"Nzambi a tu bane nguzu um kukaiela"

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

IGUALDADE RACIAL COMO TRAGEDIA OU FARSA - Yedo Ferreira

 29 de janeiro 2014 por mamapress
IGUALDADE RACIAL COMO TRAGEDIA OU FARSA.

Yedo Ferreira

Igualdade Racial – Tragédia e Farsa - Yedo Ferreira

Quando pretos (?) dos partidos de esquerda, em particular o Partido dos Trabalhadores e o Partido Comunista do Brasil apoiam ostensivamente pretos como Marcelo Dias (PT) e Edson França (PC do B) na ação que fazem para impor a todo custo o mito da igualdade racial como objetivo a ser alcançado pelos negros do Brasil, sem sombra de dúvida que não há como uma militância negra histórica se manter em silencio diante desta farsa inominável.
A igualdade em política, ou seja, a igualdade como qualidade de mesma condição e habilidade no trato das relações humana com vista a obtenção de um resultado desejado, é a rigor, palavra qualificada positivamente e usada por pessoa determinada em contextos diferenciados.
Neste sentido tem-se a palavra igualdade usada de forma positiva como igualdade de direito, igualdade de oportunidade e outras formas de igualdade. Porém, quando igualdade é usada em política como relação entre pessoas com predomínio da condição étnica, “racial” ou religiosa, o resultado quase sempre é uma tragédia para aqueles que acreditam nesta relação de igualdade. A condição humana mantém uma certa igualdade entre pessoas, mas as condições; étnica, “racial”, religiosa e mesmo nacional, são determinantes na manutenção da desigualdade entre elas.
Na história da humanidade o número dos que acreditaram em igualdade entre pessoas é grande e os trágicos resultados para as pessoas que colocaram fé nesta forma de igualdade também não é um numero pequeno. O mais trágico porém, é que o erro de um, nunca serve de exemplo a não ser seguido, palo outro.
Ao ser empossado como Primeiro Ministro do Governo da República do Congo (antigo Congo Belga), Patrice Lumumba, no seu discurso da Independência da colônia belga, proferiu as seguintes palavras de um crente na igualdade entre as pessoas: “Rejeitamos a política de dominação e optamos pela cooperação numa base de IGUALDADE, no respeito mútuo a soberania de cada Estado”.
Acreditar numa relação de igualdade como base da cooperação e colaboração entre negros colonizados da África e brancos colonialistas da Europa, custou a Patrice Lumumba a sua vida, morreu assassinado pelos antigos colonizadores em quem acreditava se relacionar no mesmo patamar de igualdade.
A caminho do cadafalso, líderes negros da Inconfidência Baiana ou Revolta dos Búzios, ocorrida no ano de 1793, em Salvador, na Bahia, com certeza haviam de ter como último pensamento, que vão pagar na forca com suas vidas por terem um dia acreditado na igualdade que os brancos, simpatizantes da Igualdade, Liberdade e Fraternidade, lema da Revolução Francesa, de 1789, propagavam entre os negros para contar com a participação dos mesmos na luta que diziam querer fazer contra o governo colonial português instalado na Bahia.
Anos mais tarde, em abril de 1803, agora numa prisão na França de Napoleão Bonaparte, o líder da Independência do Haiti – primeira e única revolta de escravos africanos vitoriosa nas Américas – Toussaint 1. Ouverture, debilitado pelas péssimas condições do cárceres e nos seus últimos dias de vida, deve ter pensado na sua fidelidade a França da igualdade e liberdade e por ter acreditado no Governo da Revolução que reconheceu no espírito da igualdade entre nações “irmãs”, a Independência do Haiti.
Ao serem informados do falecimento do Toussaint na prisão dos franceses, seus antigos companheiros de liderança na Revolta do Haiti, Dessaline e Moise, com certeza devem ter pensado no alto preço que Toussaint pagou por acreditar na igualdade entre as pessoas do Governo da França e na liberdade dos oprimidos da revolução francesa.
Um caso marcante de igualdade entre pessoas onde predominou posições ideológicas nacional e “racial” entre as pessoas envolvidas como determinantes nas condições de trabalho das mesmas aconteceu no México, na região de Cananea, no ano de 1906.
Em julho de 1906, operários da mineradora Cananea Cooper Company, do norte americano, William Greene, cruzaram os braços e iniciaram um movimento de greve. O motivo era Greene que decidiu contratar mineiros norte americanos com salários infinitamente maiores dos que ele pagava aos outros mineiros, entre eles muitos antilhanos procedestes das possessões inglesas e francesas que tinham abolido o trabalho escravo, além do beneficio de jornada de 8 horas de trabalho diário que apenas os mineiros norte americanos usufruíam.
A principal reivindicação era: Igualdade de tratamento entre os mineiros e substituição dos capatazes norte americanos, brancos é obvio, que maltratavam apenas os mineiros não brancos.
No primeiro dia de greve houve confronto grave entre mineiros do México e norte americanos, resultando na morte de dez mineiros, entre eles nenhum era norte americano.
No segundo dia de greve, numa forma explícita de afirmação de que a divisão entre os mineiros era “racial” com verniz de ser nacional: mexicanos contra norte americanos – o internacionalismo proletário não se fez presente – chegou a região de Cananea, 275 fuzileiros do Fort Huachuca (Arizona/EUA), sob o comando do coronel Rining, em apoio aos mineiros norte americanos.
A repressão foi brutal e resultou em mais 30 mineiros assassinados – nenhum norte americano – com a prisão e condenação sumária dos líderes da greve a 15 anos de reclusão na temível prisão de San Juan de Ulúa.
Enfim, 40 mortos e reclusão dos líderes da revolta, o saldo da greve de reivindicação por igualdade de tratamento no trabalho entre mineiros negros e brancos.
