"Nzambi a tu bane nguzu um kukaiela"

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

PAN-AFRICANISMO SEM BATISMO (Gabriel - U.C.P.A.) 22/8/16

Saudações Africanas!

Falar sobre Pan-Africanismo contemporâneo por essas bandas do atlântico é sempre um desafio e tanto. É de conhecimento geral que somos poucos os indivíduos declaradamente pan-africanistas, contamos com poucas organizações, coletivos e quilombos empenhados na real emancipação dos nossos e, mesmo com nossos esforços constante e incansável nas quebradas, nas cadeias, nas escolas, nos albergues e com moradores de rua, a esmagadora maioria do nosso povo desconhece não só a própria condição enquanto afrodiáspora, como mesmo a menção da palavra pan-africanismo desperta a estranheza da grande maioria acerca de seu significado. Encarar esse cenário com certo otimismo requer não só uma louvável vontade e coragem de pôr a mão na massa e o pé na lama. É preciso também perceber as demonstrações cotidianas da insatisfação manifesta em nosso povo e, a partir daí, elaborar meios de despertar não só a noção de que somos indivíduos pretos – algo que a própria branquitude faz questão de enfatizar -, mas que somos também Africanos e carecemos de atuação organizada tendo como objetivos a libertação, união e solidariedade entre todos os pretos e pretas, tanto no continente-mãe África quanto nas diásporas.
É notório que a música - principalmente, mas não só – vem contribuindo muito e desde sempre para trazer a lume tanto as problemáticas que o nosso povo enfrenta cotidianamente como também elementos importantes para fomentar o pertencimento racial entre os nossos, de tal maneira que ninguém espera que um homem preto de quebrada ouça Negro Drama dos Racionais MC’s do começo ao final com indiferença, e também que a mulher preta, que sobe e desce pelo elevador de serviço todos os dias pra limpar a casa de algum boy, ouça Identidade de Leci Brandão sem marejar os olhos. Mas para além dessas maravilhosas demonstrações facilmente perceptíveis de como muitos de nós somos condicionados, a partir de nossas próprias bases culturais, ao despertar do ‘ser preto’ e de tudo o que isso traz consigo numa sociedade moldada para brancos, há também a busca inconsciente por uma relação harmoniosa e ao mesmo tempo em constante mutação e conflito entre quem somos e o que nos é imposto enquanto padrão cultural e de conduta a ser seguido, e essa conturbada relação é, indubitavelmente, o comportamento padrão entre pretos aqui no Brasil.
O Pastor e escritor Marco Davi de Oliveira em sua obra ‘A Religião Mais Negra do Brasil – por que os negros fazem opção pelo pentecostalismo?’ nos diz: 
“Alguns aspectos contribuem para a identificação da religiosidade do povo negro no Brasil. O primeiro, que salta aos olhos, é a utilização do corpo como instrumento de culto. Nas igrejas pentecostais, o corpo é usado livremente no momento da adoração, indo de palmas e danças até expressões incomuns, como rastejar no chão, abrir os braços numa posição de vôo, correr sem sair do lugar etc. [..] O segundo aspecto que chama a atenção na liturgia pentecostal e que atrai os negros no Brasil é a musicalidade. Podemos ver – não só no Brasil, mas em todo o mundo – que a musicalidade do negro está relacionada com a vida, o sofrimento, as lutas por libertação e os momentos de nascimento e morte. Essa musicalidade fez diferença, por exemplo, na história sofrida dos negros escravizados no Brasil. Quando, em meio a tanta dor, os negros cantavam e dançavam, demonstravam a resistência que os caracterizaria em todos os continentes.”
Tanto a necessidade de pertencer a um pensamento ou confissão religiosa socialmente tolerável quanto a imposição e manutenção de características indissociáveis e ancestrais do nosso povo nesses ambientes são aqui expostas. O canto e a corporeidade preta, aliados à espiritualidade e religiosidade sem retaliação ou perseguição – sabemos que, em termos de ocidente, o cristianismo é a confissão socialmente desejável e que tal critério é estabelecido pela branquitude -, é muito mais do que qualquer preto pode almejar como refúgio diante dos massacres cotidianos que enfrentamos em diversos âmbitos.  Importante ressaltar que esse fenômeno não se limita ao campo religioso, temos, por exemplo, uma quantidade notável de pretos e pretas aderindo quase que automáticamente a vertentes políticas que lhes confira alguma liberdade de ser enquanto indivíduos pretos e lutadores sociais – outra característica inerente a nós -, denominações tais como o feminismo negro, movimento negro classista e outras vias de pensamento acabam por incorporar os pilares teóricos centrais, esses que não carregam o sufixo ‘negro’.
João Elias, escritor e militante de longa data, nos lembra em sua obra ‘A Impotência da Raça Negra Não Tira Proveito da Fraqueza dos Brancos’:
“A atuação de líderes negros tem sido marcada pelo desejo de conciliação com a sociedade branca, apesar da clara rejeição e sabotagem dos brancos sobre os negros. Vários são os fatores que colaboraram para que a conciliação tomasse o lugar da confrontação. Sem dúvidas um dos mais importantes fatores é o medo. Os brancos sempre estiveram melhor armados que os negros. Embora não haja intimidação declarada, os negros sabem que esta força armada pode ser utilizada para conter suas pretensões. A passeata de 1988 no Rio de Janeiro é um exemplo notável de demonstração de força. Nessa passeata os negros pretendiam repudiar o monumento a Duque de Caxias, notório matador de negros, quando foram contidos por duas longas filas de soldados do exército armados com metralhadoras. Quem sentiu o cano da arma apontado em sua direção sentiu que a situação poderia ter um desfecho trágico.
[..]
Outro fator responsável pelo desarmamento do espírito negro é o seu excessivo espírito festeiro. Os estudiosos da confrontação dizem: “quem se diverte não conspira”. Os mesmos instrumentos utilizados pelo negro para produzir o samba são utilizados pelos brancos para marcar a cadência de desfile militar. Enquanto o negro embriaga-se e dança, o branco marcha disciplinarmente ao lado de seus canhões. 
[..]
Outro grande fator é a atuação de certos negros que se destacam perante alguns políticos brancos usando o discurso racial. Vendem uma influência que não possuem em troca de uma falsa mobilização do negro. 
[..]
Outro fator é a crendice espalhada pelo Brasil de que a discriminação do negro é somente social e não racial.”
Novamente se faz presente a constante busca pela colocação social harmoniosa enquanto povo preto, seja ao dar de ombros para a possibilidade de confronto ao que está posto, seja atuando na política enquanto linha auxiliar da supremacia branca. Novamente, a inadequação se evidencia quando é preciso negar a principal contradição, de raça, para conquistar espaços jamais reservados a quem desempenhar o papel de denunciar o racismo para além dos jargões vazios ‘somos todos humanos e iguais’, e essa inadequação sutil e indiscutivelmente paradoxal se mostra quando o indivíduo elege-se enquanto NEGRO que não trata ou “simplesmente” secundariza a questão de raça... Admite-se e identifica-se enquanto um indivíduo pertencente a um determinado povo sobre o qual recaem determinadas questões e, apesar disso, escolhe por assumir o posicionamento tolerável e que lhe possibilite colocação social tal como aos brancos. Nosso povo, como vemos, é prisioneiro física e intelectualmente, mesmo cotidianamente defronte aos dilemas de raça e manifestando-se em relação a eles, percebendo ou não.
O problema para a branquitude em sua tentativa de impor-se de maneira inconteste e hegemônica começa justamente na inadequação do negro aos seus preceitos de maneira absoluta. Por que inserir ‘negro’ em ‘feminismo’ e em ‘movimento classista marxista-leninista etc’? Por que a musicalidade, a dança e a corporeidade nos cultos pentecostais e não o famigerado e insípido recato característico aos brancos? Por que o pentecostalismo, o feminismo, o marxismo e outras ideologias enquanto escolhas para pretos que optaram por ressignificá-los na tentativa de resgatar algo qual essas ideologias e vias de pensamento, bem como seus genitores teóricos, sequer desconfiam do que se trata, pra começar? 
O que impede a completa assimilação de pretos e pretas por movimentos e idéias oriundos da propaganda da supremacia branca se a maioria dos nossos irmãos e irmãs sequer sabem da existência de alternativas? 
Como é possível, num campo sem concorrência e com ‘natural’ tendência à fusão e assimilação do negro ao norte cultural euro-caucasóide, que esse presságio não se confirme na prática e a cultura dominante não leve à cabo seu processo de aculturação completa dos negros?
Há várias respostas, concordâncias e discordâncias referentes a esses questionamentos, posto está que, além do caráter messiânico, essas ideologias e doutrinas compartilham em comum também o fato de que nenhuma delas foi criada por pretos e tampouco PARA pretos. Essa busca pela adequação inconsciente de negros e negras será sempre vã e às custas de mutilações de valores essenciais a nós enquanto indivíduos com localização cultural e geográfica própria, inerente; essa busca é, sobretudo, a busca pela África que nunca será vista enquanto nossos irmãos permanecerem isolados do que é genuinamente Africano-centrado. É busca desorientada e inconsciente pelo retorno, geográfica e/ou cultural e espiritualmente. 
Temos, então, enquanto povo preso nesse cárcere além-mar, gritos de revolta e denúncia veiculados nas artes em resposta a diversos métodos de opressão racial, como há um anseio silencioso por um modelo de sociedade que nos resguarde a liberdade de agência, crença e pensamento enquanto indivíduos consciente ou inconscientemente africanos. Anseio generalizado, pouco explorado e que só pode ser compreendido por concepções que, obrigatóriamente, tenham a RAÇA como principal paradigma, central e basilar.
Nessa perspectiva, observando e vivendo a carência ontológica, banzo a nível macro, a única cosmovisão e organização política capaz de suprir as demandas do povo preto – declaradas nas artes e literatura ou manifestas em anseios e buscas por adequação nos segmentos da sociedade -, é o Pan-Africanismo. Somente pretos cristãos pan-africanistas são de fato libertos da instituição ‘pentecostalismo’, como no exemplo aqui citado, enquanto ferramenta da supremacia branca para oprimir e perseguir religiões e costumes negro-africanos. Somente pretos pan-africanistas podem defender economia cooperativa – a palavra kiSwahili UJAMAA antecede em muitos séculos qualquer teoria pretensamente progressista européia - e ser de fato anti-imperialista sem incorrer no erro de defender, por tabela ou agenda, intolerância religiosa travestida de materialismo, massacres de povos já flagelados pelo período colonialista travestidos de revoluções e imposições ditatoriais a outros povos e culturas travestidas de ações libertárias clarividentes. Somente no Retorno a liberdade é possível.

