome de luta e título recebido pelos Ashanti (1898-1997) foi uma preta africana, nascida nos EUA, que, ativista e revolucionária da UNIA (Associação Universal para o Progresso do Negro), de Marcus Garvey, dedicou os seus quase cem anos de vida na defesa do projeto político do nacionalismo preto e do pan-africanismo; também, como líder do povo preto, ela lutou pelos direitos civis e foi uma das fundadoras da República Nova Áfrika; organizadora de greve, promotora de campanhas anti-linchamentos; e, como líder comunitária, ela organizou um movimento que impedia que famílias pretas fossem despejadas e quando essas famílias eram despejadas o seu movimento colocavam os móveis e outros utensílios dentro das casas e faziam piquetes, impedindo que os senhorios se aproximassem ou as retirassem novamente. Nascida no sul, com um histórico de violência branca na família, pois quando criança ouviu as histórias sobre o linchamento de um dos avós e o estupro da avó, uma africana outrora escravizada, ela sentiu na pele os horrores praticados pelos demônios contra os seus irmãos de cor e origem e isso influenciou em sua vida de entrega, dedicação e luta. Por conta do racismo, Queen Moore teve que abandonar muito cedo a escola, para trabalhar e ajudar a família, e a imagem que mais marcou aquela criança era a humilhação, prisões arbitrárias, espancamentos e linchamentos dos homens pretos, humilhação e desprezo; ela conta que naquela época era muito comum os policiais brancos prenderem os homens pretos para depois estuprarem as suas mulheres. Perdida e se sentindo impotente neste Sul branco e segregado, após ouvir, em Nova Orlens, um discurso de Marcus Garvey ela se converteu ao nacionalismo preto e se mudou, após peregrinação por várias cidades dos EUA, para o Harlen, Nova Iorque, onde se filiou à UNIA e iniciou a sua longa jornada de luta rumo a liberdade do povo preto. Neste contexto, ela participou da organização da Primeira Convenção Internacional de Garvey; foi acionista da Black Star Line (empresa marítima criada por Marcus Garvey que tinha como objetivo estreitar as relações entre a África e a diáspora africana, assim como possibilitar o retorno dos africanos para o continente mãe); fundadora e presidente da Associação Universal das Mulheres Etíopes, do Comitê de Reparações para Descendentes dos Escravos dos EUA, da Fundação Cultural Afro Americana e co-fundadora da Associação de Harriet Tubman, entre outras ações de autodeterminação; por esses feitos, Queen Moore se tornou uma lenda na história africana no século XX. No ativismo político, dentro de uma perspectiva pan-africanista e internacionalista, ela foi até a ONU acusar os Estados Unidos de genocídio e exigiu autodeterminação, reparação e, como nacionalista preta, principalmente terra, para os africanos nos Estados Unidos que eram descendentes dos africanos escravizados durante o tráfico transatlântico; outros pontos inseridos em sua petição era que o governo americano deveria garantir o subsídio completo para os africanos que desejassem voltar para a África. Solicitações essas que não foram atendidas pela supremacia branca, como já era de se esperar, entretanto, tais elementos serviram de subsídios para direcionar a luta preta nos Estados Unidos e foi uma antítese ao racismo, elevando tanto a autoestima quanto programas políticos que de fato trouxeram avanços para os pretos naquele país. Durante um tempo, após o desmantelo da UNIA e prisão e deportação de Marcus Garvey, por parte do governo supremacista dos EUA, ela se aproximou do Partido Comunista Americano, mas quando ela percebeu que tal partido tinha como programa político apenas a utilização dos pretos como massa de manobra, automaticamente, Queen Moore se afastou e continuo de forma autônoma o seu trabalho; o seu pan-africanismo e nacionalismo preto se tornaram mais consistentes por causa dessa experiência traumática de racismo velado. E, nessa época, ela defendeu enfaticamente a revolta Mau-Mau do Quênia e condenou publicamente o governo britânico pelo massacre perpetrado contra os povos colonizados da África, principalmente contra os o povo kykuyu – etnia base dos Mau-Mau. Neste caminho, enquanto isso, aos poucos ela foi se aproximando de Malcolm X e suas ideias. Por decorrência disso, ela se filiou na OUAA (Organização da Unidade Afro-Americana, organização pan-africanista e nacionalista