Assim negros (as) do PT e do PC do B que se deixam influenciar pelo branco do partido para fazer ações por igualdade racial, ignoram ou nenhuma importância dão fatos que a História registrou, uma vez que fatos históricos como os acima citados têm que ser olhados como exemplos trágicos do passado que não podem (nem devem) ser repetidos. Levantar bandeira de pró igualdade racial é um erro que cometem: Marcelo Dias (PT) com “igualdade racial é pra valer” e Edson França (PCdoB) com “…planos de igualdade racial com metas qualitativas…”
Em vista de que Marcelo Dias e Edson França se dizem marxistas não é demais lembrá-los de Karl Marx, “de que a história não se repete, mas sim fatos históricos por ventura semelhantes”, acrescentando “que podem se repetir como farsa ou tragédia”. Na conclusão de Marx, se um determinado fato histórico se realizou no passado como farsa, ele vai com toda a certeza se repetir no futuro como tragédia. O contrário também é verdadeiro: se o fato histórico aconteceu como tragédia ele vai se repetir como farsa.
Esse pensamento de Marx é uma retificação ao que falou seu antigo mestre Hegel (Friedrich) que “todo povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”, repetir os erros cometidos o que é óbvio.
A verdade é que Hegel e Marx estavam certos, apenas em Hegel uma retificação de que um povo não aprende conhecendo apenas a sua história. Um povo aprende também conhecendo a história de outros povos, as suas vitórias e suas derrotas. Negros (as) do PT e PC do B melhor seriam se aprendessem com os pensamentos dos dois alemães. A final; se aceitam passivamente a orientação do branco do partido no qual são filiados para acreditar numa improvável igualdade racial, não há então nenhum absurdo em adotarem para as suas ações políticas, os pensamentos desses dois brancos alemães. Pelo menos nunca mistificaram como fazem os brancos dos dois partidos: Não acreditam em igualdade entre as classes sociais mas induzem negros (as) a acreditar em igualdade racial. Igualdade entre “raças” (?).
Da farsa e tragédia pensadas por Marx aplicada no marco da história do negro no Brasil, tem-se o decreto que aboliu a escravidão do negro no Brasil, assinado pela Princesa Isabel chamada a Redentora, é sem duvida um fato histórico importante. Contudo, não há como negar que esta Lei Aurea em si, resultou numa grande tragédia para os descendentes de escravos, mantidos por mais de um século, no subemprego e nas favelas, condições de vida das quais nunca se libertam.
O Estatuto de Políticas para a promoção da igualdade racial, lei assinada pelo Presidente Lula, chamada por negros (as) partidários, de nova “Lei Aurea”, tinha como pressuposto (ou deveria ter) mudar as condições de vida dos descendentes de escravos. Porém, passado anos em que a lei se encontra em vigor, nada mudou nas condições de vida dos descendentes de escravos, ainda nas favelas e nos subempregos. Sendo assim, não há como negar que o fato histórico como ato em que o Estatuto foi sancionado, é uma grande farsa.
Se os dois fatos históricos – se assim forem considerados – estiverem (e estão) de acordo com as afirmações de Marx; de fato histórico semelhante se repetir como farsa ou tragédia, então, a Lei Aurea foi a tragédia dos descendentes de escravos e o Estatuto de Igualdade Racial, a farsa. Uma farsa que não se tornou maior do que ela mesma, porque nenhum dos “pretos” presente no ato no Palácio Presidencial, reuniu coragem suficiente para de joelhos beijar a mão do Presidente Lula e assim repetir a atitude de José do Patrocínio, que, de joelho beijou a mão da Princesa Isabel.
Um fato graciosamente original que não pode deixar de ser citado: A Lei Aurea tragédia, O Estatuto, farsa. A democracia racial como farsa e a igualdade racial a tragédia. Resulta desses fatos que crença na igualdade racial é tragédia e farsa ao mesmo tempo. Nem mesmo Marx nos seus melhores momentos reflexivos pensou neste fato no mínimo inusitado.
De retorno a História, os fatos que nunca devem ser esquecidos, é que na revolta dos Búzios, na Bahia, na Revolta dos Escravos, no Haiti, na revolta dos mineiros, no México, havia em todos os envolvidos nessas revoltas, uma crença explicita na igualdade como um objetivo que esperavam alcanças com a luta que travavam.
Uma observação importante é que em todos os casos aqui citados de aspiração a igualdade entre pessoas, negros e brancos encontram-se em posições diametralmente opostas e sob a influencia de uma implícita ideologia, mas que é determinante. Porém existe um fator entre eles, a crença do negro na igualdade, onde só ele acredita na relação de igualdade entre negros e brancos.
Na Revolta dos Búzios, os brancos induziram os negros a tomarem para si, para confrontar a Coroa Portuguesa, os lemas igualdade e liberdade da revolução Francesa a qual eles tinham simpatias. Mas na repressão a revolta apenas os negros foram supliciados, os brancos que os induziram a revolta, a Coroa Portuguesa foi condescendente, uma vez que nenhum branco sofreu repressão alguma.
Na revolta dos Escravos no Haiti, Napoleão Bonaparte, que antes fora considerado avalista dos ideais da Revolução Francesa, de liberdade e igualdade, além de ser uma personalidade que Tossaint confiava, enviou seu exercito para esmagar no Haiti, a liberdade que Toussaint aspirava e a igualdade que acreditava.
A Revolta dos Mineiros no México, não teve melhor sorte os que acreditavam na igualdade entre as pessoas onde predominava uma determinada ideologia.
O grande escritor francês, Vitor Hugo, na sua obra prima, Os Miseráveis, ao retratar a Revolta de Paris, de 1815, na qual se pretendia o renascimento dos ideais republicano de Igualdade, Liberdade e fraternidade da Revolução Francesa de 1789, revolta que Vitor Hugo participou ativamente, e cujo resultado o levou ao exílio na Inglaterra, ao ser expulso da França, vaticinou: “Só existe igualdade na morte.”
Os negros/negras não omissos devem responder o que pensam da igualdade racial de Marcelo dias e Edson França.