Ralph Ellison, escritor e autor de ‘Homem Invisível’, traduz a caminhada de muitos de nós, militantes ou não, antes de obtermos qualquer conhecimento sobre nossas dúvidas mais íntimas:
“Toda a minha vida eu tenho procurando por algo, e em todo lugar onde andei alguém tentou me dizer o que era. Eu aderi às respostas, embora elas muitas vezes caíssem em contradição e até mesmo fossem auto-contraditórias. Eu era ingênuo, eu estava olhando para mim e pedindo a todos os outros, exceto a mim mesmo, respostas a questões que eu, e somente eu, poderia responder. Levei muito tempo e recebi muitos e dolorosos golpes de bumerangue em minhas expectativas para finalmente alcançar uma concepção que todas as pessoas parecem nascer com ela: que não sou ninguém além de mim mesmo.”
Nosso mestre, ancestral e amado líder, Honorável Marcus Mosiah Garvey, nos diz há muito que “um povo sem o conhecimento de sua história, origem e cultura, é como uma árvore sem raízes”, ressaltando, desde aquela época e ainda atual se repetida nos dias de hoje, que a desorientação ontológica sempre existirá enquanto não resgatarmos nossa identidade e valores Africanos violentamente arrancados de nós. A incompletude há de nos ser habitual até que ‘sankofemos’, até que façamos o retorno ao que é nosso e a quem somos.
O otimismo citado inicialmente é pertinente, pois se por um lado a imensa maioria do nosso povo desconhece qualquer referência pan-africanista e não tangencia por si de maneira concisa à sua condição de indivíduo preto pertencente à África e vivente na diáspora, por outro é fato que, mesmo após séculos de constante bombardeio propagandístico da branquitude que não consegue conciliar genocídio e discriminação racial com aculturação e paternalismo epistemológico, nosso povo não se acomodou e nem dá indícios de que irá se curvar completamente, apesar das pontuais exceções e consternadores ‘Pai Tomás’ entre nós.
Esse olhar não indica uma tarefa fácil para nós e para o nosso povo, o grande objetivo é demonstrar que devemos intensificar nossos trabalhos no sentido de dar norte ao nosso povo que, por simples falta de opção visível e por constante repressão social e militar, acaba optando por se esconder nas fileiras brancas para continuar vivendo. E que, salvo desespero da branquitude em tentar nos calar à força, a tendência é que, com a continuidade da nossa luta, a situação melhore com o passar do tempo, que mais e mais pretos e pretas se enxerguem como tal, se identifiquem como fruto de África e, posteriormente, como a própria África, onde quer que estejam.
Não será fácil, mas como diria Mano Brown: ‘... tá com medo de quê? Nunca foi fácil! Junte seus pedaços e desce pra arena! Mas lembre-se... Aconteça o que aconteça... Nada como um dia após o outro dia.’

Nós por nós!

Uhuru!


PAN-AFRICANISMO SEM BATISMO (Gabriel - U.C.P.A.) 22/8/16

PALAVRA AO RÉU - Por: Abiṣogun Olatunji Oduduwa - UCPA - 2004 / Revisão 2016

“A distância entre um audacioso e bajulado Tio Tom e um intelectual lambe botas reside apenas em sofisticação e estilo. Pensando bem Tio Tom aparece aqui muito mais limpo porque normalmente está apenas tentando sobreviver, preferindo pretender ser algo diferente do seu próprio ser, para agradar o homem branco e, assim, receber favores. Contudo o intelectual adulador não pretende ser diferente do que é, mas odeia o que é e procura modelar-se a imagem de seus ídolos brancos. Torna-se um homem branco num corpo preto. Escravo obstinado e autômato, passa a ser o mais valioso do homem branco na opressão dos outros pretos.” (Eldridge Cleaver)