preta criada por Malcolm X, após a sua ruptura com a Nação do Islã, que tinha como objetivo a autodeterminação e a libertação dos pretos nos EUA e ajuda permanente aos pretos de todo o mundo) e passou a lutar nas comunidades implantando escolas que defendessem tal programa político. Era de fato uma rainha africana, uma incansável pan-africanista por essência. Pela sua luta pan-africana, no ano de 1972, ela foi homenageada pelo povo Ashanti, durante o funeral de Kwame N’krumah em Gana, e recebeu o título de chefe Rainha Mãe; nesta dimensão internacional ela lutou pela liberdade de Nélson Mandela e pelo fim do apartheid que assolava as terras da África do Sul e mantinha o povo preto em uma espécie de escravidão contemporânea. Participou do sexto Congresso Pan-Africano, na Tanzânia. Outra característica dessa perseverante nacionalista era o seu repúdio a política imperialista dos EUA e a busca incansável da implementação dos direitos humanos. A sua última aparição pública, sempre na luta pelo seu povo, foi em 1995 na Marcha de um milhão de homens, organizada pelo nacionalista preto e ministro da Nação do Islã Louis Farrakhan. Como podemos notar, as mulheres africanas foram linha de frente da luta pan-africanista no mundo, seja nos quilombos, seja nos candomblés ou mesmo dentro da lógica de luta oferecida pela modernidade ocidental, enfim, elas sempre estiveram lá, lutando não somente pelos direitos das mulheres mas pelo direito do povo preto em sua totalidade. Que honremos essa nossa grande rainha-mãe, uma pan-africanista por essência, que, quando questionada sobre a condição do preto no mundo, dizia aos mais jovens:  “não havia mais nada a fazer do que lutar”. Tal frase traduz a vida desta mulher que dedicou a vida ao seu povo. O que causa estranheza e mesmo tristeza é saber que muitas pessoas pretas conhecem e reverenciam referências brancas que lutaram pelo direito das mulheres brancas e contra os pretos mas nem sequer ouviram falar ou tensionaram buscar a história de irmãs como Queen Mother Moore; isso mostra o quão colonizados nós somos.

Hilda Dias dos Santos, mais conhecida como Mãe Hilda Jitolu, nome que recebeu no candomblé em 1942 (1923-2009), foi uma irmã preta-africana, nascida em Cosme de Farias, Salvador, BA, que, além de Iyálorixá do candomblé de tradição Jeje, foi, seguindo a linhagem das grandes africanas que criaram as bases do pan-africanismo por essência em terras baianas, uma líder exemplar de sua comunidade e ativista da cultura e das tradições africanas no Brasil e combatente visionária na luta anti-racista. No ano de 1952, após a morte do babalorixá que cuidava do seu ori, ela fundou o terreiro de candomblé de tradição jeje Ilê Axé Jitolu, no Curuzu, bairro da Liberdade, Salvador. Local de onde sairia, anos mais tarde, o Bloco Afro Ilê Aiyê, tendo Mãe Hilda Jitolu a frente da iniciativa e coordenação dos trabalhos; além de mentora intelectual e filosófica das temáticas abordadas pelo bloco, que tinha sempre a África e a experiência dos africanos na diáspora como referência última. Muitas pessoas pretas tomaram contato com a história da África e dos pretos no Brasil, agregando ferramentas teóricas na luta contra o racismo branco, por intermédio das músicas e dos desfiles do Ilê Aiyê; seja em Salvador, seja em outras partes do Brasil. Mãe Hilda, por meio de sua dedicação e trabalho, sempre guiada pelos ancestrais e deuses africanos, difundiu o amor e o orgulho preto, assim como a filosofia deixada pelos antigos africanos escravizados e a importância de se resgatar uma estética africana no dia a dia das pessoas pretas, não somente nos desfiles ou nas festas de candomblê. Em nível nacional, na luta anti-racista e pelo resgate da história e cultura africana, Mãe Hilda articulou politicamente, em várias esferas do movimento artístico, negro e no interior do próprio Estado, a criação do Parque Memorial Zumbi dos Palmares, em Alagoas; em homenagem ao herói Zumbi e, principalmente, ao grande Quilombo dos Palmares, uma das maiores experiências pan-africanistas das Américas. Assim como muitas outras irmãs, em sintonia com o entendimento da importância da educação na superação do racismo e desigualdades sociais, em 1988, ela fundou a Escola de Alfabetização Hilda Jitolu, que tinha como objetivo alfabetizas as crianças pretas que eram filhas dos adeptos da casa, do Ilê Aiye