Nota da Redação: Yedo Ferreira, 80 anos, ativista e  militante histórico do Movimento negro é internacionalista e das Reparações Já.

Fonte: https://mamapress.wordpress.com/2014/01/29/igualdade-racial-como-tragedia-ou-farsa/

Acesso: 31/Jan/2018

sábado, 27 de janeiro de 2018

SE ATENTEM A TODAS AS INFORMAÇÕES DO TEXTO! AS DÚVIDAS DE TODOS JA ESTÃO SENDO RESPONDIDAS NO PRÓPRIO POST.

Todos pela Liberdade de Babiy Querino. Jovem negra presa injustamente no dia 16/01.

Babiy é uma jovem negra de 19 anos que foi presa injustamente acusada de fazer  parte de 2 assaltos.

Entenda o caso: Um parente de Babiy assaltou um carro a mão armada com um grupo em 10/09/2017 dia esse que ela se encontrava fora de SP pra trabalho. Mas, no dia da prisão de seu parente, 04/11/2017 Babiy estava presente e foi levada a delegacia acusada de fazer parte do grupo. Ela prestou depoimento e explicou que era inocente e que no dia do roubo estava fora de SP e podia provar com fotos em seu celular, celular esse que foi resetado pelos policiais o que fizeram a perder suas fotos e mais informações, que eram suas provas.  Seu parente e restante do grupo prestaram depoimento que provava sua inocência e ela foi liberada. Mesmo sem provas contra ela, foram aberto 2 processos contra ela e agora em  16/01/2018 foi emitido um mandado de prisão e ela foi encaminhada pra Penitenciaria de Franco da Rocha.

Babiy Querino é mais uma vitima do racismo e do sistema penal, que condena pessoas sem provas. E por isso, estamos na luta por sua liberdade, nos ajude divulgando o caso e com doaçoes diretamente para sua Mãe.

O caso já está com um advogado e agora estamos realizando esta campanha justamente pra ajudar os familiares a arcar com os pagamentos.
Peço que nos auxiliem! Axé irmãos.

Coloquem #TODOSPORBABIY

Dados:

Nome: Fernanda Regina Querino
Banco: Caixa Econômica
Agência: 0246
Conta: 00008310-0
Digito: 013

Segue página do advogado responsável pelo caso:  Dr. Bruno Cândido Sankofa - Advocacia

SE ATENTEM AOS EDITS ABAIXO GENTE:

Edit 1: Pessoal pra algumas pessoas que estão com dúvidas sobre o caso.
Já contatamos Defensoria e demoraria demais pra pegarem o caso, pela agilidade do processo resolvemos contratar um particular.

Edit 2: A postagem está sendo atualizada a cada novidade sobre o caso.
Está ocorrendo das pessoas orientarem a gente nos comentários, mas todas as orientações e ações com a Defensoria, Fórum e demais órgãos responsáveis já foram feitas antes da contratação do advogado particular.
Defensoria deu prazo de até 3 meses pra pegar o caso, porque SP é grande demais e existem filas de casos/demandas a serem defendidos (tempo demais pre ela ficar presa) e por esta razão contratamos o advogado particular, que por sinal defende causas do tipo e principalmente da população negra.
Tenham paciência e se ATENTEM as informações que posto nos Edits abaixo.