Verão de 2004. Fazia uma quente tarde de verão quando iniciei este ensaio e, como já é de praxe nesta época do ano, estava chovendo – Aoboboí Oṣùmàré! A água da chuva – Obàtálá – caía sobre a terra – Odùdúwà e Onílé –, fecundando-a; ao mesmo tempo em que fazia exalar da mesma um aroma maravilhoso – o gosto e o cheiro da natureza. A mesma terra pela qual lutamos; a terra dos nossos ancestrais; a terra que os quilombolas conquistaram com trabalho, inteligência e bravura. O mundo criado pelos nossos ancestrais nos pertence.
Meu pai Ṣàngó também estava presente e se manifestava nos raios e trovões – Àṣe Kawó Kabiyèsílé! Ṣàngó! Naquele instante, sentir-me diferente. Era como se estivesse em relativo estado de transe; não um transe de possessão, mas uma sensação de liberdade plena. Essa sensação, que irradiava por todo o corpo, foi traduzida em grande disposição – Àṣe – para a luta e trouxe consigo um imenso senso de justiça e vontade de guerra; podia ser revanche, também. Então, naquelas circunstâncias, como arma só dispunha de papel e caneta; e o pior, encontrava-me sob o olhar de hiena do capitão-do-mato. Estava em uma espécie de cárcere. E, nessa atmosfera hostil, comecei a registrar em uma folha de papel os sentimentos e reflexões que brotavam no meu corpo.
***
A nossa origem é gloriosa. Hoje sabemos de nossa ascendência e história; pelo menos nós, que abraçamos a consciência Pan-africana como estilo de vida e morte. Temos plena ciência do processo histórico ao qual fomos submetidos: dos primórdios aos dias atuais.
Há vários milhares de anos, o primeiro ser humano se originava na África; este que era categoricamente preto; assim como você e eu. Também foi na África que as primeiras grandes civilizações da história da humanidade se originaram: Egito, Núbia, Meroé, Nok, Mali, Gana, Songhai, Ifé… Nós criamos a noção sociedade, de família, de escrita; o que depois haveria de ser chamado pelos apropriadores de dialética… Descobrimos e fundimos os metais e desenvolvemos as tecnologias agrícolas; embalsamamos nossos mortos; aprendemos a cultuar e invocar nossos ancestrais; compusemos poemas, músicas; criamos danças e comidas para os nossos deuses e filhos, nossas origens e descendências, nossos protetores de cabeça e norteadores da vida.
Nossos ancestrais, por milhares de anos e sem o barbarismo típico dos povos setentrionais, governaram o mundo. Entretanto, em determinado momento histórico, o povo branco e a cultura europeia surgiram. Nós, povo preto, dêmos origem ao povo branco – os fósseis mais antigos encontrados na Europa possuem características africanas. O clima, a geografia, a alimentação e o meio ambiente e social forneceram as condições necessárias para esta metamorfose. E, posteriormente e num passado não muito longínquo, fomos nós que ensinamos o povo branco a andar, caçar, falar, se organizar e escrever. No entanto, o isolamento deles, por milhares de anos, na desértica e gelada Europa, fez com que desenvolvessem um mecanismo de autodefesa altamente destrutivo para outros povos: a xenofobia. A base da xenofobia e da própria essência da supremacia branca é o medo do desaparecimento. Deste entendimento da própria existência surgiram atos como o infame comércio de gente, a escravização, os massacres, os estupros, os espólios, as colonizações, o capitalismo, o nazismo e outras formas de genocídio e de racismo epistêmico.
A invasão das Américas, o sequestro e deslocamento em massa de africanos que foram trazidos para estas terras, a escravização de seres humanos, durante 400 anos de forma licita e por mais de 100 anos de forma ilícita, culminou num estado de absoluta degradação. Hoje vivemos em favelas, cortiços e ruas. Somos marcados pelas constantes humilhações e execuções oriundas dos cachorros do Estado – a polícia. É contra estes poderes que a luta deve ser direcionada. Nosso objetivo e destruir o sistema ou se libertar dele. Das duas uma: ou matamos o senhor-de-engenho e destruímos a senzala e a casa-grande ou se insurgimos num levante total. E alcançaremos a liberdade dirigindo-se na mesma direção dos nossos ancestrais que, utilizando-se de coragem e audácia, construíram os quilombos; esses que foram, e ainda são, a extensão física, geográfica, social, cultural e espiritual da África. O resto é perfumaria. Então, a meta é construir o quilombo e fazer o enfrentamento.
A luta Pan-africana tem que ser, por dever e para melhor eficiência, contínua e composta exclusivamente pelo povo preto. Devemos romper com a agenda da integração racial. Pessoas não-pretas não devem participar de forma orgânica da nossa luta, jamais! E se tiverem um sentimento verdadeiro e honesto eles compreenderão e acatarão a nossa posição e enfrentarão o racismo no meio de seu próprio povo. O racismo é uma patologia psíquica e social e se manifesta por meio de vozes e silêncios, pela presença e ausência. Todos os brancos são brancos, não há outra saída para a branquitude que não o reconhecimento dos privilégios trazidos pela sua condição racial e a renúncia dos mesmos. Raros são os casos em que os brancos renunciaram dos privilégios trazidos pela cor da pele. Todo escorpião é um escorpião; alguns tipos – conservadores – picam logo de início enquanto outros – liberais – picam com o passar do tempo; no entanto, ambos nunca deixam de picar.
Seja como for, a nossa luta tem que ser de povo, de rua, de multidão e mutirão; no corpo-a-corpo e jamais a luta efêmera do gabinete. Os irmãos dos Black Panther já diziam coisas reveladoras sobre os revolucionários de escrivaninha: “Esses Tio Tom não passam de contrarrevolucionários…”. A luta Pan-africana tem que estar fundamentada na honestidade e jamais em interesses financeiros e pessoais; a causa deve ser coletiva e pelo bem comum; fora disso é qualquer coisa, menos Pan-africanismo. Nós, Pan-africanistas, conhecedores do passado de massacre e resistência, sabemos que a opressão da supremacia branca causou rupturas culturais e deixou sequelas em nossos irmãos; e isso afetou e deturpou suas percepções e suas concepções éticas e morais. No decorrer da História, de nossa gloriosa trajetória de resistência, sempre surgiram, como sempre surgirão, o tipo Pai Tomás ou Pai João. Por exemplo, contemporâneo a Palmares teve Henrique Dias – funcionário da coroa portuguesa que lutou contra os quilombolas –; teve, recentemente, Mobuto e Sanvibi – funcionários dos Estados Unidos, Reino Unido, Bélgica, Alemanha e França, enfim, do Ocidente –; esses do tipo que mataram Malcolm X, Lumumba, Amílcar Cabral e Thomas Sankara. Marcus Mosiah Garvey, no início do século passado, já se posicionava, firme e coerentemente, em relação às organizações financiadas por brancos e por fundações ou instituições filantrópicas; ele, em seus discursos inflamados, em seus escritos e ensinamentos verdadeiros, cheios de orientações e amor, exortava e não hesitava ao afirmar que: “Os negros da NAACP são traidores declarados do povo preto…”. Na época, a NAACP era financiada por judeus e por brancos liberais, fazendo jus ao slogan carregado pelos Estados Unidos de ser o “país da filantropia”. A NAACP tinha até um destes brancos como presidente.
Estamos cientes que a luta deve ir além das críticas aos Pai Tomás. Nunca devemos perder de vista os nossos primordiais objetivos e quais são os verdadeiros inimigos. Somos Pan-africanistas e amamos o povo preto na África e na Diáspora; em geral, amamos até os irmãos traidores, mas o nosso amor e tão verdadeiro e intenso que, para o bem comum do povo preto, poderemos tomar como referência as atitudes revolucionárias das crianças de Soweto, que, por sentimentos de coragem e justiça, juntamente, com uma postura e uma consciência política firme, colocavam os traidores dentro de pneus, jogavam gasolina, e ateavam fogo. Isso em nome da Revolução Pan-africana; em nome da consciência e libertação africana e do nacionalismo preto. Pois, somente Èṣù, dentro da cosmogonia nagô, pode se dar ao luxo de: “Jogar nos dois times sem nenhum constrangimento…”.
Como observamos, a luta tem que ir além das críticas ao aparato policial do Estado e aos Pai Tomás. A luta é contra uma série de mecanismos que, sistematicamente, visam a nossa destruição, o nosso enfraquecimento físico, mental e espiritual; sendo curto e grosso, o nosso genocídio em nível planetário. E um desses mecanismos é a desarticulação da resistência africana. Estão minando as nossas lutas. Esta tática vem se dando, principalmente, pela cooptação dos nossos líderes ou supostos líderes, alguns sinceros e verdadeiros, porém ingênuos, esses que se deixam enganar facilmente por qualquer promessa, migalha ou esmola; outros, em maior número, são canalhas por essência e quando entram na luta, visando a autopromoção, procuram, logo e desesperadamente, que o sistema ou que um branco liberal qualquer lhes comprem; resumindo, são marqueteiros de si próprios. A situação agravou-se nas duas últimas décadas, pois o desemprego, o consumismo e a ocidentalização do ser africano se intensificou e se alastrou de forma incontrolável. A opressão capitalista não poderia ficar de fora desta dinâmica e o medo branco, consequentemente, potencializou-se. Diante disso, estamos inclinados a pensar que o povo branco é conservador e teme perder o privilégio e o bem-estar social que usurpou. Sabemos, do mesmo modo, que todo povo que é oprimido um dia se levanta contra seus opressores; fator este que traz sérias complicações na manutenção das estruturas do poder branco. Visando remediar este estado de coisas, a supremacia branca tratou de intensificar a desarticulação da resistência africana e iniciou isso a partir do financiamento sistemático das ONG's negras, fazendo deste modelo a única forma viável de organização e luta. Muitos dos nossos acreditaram neste ouro de tolo.