e da própria comunidade do Curuzu; e, em 1995, também dentro do Ilê Aiyê, ajudou na implementação do Projeto de Extensão Pedagógica do Ilê Aiyê; isto é, para facilitar a educação das crianças pretas, o Ilê passou a sistematizar, em sequências didáticas, as propostas pedagógicas, centradas em uma lógica civilizatória africana e na luta dos pretos contra a escravidão e racismo, que antes eram inseridas apenas nas músicas e nos desfiles do bloco afro. Este projeto pedagógico, não se limitou à Escola de Alfabetização Hilda Jitolu, mas, transcendendo a Senzala do Barro Preto, como é conhecido o local onde o Ilê faz os seus ensaios e apresentações, que é também a escola, foi parar nas salas de aula das escolas públicas das periferias de Salvador. Isso muito antes da implementação da Lei Federal 10.639/03, que versa sobre a obrigatoriedade do ensino de história e cultura africana e afro-brasileiras nas salas de aulas das escolas públicas e privadas de todo o Brasil, em todas as suas modalidades: infantil, fundamental, médio e superior. Entretanto, cabe uma atenção especial à atenção que tanto a Mãe Hilda quanto o Ilê Aiyê dispensava à alfabetização e o letramento das crianças pretas que a partir dali tinham mais ferramentas para sobreviverem em um mundo hostil e de mentalidade escravagista, como é o caso de Salvador, BA faziam parte de tal projeto. Na comemoração dos 30 anos do Ilê Aiyê, no ano de 2004, o tema do desfile foi a pessoa e a história desta grande matriarca africana: Mãe Hilda Jitolu. Mesmo já com idade avançada, foi ela quem coordenou espiritualmente os trabalhos de abertura do desfile; como vinha fazendo desde a fundação do Bloco Afro Ilê Aiyê, em 1974. É muito difícil, em poucas palavras, traduzir o significado da luta de uma matriarca africana como esta, que, apesar de todas as adversidades impostas, seja pelo racismo, seja pelo machismo e ou mesmo pela miséria oriunda de um capitalismo selvagem e bestial, conseguiu operar mudanças significativas no seio de sua comunidade e povo. Muitas pessoas pretas passaram a andar de cabeça erguida, se sentir bonita, pertencentes a este mundo, com iguais capacidades cognitivas e estética, pelos esforços desta nossa irmã preta-africana; portanto, acreditamos que a Mãe Hilda Jitolu, hoje não mais entre nós, pois habita a dimensão dos ancestrais, deve ser lembrada e resgatada, não somente em nossa memória, mas em nossas ações, em nossas práticas educacionais e pedagógicas, junto aos nossos irmãos de cor e origem. Mãe Hilda Jitolu deve ser lembrada como exemplo a ser seguido: pois ela foi uma verdadeira pan-africanista por essência.

Mamphela Ramphele (1947-) foi uma mulher preta e africana, nascida em uma África do Sul dividida e oprimida por uma minoria branca e assassina, que percorreu uma longa jornada rumo a ascensão política e pela liberdade e dignidade do seu povo preto; nesta caminhada, ela atuou como ativista política, médica de grandes instituições e comunitária, acadêmica, antropóloga, chanceler de universidade, empresária, executiva, mulher de negócios e autora de livros variados. Mas não vamos falar da sua vida pós-apartheid, que a levou a ser reitora de universidade, gerente-executiva do Branco Mundial, fundadora de partido político e candidata a presidente da República, em oposição ao CNA. Vamos falar de sua juventude a na luta que travou junto com Steve Biko e Barney Pityana, no Movimento da Consciência Preta e na Organização dos Estudantes Sul Africanos. As bases da ativista e Dra. Mamphela Ramphele estavam em sua cultura ancestral e na educação que recebeu dos seus pais, Rangoato Rahab, mãe, e Pitsi Eliphaz Ramphele, pai, ambos professores de escolas públicas; que a incentivaram a estudar e nunca achar que tinha chegado ao fim. A política de violência europeia vinha de longa data na África do Sul, fato esse que se agravou com o advento da política segregacionista do apartheid, imposta pelo Partino Nacional, em 1948, um ano após o nascimento da pequena Mamphela. As cenas presenciadas por aquela criança preta, assim como a humilhação sofrida por todos os pretos, proibidos de entrar em alguns ambientes, de usar banheiros, bebedouros e de transitar livremente pelas terras ancestrais, a violência policial e os baixos salários, as terríveis condições de vida, e, principalmente, uma cena que chocou aquela jovem criança, a proibição que