Edit 3: Barbara teve seu celular resetado devido às provas, mas estaremos verificando formas de resgatar as fotos perdidas para auxiliar na defesa do caso.

Edit 4: Já iremos verificar esta semana formas tecnológicas pra puxar os dados do celular pra de alguma forma auxiliar na defesa, ou seja, ja temos ciência sobre a busca das informações na nuvem e demais locais que armazenam as informações do próprio celular.

Edit 5: O advogado já está com o caso e recorrendo aos locais necessários pra coletarmos as provas.



Fonte: https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1617838384975198&id=100002471557336 

Acesso: 26/Jan/2018

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

protestation contre l'esclavage en Libye


Nous invitons tous nos frères et sœurs, sympathisants et sympathisantes à  la manifestation pacifique de protestation contre l'esclavage en Libye .

Cette manifestation de protestation , sous aucune connotation politique ou partisane sera organisée le 12 janvier 2018 à partir de 16h à l'avenue paulista,1963 en face de l ambassade d Italie.

l Italie a pas mal contribué financièrement avec la collaboration des autorités libyennes à stopper les migrants subsahariens en les réduisant  à l'esclavage.

Nous sollicitons à tous les manifestants de se munir de pancartes protestant leur dessacord face aux pays complices  et trafiquants d'esclaves en Libye.

Nous dénonçons avec la dernière énergie la participation des pays comme l'Italie,la France l'union européenne des accords passés entre la Libye pour bloquer les migrants à rentrer en Europe.
Nous dénonçons aussi le laxisme de l'Union africaine (U.A),de l’organisation des nations unies  (ONU),de la ligue arabe et de certains pays africains face à cette humiliation inhumaine et face à ce racisme.

Enfin nous comptons sur l'appui de tous nos frères africains,afro-descendants,la diaspora à manifester , à lutter contre la fin de l'esclavage  en Libye.

Act for the Freedom of our Slavery Brothers in Libya


We call on our entire community to participate in the Independent Act for the Freedom of our Slavery Brothers in Libya.

United, without acronyms of organizations; without acronym of political parties; and respecting the ideal of the cause above all else.

The Independent Act will be held on January 12, 2018, with concentration starting at 4:00 pm on Paulista Avenue, 1963, in front of the Italian Consulate.

The Act will occur in front of the Italian consulate, because Italy has been collaborating directly with the enslavement of our Brothers. Italy is working together with the Libyan Coast Guard.

We ask that each sister and brother elaborate their denunciation on cards with statements that indicate the omission or participation of countries and organs in the enslavement of our Brothers.

We repudiate the cowardly participation of Italy that has delivered our brothers to the slave-smugglers of Libya in a criminal way. And we also repudiate the participation of the United State of American (USA), the United Nations (UN), European Union (EU), North Atlantic Treaty Organization (NATO), and the Arab League, who are directly responsible for the devastation of African nations, for their corporations, above all in favor of racism.

We hope to count on our entire Black Community in the fight for the Freedom of our Brothers.

Ato Independente pela Liberdade de nossos Irmãos Escravizados na Líbia


Convocamos toda a nossa comunidade para participar do Ato Independente pela Liberdade de nossos Irmãos Escravizados na Líbia.

Unidos, sem siglas de organizações; sem siglas de partidos políticos; e respeitando o ideal da causa acima de tudo.

O Ato Independente será realizado no dia 12 de janeiro de 2018, com concentração a partir das 16h na Av. Paulista, 1963, em frente ao Consulado da Itália.

O Ato ocorrerá em frente ao consulado italiano, porque a Itália vem colaborando diretamente com a escravização de nossos Irmãos. A Itália está trabalhando em conjunto com a Guarda Costeira da Líbia.

Solicitamos que cada irmã e irmão elabore sua denúncia em cartolina(s) com dizeres que apontem a omissão ou participação de países e órgãos na escravização de nossos Irmãos.

Nós repudiamos a participação covarde da Itália que tem entregue de forma criminosa nossos Irmãos para os traficantes de escravos da Líbia. E repudiamos também a participação dos EUA, da ONU, OTAN, UE, e da Liga Árabe, responsáveis diretos pela devastação das nações Africanas, em prol de suas corporações, acima de tudo em prol do racismo.

Esperamos contar com toda a nossa Comunidade Preta na luta pela Liberdade de nossos Irmãos.

Seria positivo que africanos da Diáspora possam construir atos em suas respectivas regiões.