Devemos lembrar das declarações do irmão Malcolm X sobre a Marcha de Washington; rotulada, pelo nosso príncipe negro, como: “A Grande Farsa”. E nossa reflexão e análise ganhará mais credibilidade se pontuarmos ainda que quem financiou tal marcha, dentre várias outras pessoas e instituições, foram as maiores instituições filantrópicas do mundo: Fundação Ford e Fundação Rockefeller. As mesmas que, após mais de meio século depois, continuam o financiamento de ONG's no Brasil e no mundo. Diante disso, não fica difícil constatar que os racistas brancos visam desarticular e destruir os pretos no mundo inteiro. Por isso, somos Pan-africanistas! A nossa luta é planetária: Angola, Brasil, Haiti, EUA, Granada, Gana, Equador, Jamaica… Todos os filhos da África unidos, tendo como princípio amor, respeito, união, fraternidade, verdade, autonomia, autossuficiência e ódio unânime pela exploração imposto pelo demônio oriundo dos cáucasos gelados. Todos esses são ingredientes fundamentais na metodológica de combate. Pois somos filhos da Natureza, somos a própria Natureza, e amamos os deuses e a Natureza; já o demônio, personificado no capitalismo e no eurocentrismo, odeia os deuses e a Natureza; se odeiam. Sendo assim, os deuses nos amam, pois estamos, continuamente, em contato com eles e nós os amamos.
Os brancos intensificaram a desarticulação e estão desmantelando a rebeldia africana. Utilizam-se dos trabalhos sujos das ONG's, das bandeiras partidárias, dos sedutores gabinetes, dos cargos e outras formas de aliciamento para tão nefasto fim. Desde a época que os brancos pisaram em nosso território africano, levando consigo a maldade, a cobiça, a individualização dos bens, a desordem e a cultura judaico-cristã, é que existem irmãos que se deixam levar por essas mentiras europeias, por esses sentimentos mesquinhos e medíocres. Os valores pagos por eles são sempre os mesmos: vagina e pinto branco, dinheiro, espelhos, cargos, quinquilharias, posição e status social. No correr dos séculos, os capitães-do-mato sacrificaram milhões de crianças, jovens, homens, mulheres e velhos – todo um povo africano foi espalhado pelo mundo – em troca do veneno do homem branco. Entregaram-nos em holocausto para seus deuses carniceiros, para o seu panteão de divindades, o panteão do Pai Tomás, que é composto pelo deus e a deusa suprema – homem branco e mulher branca – e pelos seguintes deuses: o deus cargo, a deusa carreira, o tão cultuado deus dinheiro, o deus consumismo, o deus capitalismo… Essa é a concepção de fé do opressor e do traidor.
Somos filhos de Ṣàngó, Àṣe Kawó Kabiyèsílé!, somos Oju Ọba, Olhos do Rei, e temos o dever de falar e apontar o que acreditamos ser o errado; temos o direito de bater o nosso Oṣé para rachar a escrivaninha e derrubar os palanques. Ọba Kòso ara dúdú àiyé; um raio na cabeça do traidor, não por eles, pois a morte para o traidor é pouco, eles nem se quer merecem Ikú – morte –, mas pelos irmãos que eles utilizam como massa de manobra, como escada e trampolim para se elevarem, para se autopromoverem. Além dos canalhas se venderem, por quinquilharias, ainda vendem os irmãos. E, se não fosse suficiente, ficam com o dinheiro e com o cargo. Não podemos nos enganar. Nos ludibriaram em Palmares, com as promessas do Cucáu; nos ludibriaram na Guerra do Paraguai, nos prometendo a alforria. Abolicionistas, republicanos, liberais, democratas, sindicalistas, esquerdistas, direitistas, filantropos; todos nos ludibriaram. Compraram alguns dos nossos e fizeram com que estes nos entregassem na bandeja em holocausto ao inimigo. Nestas jogadas políticas só tivemos baixas, uma atrás da outra. Pois é, Durban passou e deixou o seu legado, o legado de que lutar pelos negros é o que pede o novo mercado de trabalho social. Ser militante negro é a bola da vez.
Sabemos que o desemprego anda em alta e para completar o moral, a ética, a honestidade e a coragem, em baixa. E, motivadas por estas sombrias conjunturas, as filas na busca por novos empregos estão compridas: professores, vereadores, deputados, lideres comunitários, estudiosos e até mesmo o “líder” da nação estão na fila. Todos querem trabalhar com a questão racial. A maioria está conseguindo, pois a demanda é grande, pois existe um grande número de oprimidos e escravizados, prestes a se rebelar, para ser pacificado. Estes terão que ser ludibriados e amansados por programas assistencialistas e esmolas, por leis e propagandas. Porém, no mundo real, longe dos gabinetes, câmeras e holofotes, o genocídio continua a todo vapor!
A questão é a seguinte: os irmãos têm que serem levados a entender que não existem caminhos fáceis e menos ainda atalhos na nossa luta, na nossa libertação física, mental e espiritual. Luta que se faz necessária para nossa permanência na Terra. Existem alguns atalhos, porém esses atalhos nos conduzem direto para o covil das serpentes e não para o nosso verdadeiro objetivo. São atalhos fictícios e suicidas, que no decorrer encontraremos dinheiro, mulheres brancas, cargos, carros, status social; contudo e por fim, o veneno do homem branco e o caixão: o genocídio africano.
Nós que somos, na medida do possível, revolucionários; que somos os guerreiros dispersos do povo preto; os remanescentes quilombolas; a vanguarda e retaguarda da luta; tomaremos como referência irmãos dignos, tais como: Ojéladê Odé Walê, José Correia Leite, Steve Biko, Winnie Mandela… Homens e mulheres que dedicaram suas vidas na luta pela liberdade de seu povo, nosso povo. Toda essa falange, composta em sua maioria por anônimos, que se viraram de todas as formas possíveis, mas sempre mantendo a dignidade, a integridade, a perseverança e a ética; sempre munidos com o amor e o respeito à causa Pan-africana. Seres humanos que jamais tiveram como finalidades os interesses pessoais. Essas são nossas referências e não àqueles que beberam e se lambuzaram do veneno do homem branco estuprador. Nesse grupo temos, também, Jomo Kennyata, o Grande Mau-Mau do Quênia, que foi, juntamente, com Kwame N’Krumah, o Redentor da África, sem sombra de dúvida, duas das maiores expressões do Pan-africanismo e sinônimo de honestidade e luta. Ambos foram garçons, lavaram copos e pratos no Ocidente para os brancos, mas estudaram e se prepararam; depois retornaram para suas terras de origem e tornaram-se chefes de Estados. Somos um povo composto por homens e mulheres inteligentes, arrojados e criativos, e com plenas capacidades para sobrevivermos com dignidade. Não precisamos de corruptores canalhas. Sabemos que as coisas não são fáceis, nunca foram. Porém, piorou depois que fomos arrancados da África, a terra de nossos ancestrais. Durante mais de cinco séculos só passamos por provações. E a honestidade diante dessas dificuldades será recompensada pela confiança e pelo respeito de todo o povo, uma vez que: “A mentira só dura, enquanto a verdade não chega…”. E os pretos do mundo estão chegando, estão espalhados, perdidos, iludidos, mas estão se encontrando nos labirintos da vida e da luta. Os combates serão longos e nossos filhos e netos, com perseverança, chegarão na terra prometida. Tiraremos nossos inocentes irmãos das garras do Tio Tom, esse que tem um lugar reservado na revolução: o mesmo que está reservado a seus controladores, os brancos colonialistas.
Por enquanto, temos que ouvir os mais velhos – aqueles que tem alguma coisa interessante para nos ensinar, pois idade não significa sabedoria –, estudar, ler, trabalhar, conhecer a nossa verdadeira história, tanto a do nosso território de origem – África – quanto da nossa presença e resistência nas Américas. Ancestralidade, permanência e linhagem africana no mundo, isto é o que nos interessa de fato: existência plena. Já que temos que ter referência, raiz e firmamento, para o que pensamos e falamos; agimos. Temos que ter em que se segurar, um apoio. Então, a partir daí, estaremos aptos a adotar a filosofia política e cultural do Pan-africanismo, da consciência africana, e as táticas de resistência e luta que foi legado pelos antigos. E tudo que engloba a consciência e ação. E com nossa sabedoria ancestral e milenar venceremos a opressão secular da supremacia branca. Já que estaremos revestidos com a nossa sagrada filosofia primitiva, a mesma que nos tornam aptos a refletir sobre o que está em nossa volta, sobre o passado, presente e futuro do nosso povo. E essa capacidade de refletir sobre o que nos foi imposto, sob a violência da cruz, da espada, do fuzil e da brancura, que nos conduzirá à liberdade.
Meu lindo e grandioso povo, para rompermos com as tão destrutivas prisões mentais, que o processo branco de aniquilação africana impôs, temos hoje, mais do que nunca, que adquirir um conhecimento libertador e revolucionário. Portanto, temos que ter em mãos alguns livros para lê-los e entendê-los. Livros que foram escritos pela família preta espalhada pelos quatro cantos do mundo, tais como: Malcolm X, de Malcolm X e Alex Haley; Escrevo o que eu quero, de Steve Biko; Racismo e sociedade e A África que incomoda, ambos de Carlos Moore; Alma no Exílio, de Eldridge Cleaver; Os Condenados da terra e Pele negra, máscaras brancas, ambos de Frantz Fanon; todos os escritos e a filosofia de Marcus Garvey; Unidade cultural da África Negra, de Cheikh Anta Diop; …E disse o velho militante, de José Correia Leite e Cuti; A arma da teoria, de Amílcar Cabral; Zenzele, de J. Nozipo Maraire; O poder negro, de E. U. Essien Udom; Parte de minha alma, de Winnie Mandela; Malcolm X: uma vida de reinvenções, de Manning Marable e o Quilombismo e O Brasil na mira do Pan-africanismo, ambos de Abdias do Nascimento. Esses são alguns dos vários livros ideais na aquisição da consciência africana; são eles os escritos da revolução preta. Porém, devemos lê-los com uma visão crítica, fria e analítica, e, a partir disso, absorver o que for de melhor serventia à nossa causa; após isso será, como profetizou Emmanuel Dongala, “um fuzil na mão, um poema no bolso”.