alguns pretos tiveram de enterrar os seus familiares em terra sagrada, ou seja, essa gama de situações foram sendo introjectadas na estrutura de pensamento da guerreira Mamphela e quando ela se viu na universidade, jovem, com ânsia de mudança, tais sentimentos afloraram e foram canalizados em ativismo político firme a nacionalista: Mamphela Ramphele foi uma pan-africanista por essência. Nesta época, assim como Steve Biko, Mamphela Ramphele cursava medicina e participava do movimento estudantil; Biko, com quem mais tarde Mamphela Ramphele iria se relacionar e ter dois filhos (Lerato e Hlumelo), rompeu com o movimento de estudantes de caráter misto (União Nacional de Estudantes Sul Africanos) e formou a Organização dos Estudantes Sul Africano, de caráter nacionalista preto e pan-africano: estudantes brancos eram proibidos de participar desse movimento; concomitantemente, Steve Biko lança as bases da consciência negra e cria o Movimento da Consciência Negra, para atuar fora da universidade e junto ao povo nas comunidades e bantustões. Mamphela, filiada a ambos os movimentos de Biko, passou a ter um papel de centralidade na difusão das ideias da consciência negra e no fomento da indignação e rebelião contra a supremacia branca que era representada pelo apartheid; pela sua inteligência e ativismo político, ela foi eleita presidente de seção da Organização dos Estudantes Sul Africano). Ela, em 1972, concluiu os estudos de medicina, se tornando médica, e consciente do dever que tinha diante dos seus irmãos de cor e origem assim como ciente da importância de ser dar uma devolutiva à comunidade, ela voltou o seu trabalho para a comunidade preta, perseguida e segregada. Exercendo a medicina e fazendo o ativismo político, um trabalho de formiguinha na tentativa de conscientizar os jovens pretos sobre a sua história, beleza e resistência, foi acusada de terrorista, apenas por portar livros julgados como subversivos e proibidos. A partir disso, banida e vigiada, proibida de se reunir com um grande número de pessoas ou integrar a qualquer tipo de organização, ela intensificou o trabalho clandestino e comunitário, fundando uma organização clandestina que tinha como objetivo difundir as ideias sobre a importância do trabalho comunitário ligado a saúde; nesse processo ela diluia a luta política, a consciência preta o nacionalismo preto. Sempre na clandestinidade, ela viajou por toda a África do Sul levando a mensagem de esperança aos jovens, chegando a sair do país para denunciar o genocídio existente em seu país e articular acordos. Na medida que a resistência ia enfraquecendo o apartheid, Mamphela Ramphel conseguiu um pouco mais de tranquilidade e, seguindo os ensinamentos dos pais, voltou a estudar, em que fez Comércio, Pós-Graduação em  Saúde Tropical e mais uma graduação em Saúde Pública; fez doutorado em Antropologia Social e passou a escrever livros sobre saúde, sociologia e politica. Com o fim da política de apartheid, Mamphela Ramphel teve uma carreira promissora dentro e fora da máquina. Sobre tudo isso, é importante estudar as nossas referências para entender quais são os nossos erros e acertos; no final da trajetória política Mamphela Ramphel esteve ligada a instituições do Estado e mesmo instituições brancas e privadas, neste ponto, cabe sim uma crítica a tal postura, pois sabe-se que a supremacia branca usa de artifícios do demônio pra seduzir e cooptar os mais rebeldes; que fiquemos atentos diante desses artifícios; seja como for, a irmã Mamphela Ramphel teve um papel importante, na década de 70 e 80, momento crítico da política racista sul-africana, momentos de desilusão e falta de perspectiva; enfim, tanto Mamphela Ramphele, quanto Steve Biko, desempenharam o papel de restituir no seio do povo, de suas comunidades, o amor-próprio, o orgulho e o sentimento de mudança, tanto naqueles jovens quanto em seus velhos pais. Tempos depois, resultado do trabalho direto do movimento de Steve Biko e Mamphela Ramphele, esses jovens derrubaram o apartheid; infelizmente, os lideres e burocratas do Congresso Nacional Africano não souberam conduzir o processo e o poder continuou nas mãos dos brancos; mas essa é outra história. Em 2004, Mamphela Ramphel foi eleita uma das 100 mulheres mais importantes da África do Sul. Que honremos e respeitemos essa nossa pan-africanista por essência: Mamphela Ramphele.