Movimento negro organiza ato contra a escravidão de africanos na Líbia (Pedro Borges) 11 Janeiro 2018

Manifestação é articulada de maneira independente por ativistas do movimento negro e africanos residentes na cidade de São Paulo. Organizadores responsabilizam o governo italiano pela escravização de pessoas no norte da África

Texto / Pedro Borges

Imagem / Ahamed Jodallah (Reuters)

Protesto contra a escravidão de africanos na Líbia ocorre nesta sexta-feira, 12 de Janeiro, das 16h às 20h, em frente ao Consulado Geral da Itália, na Avenida Paulista, 1963. O ato é organizado de maneira independente, sem a articulação de entidades ou partidos políticos.
Os manifestantes convocam os negros brasileiros a participarem do protesto como forma de solidariedade aos crimes que ocorrem no norte do continente africano. Os articuladores do ato também incentivam a produção de cartazes com denúncias da venda de seres humanos na Líbia e com exigências ao Estado italiano.
No evento no Facebook, o protesto também é convocado em língua inglesa. O objetivo é o reunir o máximo de africanos da diáspora moderna em frente ao Consulado Geral da Itália e pedir o fim da barbárie na Líbia.
A queixa se volta ao governo italiano porque as medidas adotadas pelo país, como o financiamento da guarda costeira líbia, são apontadas como responsáveis por criar o terreno fértil para a atuação dos traficantes de pessoas.
O país fez um pacto com a Líbia para diminuir a entrada de imigrantes na Europa. Antes, quando as embarcações eram avistadas, a marinha italiana era acionada para resgatar os sujeitos, e, consequentemente, obrigada a levá-los à Europa, onde os salvos pediam asilo.
O governo italiano decidiu financiar a marinha costeira da Líbia para que ela fizesse esse resgate e devolvesse as pessoas ao continente africano. São esses sujeitos, em condições vulneráveis, vindos de regiões como a África Subsaariana, que ficam à mercê dos traficantes de seres humanos.
Dados comparativos entre Janeiro e Novembro de 2016 e 2017 mostram que houve uma redução na entrada de imigrantes. No ano passado, 114.606 fizeram essa travessia com sucesso, quantia 31,10% menor do que a contabilizada em 2016.
Essa volta aos milhares de pessoas em péssimas condições financeiras de diversos países do continente africano para a Líbia é o que tem possibilitado a ação de traficantes de seres humanos, que foram denunciados vendendo mulheres e homens negros em leilões ao céu aberto. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) estima que estejam hoje na Líbia de 700 mil a 1 milhão de imigrantes.
A equipe de reportagem do Alma Preta entrou em contato com o Consulado Geral da Itália, e perguntou sobre como o governo italiano via o assunto, qual a responsabilidade do país, e quais medidas têm sido tomadas para frear a situação. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno do consulado.


Primeiro ato realizado em São Paulo como forma de denúncia à escravidão na Líbia (Foto: Reprodução)

A escravidão de seres humanos na Líbia
O escândalo do mercado de seres humanos na Líbia ganhou força no mundo em 14 de Novembro de 2017, quando a reportagem da televisão norte-americana, CNN, mostrou a todos imigrantes africanos sendo vendidos na Líbia por valores que equivalem a R$ 2,5 mil.
De acordo com a TV dos EUA, naquele momento, havia leilão de pessoas em pelo menos nove cidades líbias. Nas gravações, as pessoas aparecem sendo leiloadas ao ar livre, e os vendedores se mostram a vontade, como se estivessem em uma feira.
"Alguém precisa de um escavador? Este é um escavador, um homem grande e forte", afirma um dos vendedores.
O crime já havia sido notificado em Abril pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas sem ter ganho repercussão mundial.
Hamidou Anne, analista do Think Thank África, afirma que essas informações já eram de conhecimento das autoridades.
“Com exceção do cidadão comum, todo mundo sabia, os governantes, as organizações internacionais, os líderes políticos”.
A visão é corroborada por Alioune Tine, diretor para a África ocidental e central na Anistia Internacional. “A tomada de reféns, a violência, a tortura, os estupros eram normais na Líbia, e da escravidão já se fala faz tempo”.


Africanos residentes em São Paulo e ativistas do movimento negro denunciam escravidão na Líbia (Foto: Reprodução)
A Líbia nos dias de hoje