PALAVRA AO RÉU - Por: Abiṣogun Olatunji Oduduwa -  UCPA -  2004 / Revisão 2016

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Lembrando Nina, com amor e revolta… (Abisogun - 19/8/16 - UCPA)


Para nós, povo africano na diáspora, muito por conta da experiência do infame comércio de gente e da consequente escravização, fazer arte sempre foi um paradoxo; pois transitamos em uma linha tênue que separa arte e política. Sem sombra de dúvida, o povo africano é o maior produtor de cultura do Ocidente, talvez tal fato tenha se dado pela tentativa de fugir da dor, da solidão e do desamparo. Por esse motivo, a nossa cultura tem um ethos de tristeza; principalmente a música. Tristeza que é canalizada e verbalizada como uma ferramenta de luta, um instrumento de libertação. O que desagrada o senhor de escravos. Pois querem nossa música, nossa cultura, nossa fantástica capacidade de proporcionar felicidade, mas não querem, de jeito algum, a liberdade dos nossos corpos e mentes… Dentre toda a tradição de artistas africanos na diáspora, com risco de erro, Nina Simone talvez tenho encarnado o que seria a síntese do paradoxo anteriormente citado, uma vez que ela fez música, fez o melhor jazz que já se ouviu por essas bandas do mundo, e fez política, fez política radical, pregou a libertação negra e a aniquilação da supremacia branca… Seria uma arte engajada, como diria os críticos, ou seria a própria condição da existência preta no mundo? Tanto que, em um momento de ebulição revolucionária, fora considerada a “poeta da revolução…”. Nina, assim como vários outros irmãos pretos, pagou um preço alto por ousar fugir da fronteira que lhe fora imposta e, principalmente, por atacar a supremacia branca. O “grande pai branco” não aceita críticas! E o demônio, oriundo dos cáucasos gelados, movimentando a sua famigerada máquina de moer carne e alma da gente preta-africana, destruiu Nina Simone, jogando-a no ostracismo… Fazendo dela um bagaço de gente… Como fez com muitos outros… Porém, ela foi uma combatente que fez as suas escolhas e que não vacilou quando o assunto foi a liberdade do seu povo. É certeza que não se arrependeu… “Quem bebe das águas da liberdade jamais se arrepende…”, diz o provérbio africano. A nossa Nina, com sua pele de ébano e sua expressão e porte de rainha, movimentou multidões com a sua voz e continua movimentando pessoas pretas em várias partes do mundo; desta forma, fez a sua parte e deu a sua parcela de contribuição na luta permanente pela vida preta. E você, preto? E você, preta? Qual é a sua parcela de contribuição? Neste sábado, a nossa parcela de contribuição, enquanto organização pan-africana, dentre outras coisas, vai ser rememorar o significado da vida e do legado artístico e revolucionário de Nina Simone: uma africana retinta que usou os dedos e a voz como arma de luta. Axé, povo preto!!!

(Abisogun - 19/8/16 - UCPA)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

sábado, 6 de agosto de 2016

"A história contemporânea de África é o Pan-Africanismo" DIÁLOGO INTERCULTURAL (Entrevista de Anne Bocandé a Amzat Boukari-Yabara)

DIÁLOGO INTERCULTURAL 

"A história contemporânea de África é o Pan- Africanismo"

terça, 31 mar



Entrevista de Anne Bocandé a Amzat Boukari-Yabara

Rejuvenescer o pan-africanismo. É o que propõe o investigador Amzat Boukari na sua obra publicada por La Découverte, Africa Unite! Uma história do pan-africanismo. Africultures foi ao seu encontro.
Evocou o pan-africanismo como um conceito filosófico, um movimento sociopolítico ou uma doutrina de unidade política. Qual é a definição de pan-africanismo?

O pan-africanismo nasceu em fins do séc. XVIII, mais ao menos ao mesmo tempo que o liberalismo e o socialismo. É, assim, uma ideologia muito antiga, que se distingue das outras duas pela sua consciência histórica, pela sua identidade "geográfica". O pan-africanismo está ligado a um continente, a um espaço. O pan-africanismo é o equivalente em África ao conceito de Ocidente na Europa. A Austrália, a América do Norte e a Europa Ocidental agrupam-se num mesmo imaginário dito "ocidental" que mostra que a divisão do mundo é, na realidade, o reflexo da circulação dos homens e das ideias. Da mesma forma, é pan-africana toda a sociedade que conserva uma identidade africana na sua evolução, na sua relação com o outro e na sua relação com a ideia de emancipação.
Por outro lado, há um aspecto historiográfico: quando se diz que a história da África contemporânea começa em 1885 com a conferência de Berlim ou em 1960 com as independências, isso não faz sentido nenhum. Interessava-me mostrar que o pan-africanismo nasceu ao mesmo tempo que o liberalismo e o socialismo, que estão ligados à Revolução francesa, à Revolução americana, à industrialização, etc. A história contemporânea de África é o pan-africanismo. Tem exactamente a mesma profundidade histórica. Portanto, em consequência, se se quiser escrever a história de África, tem de se partir do pan-africanismo.

Observa que se trata de uma história ligada a um continente, a um espaço, mas não necessariamente a uma cor de pele. Quer dizer?

O pan-africanismo começou por ser um pan-negrismo, um sentimento de solidariedade entre os Negros deportados para as Américas no quadro do tráfico transatlântico. Este crime contra a humanidade acompanhou a expansão do capitalismo, quer dizer, do sistema mais aperfeiçoado de exploração e dominação global do homem pelo homem, portanto, do sistema que está na origem do mundo tal como o conhecemos hoje. O racismo - que estigmatiza e assimila a pele negra à condição servil nas Américas - teve por resposta uma auto-identificação, desta vez positiva, dos Negros com África, mas uma África que era mais imaginada do que representada. Esta imaginação vem das passagens da Bíblia sobre a Etiópia ou das narrativas dos escravos, e dará mais tarde origem aos escritos do Renascimento de Harlem e da Negritude.
Aliás, as dificuldades internas do Haiti a seguir à independência arrancada em 1804, ou ainda o fracasso da colónia afro-americana da Libéria, criada em 1847, vão mostrar que não basta partilhar a mesma cor de pele para construir uma sociedade harmoniosa ou um projecto político comum. Assim, a denúncia da colonização de África sob os imperialismos europeus nos anos 80 do séc. XIX vai levar os militantes afro-americanos e caribenhos a sobrepor a sua própria condição de segregados ou de colonizados à dos Negros que viviam num continente que redescobriam por intermédio dos primeiros historiadores afro-americanos. África passa então do imaginário a uma entidade política concreta, quando se espalha a notícia da vitória da Etiópia sobre a Itália, em Adwa, em 1896.
Etiópia, Haiti, Libéria... Cria-se um espaço, e, em 1900, em Londres, na presença de militantes negros mas também de simpatizantes brancos, a conferência pan-africana sublinha, pela fórmula muito subtil de DuBois, que o grande problema do séc. XX não será a cor da pele, mas a "linha de cor". O que nos é possível e que devemos fazer consoante se esteja de um ou do outro lado dessa linha? É esta reflexão que mobilizou os militantes pan-africanistas em torno de figuras como Marcus Garvey e Tovalou Houenou ou, mais tarde, Amílcar Cabral e Steve Biko.
Em Angola, na África Austral, na Argélia, de facto, por toda a África onde a independência resultou de uma luta armada, a questão da linha de cor foi abolida pela luta. Grupos mestiços e muitos Brancos a título individual, realizaram por vezes esforços mais consequentes a favor da libertação e da unificação do continente que alguns grupos negros cooptados pelas forças colonialistas ou neocolonialistas. Na medida em que a divisão do mundo em continentes é por si mesma muito problemática e discutível, é, portanto, a consciência histórica que determina a relação com o espaço, que permanece o portador até hoje dessa "linha de cor".

Contrariamente a muitas ideias feitas, explica que o pan-africanismo nasceu no Haiti, ou seja?

Na realidade, o pan-africanismo nasceu nas Américas, mas o seu conceito político, quer dizer, a unidade dos povos africanos num conjunto federal, existe desde há muito mais tempo em África, através, por exemplo, dos reinos e impérios saelo-sudaneses. O Gana, o Mali, o Songhay, tinham estruturas políticas e sociais pan-africanas, que agrupavam um mosaico de povos em alianças sofisticadas.
Entretanto, Santo Domingo era, em 1791, a colónia mais rica das Américas, com uma mão-de-obra servil africana que representava 90% da população. A revolução conduzida nesse momento por Africanos de diversas origens assinala sobretudo uma viragem histórica: a primeira abolição imposta por escravos aos amos, o fim de um sistema de exploração económica que se vai reciclar sob a forma da dívida da independência imposta pela França ao Haiti, e o nascimento do segundo Estado de origem africana que, a seguir à Etiópia, conheceu desde a sua criação uma continuidade histórica e jurídica.
Confrontados com uma ordem mundial hostil, os militantes haitianos deram-se conta de que a sua liberdade nada era sem a liberdade de toda a zona das Caraíbas, de África e talvez até de outros lugares, se pensarmos na naturalização, a partir de 1805, de soldados polacos e alemães que tinham desertado das fileiras bonapartistas para se juntarem aos combatentes africanos. Ao apoiarem as lutas de emancipação ou a resistência encarnadas por Simão Bolivar, José Marti ou Ménélik, os militantes haitianos como Anténor Firmin e Benito Sylvain mostraram que a história do nascimento do seu país, e portanto do pan-africanismo, devia ser uma força à altura de devolver ao mundo o seu equilíbrio. Assim, presentemente, para lá da questão das reparações, muitos militantes pan-africanistas defendem que o Haiti, actualmente membro observador da União Africana, seja verdadeiramente investido por projectos de emancipação para além daqueles que se referem ao humanitarismo neoliberal e militarista.