Frances Ellen Watkins Harper (1825-1911) foi uma mulher preta-africana, nascida livre em uma América escravista, na cidade de Beltimore, Maryland, que, além de ferrenha abolicionista, sufragista preta e defensora do direito das mulheres pretas, foi professora, poeta, contista, ensaísta e autora de livros diversos; defendia abertamente que o Estado tinha o dever de operacionalizar reformas progressistas para ressarcir e inserir os ex-escravizados; o incluível foi que ela fez tudo isso em um país patriarcal, machista, extremamente racista e escravista. Fundadora de uma organização política de mulheres pretas, por nome de Associação Nacional de Mulheres de Cor, em 1894. Ela defendia o direito das mulheres e tinha polêmicas com as sufragistas brancas que além de não apoiarem as mulheres pretas ainda defendiam os linchamentos dos homens pretos. Uma das principais bandeiras da organização polítca de Frances Harper era pressionar o governo para a aprovação de uma lei anti-linchamento. Seu primeiro livro de poesia, escrito aos 20 anos de idade, foi Forest Leaves (1845); porém o reconhecimento e fama viria anos mais tarde com o popular Poems on Miscellaneous Subjects (1854), reimpresso várias vezes. Fora da poesia, a sua principal obra foi o romance Iola Leroy, publicado já em idade avançada, aos 67 anos; considerado o primeiro romance de um africano nos Estados Unidos. Órfãs de pais, ela foi criada pelos tios; e é nessa época, na infância, que se cria as bases psicológicas, e nisso ela teve a forte influência do seu tio, o abolicionista Rev. William Watkins, que era também um ativista de direitos civis do pretos libertos. Como abolicionista, a principal atividade de Frances, como integrante e palestrante da Sociedade Americana Anti-Escravidão, foi ajudar na fuga de africanos escravizados na Estrada de Ferro Subterrânea rumo aos estados do norte e Canadá. As estradas de ferro subterrâneas era um complexo de tuneis, construídos, nos fins do século XVIII e durante parte do XIX, por africanos escravizados e abolicionistas, que ligavam o sul escravista ao norte que, até então, havia abolido a escravidão africana e ao Canadá, país em que não havia o regime escravagista; estimativas apontam que cerca de 100.000 africanos conseguiram a liberdade usando de tais meios de fuga. Após a Guerra de Secessão (1861-1865), que estabeleceu a abolição da escravidão africana nos Estados Unidos da América, a irmã Frances Harper, que tinha a sua área de atuação no norte, passou a viajar pelos estados do sul para acompanhar a situação social, econômica e cultural dos africanos recém-libertos. Tudo que ela via, toda a crueldade que pesava sob as costas desses africanos, como humilhação, fome, violência, prisões arbitrarias, linchamentos e estupros, por parte de brancos derrotados e ressentidos, verdadeiros “demônios supremacistas!”, como brandou, um século depois, o irmão Malcolm X, enfim, tal situação era descrita em seus ensaios, poesias e produção literário por um todo. Se teve alguém que conseguiu captar a alma das pessoas pretas, assim como as suas angustias e esperanças de fuga para o norte, foi a irmã Frances Harper: uma pan-africanista por essência; pois, famosa e prominente com a sua produção literária, ela poderia se dar ao luxo de desfrutar os louros da fama no norte, longe da perseguição dos confederados, embriões da Ku Klux Klan, porém como era uma irmã amante de sua origem e povo, uma autêntica pan-africanista por essência, ela se viu na obrigação de estar junto aos seus e auxiliá-los no que fosse possível, mesmo que fosse apenas descrevendo para o restante do país as terríveis condições de vida que estavam sendo impostas aos homens e mulheres que construíram e mantiveram o país por quase trezentos anos. Frances Harper serviu de inspiração e referência para muitas mulheres pretas que no decorrer do século XX, ao lado dos homens pretos, lutaram uma batalha titânica contra os brancos mais poderosos do mundo, sem medo e sem retroceder, muitas das vezes vencendo, apesar de toda a adversidade imposta pelo ocidente. Como dizem as irmãs pretas mais velhas: “nossos passos vem de longe”.