A situação também é reflexo da fragilidade econômica e social da Líbia, algo que remonta ao início da Primavera Árabe, em 2011, quando protestantes pediam a saída de Muamar Kadafi.
A repressão aos atos por parte do governo provocou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), aproximação militar entre a Europa e os EUA, a atacar o país. Depois da invasão estrangeira, Kadafi, já enfraquecido, optou por fugir, foi pego por manifestantes e espancado até a morte.
Após a morte de Kadafi, o país entrou em profunda crise política. A nação hoje é governada por milícias, e o governo central de Tripoli dispõe de pouca infraestrutura para exercer seu poder.
Nesse contexto, as milícias ganharam força e hoje fazem a travessia de pessoas, que fogem de conflitos armados ou buscam melhores condições de vida. A distância via mar entre os dois países, Itália e Líbia, é de apenas 400 km.
A relação entre a Itália e a Líbia
Os subsídios dados pelo governo italiano ao líbio não vem de hoje. Desde a época de Muamar Kadafi, o então premiê Silvio Berlusconi já havia feito um pacto com o governo de Trípoli nesse sentido.
As relações entre os países, porém, se estreitaram nos últimos anos com o aumento da entrada de imigrantes africanos na Europa. Em Fevereiro de 2017, a Itália assinou um acordo oficial de 236 milhões de dólares com a Líbia para treinar e equipar a guarda costeira do país africano.
Tarek Shanbour, diretor do departamento de segurança costeira em Trípoli, afirmou em entrevista o recebimento de verbas do país europeu."Nós nos encontramos com os italianos hoje, e esperamos receber 200 milhões de euros (R$ 746 milhões), que distribuiremos de acordo com nossas necessidades".
O líder da principal milícia que atua no país, Ahmed Dabbashi, em entrevista ao “The Times”, mostrou que o esquema está para além da Itália. Ele disse que o governo de Trípoli, apoiado pela ONU, havia prometido barcos, veículos, salários em troca de cooperação. Esses investimentos do governo italiano e da ONU são feitos ao governo líbio, que os repassa para as milícias costeiras.
O Ministro das Relações Exteriores da Itália, Giro, negou o repasse de verba para as milícias, mas disse que há a possibilidade que ex-traficantes tenham recebido assistência por meio de verbas para hospitais e remédios.
Depois das denúncias virem à tona, o governo francês pediu uma reunião de emergência com o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.
No dia 21 de Novembro, o Conselho aprovou medidas para conter o tráfico de pessoas e o trabalho escravo. A resolução exige mais investigação para acabar com as redes de venda de pessoas, e pede maior apoio aos imigrantes vítimas. A ONU também pediu maior cooperação entre os países e o uso de tecnologia para enfrentar essa atividade criminosa.
Outra reunião foi feita, no dia 29 de Novembro, entre a França, Níger, Chade, Marrocos, ONU, União Africana e União Europeia. O objetivo era pensar em medidas para minar a ação de traficantes de seres humanos.


Ativistas conclamam pela participação da comunidade negra brasileira no ato (Foto: Reprodução)

Protestos
No dia 8 de Dezembro, cerca de 300 pessoas se reuniram na Praça da Sé em São Paulo para protestar contra a escravização de africanos na Líbia. Manifestações como essa ocorrem em outras partes do mundo.
Em Paris, cidade marcada por imigrantes africanos, um grande protesto reuniu cerca de mil pessoas no dia 18 de Novembro para exaltar a liberdade como um direito fundamental. O ato ocorreu em frente à embaixada da Líbia.
No dia 25 de Novembro, ato em Bruxelas reuniu centenas de pessoas e terminou com 50 delas detidas pela polícia. Os manifestantes também denunciavam a violência na Líbia.
As denúncias também deixaram jogadores de futebol por toda parte do mundo indignados. Atletas como Paul Pogba, camisa 10 da seleção francesa e um dos principais jogadores do Manchester United, e Cheik Doukouré, jogador do Levante e da seleção da Costa do Marfim, se pronunciaram contra a escravidão de sujeitos durante partidas oficiais.

Fonte: http://www.almapreta.com/editorias/mama-africa/movimento-negro-organiza-ato-contra-a-escravidao-de-africanos-na-libia

Acesso: 11/Jan/2018

domingo, 31 de dezembro de 2017

"Em resposta ao seu último telegrama, gostaria de fazer um último apelo para você agir com senso de responsabilidade e de acordo com o interesse da África, e eu sei que você também deve tê-los em seu coração. O mundo inteiro sabe que o seu pretenso estado foi criado com o apoio de interesses estrangeiros. Suas ações foram aplaudidas na África do Sul e nas Rodésias, porém condenadas por todos os outros estados Africanos independentes. Isso, pelo menos, deve lhe alimentar com alguns pensamentos. Toda a sua administração depende de funcionários belgas que se opõem fundamentalmente à independência Africana, e que estão apenas usando você como uma ferramenta. Eles o descartarão assim que você cumprir sua finalidade. Nenhum verdadeiro Nacionalista Africano poderá confiar em você enquanto você continuar a se permitir ser usado como tal. Seu nome agora está ligado abertamente aos exploradores estrangeiros e opressores de seu próprio país. Na verdade, você reuniu em seu apoio os principais defensores do imperialismo e do colonialismo em África e os adversários mais determinados da Liberdade Africana. Como você pode, como Africano, fazer isso? Apelo a você, com toda sinceridade, para denunciar aqueles que estão apenas usando você como um marionete e que não têm mais respeito por você do que têm pela liberdade e independência Africanas.

Suas alegações de comunismo contra a República do Congo mostram quão longe você foi sob a influência da África do Sul, que considera qualquer movimento para a liberdade Africana como comunista. Você permitiu que os belgas controlassem as notícias que saíam de Katanga. No entanto, é claro que uma desordem séria está ocorrendo na parte norte da província de Katanga, e que sua política está colocando em perigo a vida de Africanos e mesmo europeus. Deixe-me mais uma vez apelar para você e Ngalula para reconsiderar a posição que vocês se colocaram, e para trabalharmos pela unidade, para o Congo e para a África."