Como explicar a relativa ausência, até agora, de documentação em francês?

A bibliografia que existe é maioritariamente em língua inglesa. Existe um título da colecção Que sais-je muito antigo, de Philippe Decraene, muito datado, com bastantes erros, bem como algumas obras como as de Oruno Lara. De início, propus uma reactualização do pan-africanismo, em edição de bolso. Quando os editores de La Découverte receberam o manuscrito, quiseram alguma coisa com mais peso, que pudesse ser uma referência na matéria e colmatar precisamente esta lacuna historiográfica. Quando fiz pesquisa para o doutoramento, trabalhei com as figuras do pan-africanismo. Trabalhei principalmente com fontes anglófonas, encontrei os militantes envolvidos na unidade africana, e tive ocasião de me dirigir à União Africana em Adis-Abeba. Pude então confrontar a lógica institucional e a lógica militante, quais eram as contradições menores e maiores. E envolvi-me pessoalmente num movimento, a Liga Pan-africana - Umoja (LP-U) [movimento pan-africanista criado em França em 2012, NDR].
Tive ocasião de conhecer figuras históricas, pouco conhecidas, algumas entretanto falecidas. É em sua homenagem que me dispus a escrever esta obra. E também para reconciliar as gerações. Há muitos nomes do pan-africanismo entoados pelos jovens de modo encantatório, mas por detrás disso não existe forçosamente substância. Com este livro, pretendia-se portanto dar uma linha orientadora a esta história, elaborar uma reflexão sobre a necessidade de reconduzir o pan-africanismo a uma lógica militante, internacionalista, e de rejuvenescer conceitos um pouco malbaratados pelos acontecimentos que resultam da relação de forças desfavorável a África.
Tudo o que é científico e cultural, a partir do momento em que afecta África, tem necessariamente um alcance político e ideológico. E era necessário reinscrever o pan-africanismo na história das ideias, das lutas sociais, políticas e culturais. O pan-africanismo é um movimento muito fragmentado devido à sua própria evolução e à desigualdade dos saberes entre aqueles que o reivindicam. Há quem domine as definições do pan-africanismo e das lógicas anexas, como o marxismo, o socialismo, etc. E há outros que apenas o aparentam, e alguns são claramente impostores.

Na sua obra, refere-se diversas vezes à fissura entre a intelectualização do movimento e o interesse popular no pan-africanismo?

Isso continua a estar presente, e faz parte dessa história, nomeadamente se continuarmos a marginalizar os artistas. Os artistas fizeram a ponte entre popular e político. Daí o título de Africa Unite, saído da canção de Bob Marley. Com este livro, tratava-se modestamente de passar as fronteiras um pouco por todo o lado nos países do Sul.

Muitas das figuras presentes nesta obra são personalidades anglófonas, nomeadamente afro-americanas. Corresponde à realidade do pan-africanismo?

Existem também referências contemporâneas no meio francófono: Thomas Sankara continua a exercer um fascínio extraordinário junto dos jovens. Na África Ocidental há muitas clivagens. Os historiadores e militantes políticos Cheikh Anta Diop e Joseph Ki-Zerbo apoiam o projecto federal de Nkrumah, mas há quem se oponha. Assim, Senghor era a favor, como Houphouët-Boigny, da manutenção de relações privilegiadas com a França, em oposição à vontade de ruptura total defendida por dirigentes e militantes desaparecidos muito cedo, entre 1958 e 1961, como Um Nyobe, Boganda, Lumumba ou Fanon.
Hoje, na reprodução de figuras pan-africanas, as sociedades africanas têm um atraso de duas ou três gerações a recuperar. Existem igualmente experiências mais íntimas no Benin, no Mali, no Congo, que são mais localizadas. No Benin por exemplo, existem projectos para o regresso de caribenhos, nomeadamente a família Jah, que conheci, ou o Instituto do Professor Honorat Aguessy em Ouidah. Há, portanto, para lá das grandes figuras, intimidade com o pan-africanismo.

Contudo, como se explica a relativa ausência de figuras francófonas em comparação com as referências anglófonas?

Em 1919, aquando do Congresso Pan-africano organizado em Paris pelo deputado francês do Senegal Blaise Diagne, a pedido do militante negro americano DuBois, deu-se a ruptura entre francófonos e anglófonos. Desde essa data, os francófonos têm estado ausentes dos congressos pan-africanos. E na altura das independências, a ruptura, a aparência de ruptura que se viu no meio anglófono, não ocorreu no movimento francófono, que ficou alinhado com Paris, com o referente da metrópole. No espaço anglófono existe uma diversidade de experiências: a situação africana, a situação afro-caribenha, a situação negra americana, a situação jamaico-britânica…
Toda essa diversidade de situações provocou o debate, a circulação de ideias, e também a reflexão, a teorização e uma outra relação com a cultura política. Dado que o modelo britânico está imbuído de uma tradição monárquica parlamentar e multiculturalista enquanto o modelo francês é republicano, centralizado e assimilacionista, as leituras divergem relativamente à herança colonial. O que permite sair deste paradigma pós-colonial que confunde a análise comparada, nomeadamente do ponto de vista da história política de África e das Caraíbas, é precisamente a introdução do pan-africanismo como critério de análise das interacções.
Evidentemente que houve centelhas como a Présence africaine [casa editora, Paris / Dakar, NDR], os congressos da Sorbonne, figuras meteóricas como Frantz Fanon, figuras censuradas como Aimé Césaire, que não são historiadores como tal, mas que não deixam de ser referências, inclusive para o mundo anglo-saxónico. Existe, portanto, esse retraimento, esse carácter subversivo que faltou nas situações africanas e afro-francesas, e igualmente uma repressão que eliminou diversas figuras, e movimentos como a FEANF [Federação dos estudantes africanos em França, NDR], no final dos anos 50, que teriam podido criar essa dinâmica. Sublinhemos igualmente uma lógica de predação ao nível do pensamento, que faz com que muitos intelectuais africanos francófonos sejam constrangidos a exilar-se ou a fazer cedências do ponto de vista ideológico para sobreviver.

Existe um pan-africanismo lusófono?

Há muito pouca coisa, pouca documentação sobre o pan-africanismo no mundo lusófono. Mas nesse espaço há uma juventude muito migrante, potencialmente muito consciente dos desafios que se colocam, devido ao facto de os pais terem em grande parte sido formados no quadro dos movimentos de libertação. As ex-colónias portuguesas têm a particularidade de ser mais dispersas geograficamente do que os outros territórios colonizados, e, de repente, após as guerras civis, principalmente em Angola e em Moçambique, passou-se sobretudo à escrita de histórias nacionais em detrimento das regionais ou pan-africanistas. Há assim um défice a esse nível. Défice que não pode ser colmatado unicamente pelo facto de o Brasil, que alberga a mais importante diáspora africana, se ter comprometido a financiar os volumes da História Geral de África em português. Por fim, existe um movimento pan-africanista embrionário em Lisboa, que parece bastante isolado mas dinâmico. O mundo lusófono constitui com efeito um desafio muito interessante.

Quais são os desafios, na Europa, do pan-africanismo ?

A Europa foi sempre um lugar de encontro, de intercâmbio, mas também de repressão. O desafio consiste em criar novos espaços, novas formas de libertação, numa perspectiva internacionalista. A Europa está confrontada com um certo número de crises, mas mantem uma política de predação sobre o continente africano, e a opinião pública sobre África oscila entre a imagem de um continente onde só há desgraças e o de um espaço emergente. E temos a interrogação de todas as diásporas africanas aqui presentes, que se colocam a questão da integração ou do regresso.

Justamente, em vez de pan-africanismo, vários intelectuais e não só reivindicam de preferência uma identidade afro-europeia ou afropolitana. O que pensa disso?