Harriet Tubman, nascida com o nome de Araminta, (1822-1913) foi uma rainha preta-africana, uma guerreira máxima na luta pela liberdade dos africanos massacrados pela escravidão, uma das maiores e mais corajosas mulheres pretas que pisaram nessas terras de cativo e infâmia, não existe outra definição para essa nossa irmã; conhecida pelos seus irmãos de cor e origem, inseridos em uma tradição colonialista de um cristianismo cruel porém passível de vários reinterpretações, como a “Moisés do Povo Preto”, devido a sua importância como abolicionista e uma das principais articuladoras das lutas e fugas dos africanos escravizados nas estradas de ferro subterrâneas; conduzindo gerações de irmãos à liberdade. A famosa estrada de ferro subterrânea era um complexo de tilhos de trem, estradas clandestinas, trilhas, rios, casas, pessoas anti-escravistas e demais estruturas usadas pelos africanos escravizados e abolicionistas, entre o século XVIII e XIX, para saírem de um sul escravista e chegarem ao norte, até então estruturado no trabalho livre e assalariado, e também ao Canadá. A irmã Harriet Tubman nasceu na condição de escravizada, porém de espírito rebelde e indomável, uma pan-africanista por essência, futura abolicionista racial, fugiu da escravidão ainda muito jovem. O seu senhor de escravo “homem branco demônio”, usando o conceito de Malcolm X, era um homem cruel, como todos os senhores de escravos eram, e espancava muito a pequena Harriet. Certa vez, na cidade onde vivia, um senhor de escravos lhe acertou a cabeça, com um peso de ferro, e lhe deixou irmã sequelas para o resto da vida, tais como tonturas, dores crônicas da cabeça e dificuldade para dormir, e crises de epilepsia. Pelas suas constantes fugas a irmã carregava no corpo as marcas do açoite, que era prova da maldade branca e de sua rebeldia de africana livre. E não se dando por satisfeita, após a sua fuga final, mais de uma vez, para ser mais exato um total de treze missões clandestinas, ela voltou ao local de cativo para resgatar famílias inteiras e amigos (segundo registros foram 70 famílias de escravizados que ela conduziu à liberdade); era uma quilombola solitária e perseverante e, segundo as histórias do mais velhos, nunca havia perdido um passageiro em suas ajudas de fuga. Ela conseguiu libertar toda a sua família e retirá-la do estado. Essas ações geravam muito ódio por parte dos senhores de escravos que ofereciam recompensas altas pela sua cabeça. No entanto, isso não amedrontava a irmã Harriet. Durante a Guerra de Secessão, também conhecida como Guerra Civil, que pôs fim a escravidão, Harriet Tubman foi sentinela armada, atiradora e espiã do Exército da União contra os confederados do sul. Considerada a primeira mulher, nos EUA, a comandar uma tropa armada, em uma guerra oficial, ela, em uma de suas incursões, libertaram, junto com sua tropa, um total de 700 africanos escravizados. Dentre as suas ações arriscadas, ela ajudou o abolicionista John Brown a recrutar revolucionários para que pusessem em prática a invasão do depósito de armas em Harpers Ferry visando acabar com a escravidão via luta armada. Após o fim da escravização, ela se dedicou a denunciar as condições de vida dos ex-escravizados, lutar pelo direito de voto das mulheres pretas e ajudar os ex-escravizados a arrumarem emprego. Como uma mulher africana, mesmo fora de sua matriz cultural, possuía uma forte sensibilidade religiosa e tinha visões que, segundo ela própria, eram premonições divinas. Após as suas ações políticas, e mesmo de guerra e enfrentamento direto à escravização africana no sul, ela passou o resto da vida em uma casa de repouso, para africanos abandonados ou mutilados pela guerra e escravidão, que havia sido criada por ela no auge de sua agitação política. Hoje em dia, a irmã Harriet Tubman é considerada uma das maiores heroínas dos pretos e da humanidade (a nossa insignificância no mundo se potencializa ao conhecer a vida e a obra desta mulher preta-africana, uma incansável combatente, ao passo que saber que carregamos no corpo a mesma cor, origem e história desta mulher nos enche de orgulho e vontade de se manter em movimento) e hoje é lembrada e honrada tendo o seu nome em museus, parques nacionais, asteroides, uma infinidade de escolas, monumentos; além de esculturas espalhadas pelos EUA, óperas e livros foram produzidos em honra aos seus feitos; a sua casa hoje é um templo e museu que recebe visitantes o ano inteiro; um filme está sendo produzido tem como enrendo a sua vida e obra; ela é cultuada em igrejas pretas e lembrada pelos mais velhos como alguém que deve ser seguida em energias e ações.

terça-feira, 11 de julho de 2017


"Precisamos aceitar que os limites dos tiranos são   determinados pela resistência daqueles a quem oprimem. Enquanto nos dirigimos ao branco, mendigando, com o chapéu na mão, nossa emancipação, estaremos lhe dando mais mais autorização para que continue com seu sistema racista e opressor" Steve Biko