Kwame Nkrumah respondendo a um telegrama de Moïse Tshombe, onde alegava que o governo de Lumumba era ilegal e dominado pelos comunistas.



sábado, 23 de dezembro de 2017

Kwanzaa

CONHEÇA A CONFRATERNIZAÇÃO AFRICANA – KWANZA
Conheça a confraternização africana Kwanza

Foto Divulgação

Kwanzaa, uma espécie de confraternização africana milenar, resignificada pelo Dr. Maulana Ron Karenga, criador da organização panafricaista  United Slaves ( Escravos Unidos ) nos Estados Unidos.  O Dr. Ron Karenga, conhecido também com Ron “Maulana” Everett”, em Kiswahili foi o primeiro preto a estudar na Universidade da Califórnia, onde aconteceu realização da primeira Kwanza no ano de 1966.

Karenga afirma que a celeração do Kwanza não é uma substituição a feriados religiosos e sim um momento em que os pretos e pretas possam comemorar a semelhança de como faziam nossos ancestrais, antes de serem seqüestrados pelos europeus caucasianos.


Kwanzaa é uma celebração panafricanista  com foco nos valores ancestrais e culturais africanos, com foco na (r)estruturação da família preta,  na responsabilidade comunitária e espiritual e enfoque na autonomia política e econômica.  Não é um feriado político, ou religioso, mas um momento de celebração do povo preto ao redor do mundo que visa resgatar/reconstruir nossa humanidade dilacerada pela escravidão, colonialismo e racismo. A palavra é derivada da frase em Kiswahili ‘Kwanza do Ya Matunda’, que significa ‘Primeiros Frutos da Terra’, fazendo menção a celebração das primeiras colheitas que eram feitas por diversos povos africanos.

A kwanzaa é celebrada a  partir do dia 26 de dezembro até o dia 01 de janeiro, sendo cada um dos dias relacionado  a um princípio diferente “Nguzo Saba”, ou seja, os setes princípios. Os sete dias de celebração são:

UMOJA – Significa unidade, e representa manutenção da unidade na família, na comunidade, na nação e na raça.

KUJICHAGULIA – Significa Autodeterminação, representa os valores de determinação que o povo preto deve apresentar para resolver as questões que nos afligem.

UJIMA – Significa Trabalho Coletivo e Responsabilidade, Construção conjunta e manutenção da nossa comunidade unida para fazer nossos problemas da irmã e dos irmãos nossos problemas e para resolvê-los junto.

UJAMAA – Significa Economia cooperativa, para construir e manter nossas próprias lojas, supermercados e outros negócios e para comercializar junto com nossos irmãos e irmãs pretas.

NIA – Significa Finalidade, almeja a construção do coletivo e tornar-se de nossa comunidade a fim restaurar nossos povos a sua grandeza outrora tradicional.

KUUMBA – Significa Criatividade, tem por objetivo fazer sempre quanto nós pensemos ser necessário, a nossa maneira, a fim deixar nossa comunidade mais bela e benéfica do que quando nós a herdamos, sempre buscando a melhoria do povo preto.

IMANI – Significa Fé, para acreditar com nossos corações em nosso povo preto, nossos pais, nossos professores, nossos líderes e a vitória de nosso esforço.

As celebrações do Kwanzaa estão recheadas de simbolismos especiais. A esteira (Mkeka ) posta sobre a mesa significa a fundação histórica dos ancestrais africanos , acima dele fica o candelabro de sete braços (Kinara), as frutas, verduras e plantas de origem africana colocadas em cima da mesa (Mazao), junto com as sete velas que representam as virtudes do Kwanzaa – uma preta, três vermelhas e três verdes  (Mishumaa Saba). As espigas de milho (Muhindi) representam a continuidade do povo através das crianças, a taça (Kikombe cha Umoja) posta representa a unidade familiar e comunitária e os livros a nossa história. Por fim, a Bandeira RBG (RED BLACK GREEN)  simbolo do nacionalismo preto, da concepção panafricanista de mundo, sendo que o vermelho representa o sangue do nosso povo através das lutas e sobrevivências históricas, o preto representa a cor da nossa pela, nos unindo por um tronco ancestral comum e o verde toda nossa riqueza oriunda da terra.

Em Salvador, acerca de 10 anos atrás, um grupo de panafricanista, sob a liderança do professor, poeta e militante do movimento preto Walter Passos,  começou a celebrar Kwanzaa e a projetá-la como um movimento de caráter político a ser celebrado por pessoas pretas do Brasil inteiro.  Em  São Paulo, a UCPA (União dos Coletivos Pan Africanistas ) também realiza suas celebrações de Kwanzaa, conclamando as pessoas pretas a assumir a identidade africana,  o pertencimento africano e a luta contra o racismo e neo colonialismo.

Por THEMBI SEKOU OKWUI
José Raimundo

Fonte:
http://revistaquilombo.com.br/conheca-a-confraternizacao-africana-kwanza/

Acesso:
22Dez2017

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Stokely Carmichael - Discurso Free Huey Newton (1968): "Nós somos seres humanos e temos emoções...