As identidades afro-europeias e afropolitanas parecem-me acompanhar completamente a moda actual, ou seja, são simultaneamente decepcionantes e estimulantes. São grandemente apolíticas e extra-africanas, e parecem-me noções de classe, de divisão intelectual do trabalho ou de separação económica e social entre os africanos, consoante têm ou não liberdade para ir e vir entre África e a Europa. A condição afropolitana pode fazer lembrar a dos "evoluídos", dos africanos julgados mais "civilizados" pelo poder colonial, segundo os critérios desse mesmo poder. Temos assim o risco de falar de afropolitanismo sem estudar as análises de DuBois sobre a teoria da "dupla consciência" ou de Fanon sobre o factor cosmético de identidade e de alienação em Pele Negra Máscaras Brancas. Continuando na análise de DuBois, os Afropolitanos serão os 10% de africanos dos quais se pensa que, por atingirem um estatuto económico e social muito bom, desempenharão o papel de elevar os restantes? Não creio, não é o caso. O pan-africanismo, apesar das críticas que procuram mostrá-lo como um projecto utópico ou exclusivo, contém esta ideia de agrupamento e de solidariedade que me parece necessária para enfrentar o individualismo de um mundo em crescente ocidentalização.
Mais uma vez, não se trata de nos opormos, mas de fazer com que as identidades que evocam a reconciliação ou o hibridismo como "afro-europeu" não sejam simplesmente novas formas de assimilação, de aculturação e de dominação num mundo onde sabemos que a cultura dominante continua a ser frequentemente a da economia ou a do sistema ideológico dominante.
Numa entrevista concedida recentemente a uma revista francesa, a escritora nigeriana Chimananda Ngozi Adichie rejeita aliás essa etiqueta que lhe querem colar, afirmando " Africana sim, Afropolitana de certeza que não". E explica que não vê necessidade de criar uma categoria para um tipo de pessoas que sempre existiu. A história do pan-africanismo é feita de homens e mulheres de origem africana que nunca deixaram de viajar, de ligar mundos e de cruzar identidades. É a história do pan-africanismo que contém as camadas de sedimentação maioritariamente africanas e acessoriamente não-africanas sobre as quais as identidades afro-europeias e afropolitanas afloram, mas de maneira superficial.

Qual é o desafio do pan-africanismo em África?

Em termos de estratégia e de filosofia políticas, não se pode utilizar uma ideologia estrangeira para lutar contra outra ideologia estrangeira; não se pode utilizar o socialismo para combater o liberalismo. Não faz sentido nenhum. É preciso, pelo contrário, utilizar uma ideologia que seja conforme à trajectória histórica das populações visadas, para se chegar a uma libertação alternativa. E essa reflexão é eminentemente importante, porque nesta relação com o ultraliberalismo, África é objecto de um consenso sino-ocidental de dia, e de uma intensa guerra económica de noite. Para sair dessas alternativas, qualquer uma delas um impasse, temos de nos voltar para o pan-africanismo.


Fonte: 

http://m.jornalcultura.sapo.ao/dialogo-intercultural/a-historia-contemporanea-de-africa-e-o-pan-africanismo

http://www.africultures.com/php/index.php? nav=article&no=12768#sthash.a6UeWHjf.dpuf


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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Fragmento do livro "Os Jacobinos Negros" apêndice 'De Toussaint L'Ouverture (p. 350) escrito por C.L.R James (Sugestão do irmão Kwame)

“A voz de Garvey reverberou dentro da própria África. O rei da Suazilândia disse á esposa de Marcus Garvey que conhecia o nome de somente dois homens do mundo ocidental, Jack Johnson, o boxeador que derrotou o branco Jim Jeffries, e Marcus Garvey. Jomo Kenyatta relatou a este escritor que, em 1921, os nacionalistas do Quênia, como não sabiam ler, reuniam-se em volta de um leitor de jornal de Garvey, o Negro World, e escutavam a leitura de um artigo duas ou três vezes. Depois, debandavam pela floresta, para repetir com cuidado tudo o que tinham na memória para os africanos, ávidos por uma doutrina que os libertasse da consciência servil na qual viviam. O dr Nkrumah, estudante de pós-graduação em História e Filosofia em duas universidades norte-americanas, declarou que, entre todos os escritores que influênciaram sua formação, Marcus Garvey está em primeiro lugar. Garvey acreditava que a causa dos africanos e dos povos em ascendência africana era não somente negligênciada como tratada com pouca consideração. Em pouco mais de cinco anos, ele a tinha tornado parte da conciência política mundial. Não conhecia a palavra "Negritude", mas sabia do que se tratava. Teria escolhido o termo com entusiasmo e reclamado sua parternidade com justiça.“

Trecho do livro "Os Jacobinos Negros" apêndice 'De Toussaint L'Ouverture (p. 350) escrito por C. L. R. James

terça-feira, 2 de agosto de 2016

"Nós, os negros" Escrevo o que quero (Bantu Steve Biko)

No último número fiz um apanhado de um setor da comunidade branca. Hoje me proponho a falar do mundo negro - da validade da nova abordagem.

Nós, os negros

Tendo nascido pouco antes de 1948 (O ano em que o Partido Nacionalista chegou ao poder.), vivi toda minha vida consciente dentro da estrutura de um "desenvolvimento em separado" institucionalizado. Minhas amizades, meu amor, minha educação, meu pensamento e todas as outras facetas de minha vida foram formados e modelados dentro do contexto da segregação racial. Em vários estágios de minha vida consegui superar algumas idéias que o sistema me ensinou. Agora me proponho, e espero consegui-lo, a dar uma olhada naqueles que participam da oposição ao sistema - não de um ponto de vista distanciado, mas do ponto de vista de um homem negro consciente da premência de se compreender o que está envolvido na nova abordagem: a "Consciência Negra".
É preciso entender as questões fundamentais antes de se estabelecer os recursos para a melhoria de nossa situação. Algumas das organizações que atualmente "lutam contra o apartheid" trabalham a partir de uma premissa demasiado simplificada. Fizeram uma análise superficial da realidade que está aí e elaboraram um diagnóstico errado do problema. Esqueceram-se quase por completo dos efeitos colaterais e nem sequer levaram em conta a causa mais profunda. Por isso, qualquer coisa que seja improvisada como remédio não conseguirá sanar nossos problemas.
O apartheid - tanto nas questões pequenas como nas grandes - é evidentemente um mal. Nada pode justificar a presunção arrogante de que um pequeno grupo de estrangeiros tem o direito de decidir sobre a vida da maioria. Portanto, mesmo que fosse aplicada de modo fiel e honesto, a política do apartheid mereceria a condenação e a forte oposição do povo nativo do país, como também daqueles que vêem o problema em sua perspectiva correta. O fato de o apartheid estar vinculado à supremacia dos brancos, à exploração capitalista e à opressão deliberada torna o problema muito mais complexo. A falta de bem materiais já é bastante ruim, mas unida à pobreza espiritual é mortífera. E este último efeito é provavelmente aquele que cria montanhas de obstáculos no curso normal da emancipação do povo negro.
Não devemos perder tempo aqui tratando das manifestações da pobreza material do povo negro. Uma ampla literatura já foi escrita sobre esse problema. Talvez se deva dizer algo a respeito da pobreza espiritual. O que faz o negro deixar de reagir? Será que ele se convenceu por si mesmo da própria incapacidade? Será que em sua constituição genética não existe aquela qualidade rara que faz com que um homem esteja pronto a morrer pela realização de suas aspirações? Ou será ele apenas uma pessoa derrotada? As respostas para essas questões não é evidente. No entanto, está mais próxima da última sugestão que de qualquer outra. A lógica que se acha por trás da dominação do branco é a de preparar o negro para desempenhar neste país um papel subserviente. Há pouco tempo tal afirmação costumava ser feita sem constrangimento no Parlamento, até mesmo a respeito do sistema educacional para os negros. E ainda se afirma até hoje, embora numa linguagem muito mais sofisticada. Os malfeitores foram em grande parte bem-sucedidos em produzir, como produto final de sua máquina, uma espécie de homem negro que só é homem na forma. Tal é o ponto a que avançou o processo de desumanização.
Sob o governo de Smuts os negros estavam oprimidos, mas ainda eram gente. Eles deixaram de mudar o sistema devido a várias razões que não vamos analisar aqui. Mas o tipo de homem negro que temos hoje perdeu sua dignidade humana. Reduzido a uma casca serviçal, ele olha com respeito e temor para a estrutura de poder do branco e aceita o que vê como uma "posição inevitável". Bem no fundo, sua raiva cresce com o acúmulo de insultos, mas ele a manifesta na direção errada - contra seu companheiro na cidade segregada, contra coisas que são propriedade dos negros. Ele não confia mais na liderança, porque as prisões em massa de 1963 podem ser atribuídas à inabilidade da liderança, e nem há uma liderança na qual confiar. Na intimidade de seu banheiro contorce o rosto numa condenação silenciosa da sociedade branca, mas suas feições se iluminam ao sair depressa para atender, com a obediência de um cordeiro, ao chamado impaciente de seu amo. No ônibus ou no trem, voltando para casa, junta-se ao coro de vozes que condenam o branco claramente, mas é o primeiro a elogiar o governo na frente da polícia ou de seus patrões.
Seu coração almeja o conforto da sociedade branca e ele culpa a si mesmo por não ser "educado" o suficiente para merecer tal luxo. As propaladas realizações dos brancos no campo da ciência - que ele só entende vagamente - servem para convencê-lo, até certo ponto, da inutilidade de resistir e a jogar fora qualquer esperança de que algum dia as coisas mudem. No geral, o homem negro se transformou numa casca, numa sombra de homem, totalmente derrotado, afogado na própria miséria; um escravo, um boi que suporta o jugo da opressão com a timidez de um cordeiro.
Por mais amarga que possa parecer, essa é a primeira verdade que temos de aceitar antes de poder iniciar qualquer programa destinado a mudar o status quo. Torna-se ainda mais necessário encarar a verdade como ela é se percebermos que o único veículo para a mudança são essas pessoas que perderam a personalidade. O primeiro passo, portanto, é fazer com que o negro se encontre a si mesmo, insuflar novamente a vida em sua casca vazia, infundir nele o orgulho e a dignidade. Lembrar-lhe de sua cumplicidade no crime de permitir que abusem dele, deixando assim que o mal impere em seu país natal. É exatamente isso que queremos dizer quando falamos em um processo de olhar para dentro.
Essa é a definição de Consciência Negra.
Um escritor ressalta que, no esforço de destruir por completo as estruturas que haviam sido estabelecidas na sociedade africana e de impor seu imperialismo de forma total e corrosiva, os colonizadores não se satisfizeram apenas em manter um povo em suas garras e esvaziar a mente dos nativos de toda forma e conteúdo, mas se voltaram também para o passado do povo oprimido e o distorceram, desfiguraram e destruíram. Não se fez mais nenhuma referência à cultura africana, que se tornou um barbarismo. A África era o "continente obscuro". As práticas e os costumes religiosos eram considerados superstição.
A história da sociedade africana foi reduzida a batalhas tribais e guerras internas. Nenhuma migração de um lugar de moradia para outro foi feita de modo consciente. Não, o que havia era sempre a fuga de um tirano que queria destruir a tribo sem nenhuma razão positiva, mas apenas para eliminá-la da face da Terra.
Não é de estranhar que a criança africana aprenda na escola a odiar tudo o que herdou. A imagem que lhe apresentam é tão negativa que seu único consolo consiste em identificar-se ao máximo com a sociedade branca.
Portanto, não há dúvida de que muito da abordagem para fazer surgir a Consciência Negra precisa ser voltada para o passado, a fim de procurar reescrever a história do negro e criar nela os heróis que formam o núcleo do contexto africano. Quando sabemos que uma vasta literatura a respeito de Gandhi na África do Sul está sendo reunida, podemos afirmar que a comunidade indiana já começou a trabalhar nesse sentido. Mas há muito poucas referências a heróis africanos. Um povo sem uma história positiva é como um veículo sem motor. Suas emoções não podem ser facilmente controladas e canalizadas numa direção clara. Ele vive sempre à sombra de uma sociedade mais bem-sucedida. Por esse motivo, num país como o nosso, ele é obrigado a celebrar feriados como a data de aniversário de Paul Kruger, o Dia dos Heróis, o Dia da República etc., - e todos são ocasiões em que a humilhação da derrota é revivida de imediato.
Além disso, podemos perceber em nossas culturas nativas muitas virtudes positivas que deveriam servir de lição para os ocidentais. A união da comunidade, por exemplo, está no centro de nossa cultura. A facilidade com que os africanos se comunicam entre si não é algo forçado pela autoridade, mas inerente à estrutura do povo africano. Assim, enquanto uma família branca pode permanecer numa determinada área sem conhecer os vizinhos, os africanos desenvolvem um sentimento comunitário depois de pouco tempo de convivência.
Muitos funcionários de hospitais se surpreendem com a prática de indianos que levam presentes e lembranças a pacientes cujos nomes mal conseguem recordar. Mas uma vez, essa é uma manifestação do inter-relacionamento entre as pessoas no mundo do negro, em oposição ao mundo altamente impessoal em que vive o branquelo (Whitey, no original: palavra depreciativa para se referir ao branco.NT). Essas são características que não podemos no permitir perder. Seu valor só pode ser apreciado por aqueles de nós que ainda não foram transformados em escravos da tecnologia e da máquina. Poderíamos citar uma infinidade de outros exemplos. Nesse caso, a Consciência Negra também procura mostrar aos negros o valor de seus próprios padrões e pontos de vista. Incentiva os negros a julgarem a si mesmos de acordo com esses padrões e a não se deixarem enganar pela sociedade branca, que absolve a si mesma e faz dos padrões brancos a medida pela qual até os negros julgam uns aos outros.
Nessa altura provavelmente é necessário alertar todas as pessoas dos limites de resistência da mente humana. Esse aviso é necessário em especial no caso do povo africano. Sempre há inúmeros motivos para uma revolução em uma situação de miséria absoluta. Podemos prever que, num determinado momento, os negros se sentirão sem nenhuma motivação de viver e gritarão para o Deus deles: "Seja feita a Vossa Vontade".
De fato a vontade Dele será feita, mas não terá o mesmo apelo para todos os mortais, simplesmente porque temos versões diferentes quanto à Sua vontade. Se o Deus branco vem falando o tempo todo, em algum momento o Deus negro terá de levantar a voz para Se fazer ouvir acima dos ruídos que vêm de Seu equivalente. O que quer que aconteça então dependerá muito do que tiver acontecido nesse meio tempo. Por isso, a Consciência Negra procura fazer com que os negros encarem seus problemas de modo positivo. Baseia-se no conhecimento de que "odiar o branco" é algo negativo, embora compreensível, que leva a métodos precipitados e violentos que poderão ser desastrosos tanto para o negro como para o branco. Procura canalizar as forças reprimidas da multidão de negros zangados para uma oposição significativa e direcionada, fundamentando toda a sua luta em fatos reais. Procura garantir que haja um único objetivo na mente dos negros e possibilitar um envolvimento total das massas numa luta que, em essência, é delas.
O que dizer da religião do branco, o cristianismo? Parece que as pessoas envolvidas na transmissão do cristianismo aos negros decididamente se recusam a extirpar a fundamentação podre que muitos dos missionários criaram quando vieram para cá. Os negros até hoje não encontram na Bíblia nenhuma mensagem que lhes interesse diretamente, pois nossos sacerdotes ainda estão muito ocupados com trivialidades morais.
Eles incentivam constantemente as pessoas a encontrarem defeitos em si mesmas e assim prejudicam a essência da luta na qual elas se encontram envolvidas. Privados de um conteúdo espiritual, os negros lêem a Bíblia com uma credulidade chocante. Enquanto cantam em coro "mea culpa", os grupos brancos se unem a eles cantando uma versão diferente: "Tua culpa". O anacronismo de um Deus bem-intencionado que permite que as pessoas sofram continuamente debaixo de um sistema obviamente imoral não passa despercebido aos jovens negros, que continuam a abandonar a Igreja às centenas. Há gente demais envolvida com a religião para que os negros possam ignorá-la. É óbvio que o único caminho que nos resta é redefinir a mensagem contida na Bíblia e torná-la relevante para as multidões que lutam. Não se pode ler na Bíblia a pregação de que toda a autoridade é uma instituição divina. Ao contrário, ela precisa pregar que é um pecado alguém se deixar oprimir. É necessário mostrar o tempo todo que a Bíblia tem algo a dizer ao negro que o sustente na longa caminhada em direção à auto-realização. Essa é a mensagem que se encontra implícita na "Teologia Negra". A Teologia Negra procura acabar com a pobreza espiritual dos negros. Quer demonstrar o absurdo da pretensão dos brancos em afirmar que o "culto aos ancestrais" era necessariamente uma superstição e que o cristianismo é uma religião científica. Embora se baseie na mensagem cristã, a Teologia Negra procura mostrar que o cristianismo é uma religião adaptável que se ajusta à situação cultural do povo a quem se dirige. A Teologia Negra procura apresentar Jesus como um Deus lutador, que considerou o câmbio de dinheiro romano - a moeda do opressor - no templo de Seu Pai um tal sacrilégio que mereceu uma violenta reação de Sua parte, isto é, do filho do Homem.
Assim, em todos os aspectos, a Consciência Negra procura falar ao negro em sua própria linguagem. Apenas por intermédio do reconhecimento da situação básica que existe no mundo do negro chegaremos a perceber a necessidade urgente de despertar as multidões adormecidas. A Consciência Negra tem esse objetivo. Nem é preciso dizer que será o povo negro quem terá de cuidar, ele mesmo, desse programa, pois Sékou Touré tinha razão ao dizer: Para participar da revolução africana não basta escrever uma canção revolucionária; é preciso forjar a revolução junto com o povo. E se nós a forjarmos junto com o povo, as canções surgirão por si mesmas e delas mesmas.
Para realizar uma ação verdadeira, é necessário ser parte viva da África e de seu pensamento; é preciso ser um elemento da energia popular que é totalmente convocada para a libertação, o progresso e a felicidade da África. Fora dessa luta não há lugar para o artista ou para o intelectual que não esteja, ele mesmo, preocupado e totalmente identificado com o povo na grande batalha da África e da humanidade sofredora.

"Nós, os negros", escrito por Bantu Steve Biko (Frank Talk), em setembro de 1970
Núcleo de Estudantes Negras “Ubuntu” / Universidade do Estado da Bahia – UNEB 
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