"Nós somos seres humanos e temos emoções. Estamos lutando pela nossa humanidade! Estamos lutando por nossa humanidade! E ao recuperar nossa humanidade, reconhecemos todas as emoções que temos em nós. Se você tem amor, você tem que ter ódio. Você não tem emoções só de um lado, você sempre tem dois lados: quentes, frios; branco, preto... tudo o que acontece... o amor, o ódio. Porque se você não tem ódio, você não pode diferenciar o amor. Você não pode diferencia-lo! Não pode.

Agora, então, isso nos leva ao ponto sobre comunismo e socialismo. Vamos ao ponto, de uma vez por todas. O comunismo não é uma ideologia adequada para pessoas negras. (aplausos) O socialismo não é uma ideologia voltada para as pessoas negras!(aplausos) Eu vou dizer o porquê e deve tornar-se claro em nossas mentes. Agora não digo isso porque os honkys (brancos) nos chamam de comunistas; não importa o que eles nos chamam, não faz diferença.

As ideologias do comunismo e socialismo falam da estrutura de classes, falam das pessoas que oprimem o povo. Não estamos apenas enfrentando exploração, estamos diante de algo muito mais além. Estamos diante do racismo, porque somos as vítimas de racismo. O comunismo nem o socialismo falam sobre o problema do racismo, e o racismo para os negros deste país é muito mais importante do que a exploração, porque não importa quanto dinheiro você tenha, quando se está no mundo branco você ainda é um negro... (aplausos) você ainda é um nigger... você ainda é um nigger. De modo que, para nós a questão do racismo se torna mais prioritária em nossas mentes. Torna-se em primeiro lugar em nossas mentes.

Como é que vamos destruir as instituições que procuram manter-nos desumanizados? Isso é tudo o que estamos falando, a questão da exploração vem em segundo lugar. Agora para os brancos que são comunistas, a questão dos comunistas vem em primeiro, porque eles são explorados por outras pessoas brancas. Se fossemos explorados por outras pessoas negras, então se tornaria uma questão de como dividir os lucros. Não é o nosso caso, é uma questão de como podemos recuperar a nossa humanidade e começar a viver como gente. E não fazemos por causa dos efeitos do racismo no país.

Temos que, portanto, conscientemente galgar uma ideologia que lida com o racismo em primeiro lugar. E se fizermos isso, reconhecemos a necessidade de se juntar com os 900 milhões de pessoas negras no mundo de hoje. (aplausos)

http://spqvcnaove.blogspot.com.br/2014/05/stokely-carmichael-discurso-free-huey.html?m=1

Kwame Ture, mais conhecido como Stokely Carmichael: "Todos os pretos são meus irmãos e amo-os

"Todos os pretos são meus irmãos e amo-os. Sou o primeiro ministro dos Panteras Pretas e estou preparado para sacrificar a minha vida pela união dos Pretos" - Kwame Ture, mais conhecido como Stokely Carmichael

Fonte: livro Caderno d.quixote 18 Black Power Poder Negro

Stokely Carmichael: “Nos últimos quatrocentos anos, o afro-americano tentou coexistir pacificamente nos Estados Unidos

Stokely Carmichael: “Nos últimos quatrocentos anos, o afro-americano tentou coexistir pacificamente nos Estados Unidos. Foi inútil. Nós nunca linchamos um homem branco, nunca queimamos suas igrejas, nunca bombardeamos suas casas, nunca os espancamos pelas ruas. Gostaria que pudéssemos dizer o mesmo das pessoas brancas de todo o mundo. Nossa história demonstra que a recompensa por tentar coexistir em paz tem sido o assassinato físico e psicológico do nosso povo. Nós fomos linchados, nossas casas foram bombardeadas e nossas igrejas queimadas. Agora, estamos sendo abatidos como cães pelas ruas por policiais racistas brancos. Não podemos mais aceitar essa opressão sem retaliação. Entendemos isso à medida que expandimos a nossa resistência e internacionalizamos a consciência do nosso povo; como o nosso irmão martirizado Malcolm X, teremos a retaliação do governo, como ele sempre faz. À medida que a luta da resistência se intensificar.  […] E até o fim, vamos trabalhar com os nossos irmãos e irmãs comuns do Terceiro Mundo na luta contra essa opressão.”

Stokely Carmichael: "Agora, eu quero fazer uma distinção entre um militante preto e um revolucionário preto

Stokely Carmichael: "Agora, eu quero fazer uma distinção entre um militante preto e um revolucionário preto. Eles são muito confusos porque, de início, se parecem. Um militante preto é um homem preto (Black) irritado – observe que eu não disse negro (Negro) – está irritado com as pessoas brancas por mantê-lo fora do sistema branco. Vocês o veem o tempo todo. Eles descobrem que a cidade está ficando tensa, eles tem seus afros e dashikis, eles correm pelas ruas. Estão nos noticiários, dando conferências de imprensa pelas esquinas. “Se os homens não nos dão um programa de pobreza, esta cidade virá; e vamos seguir para Detroit, e vamos seguir para Washington”. De repente, eles estão na televisão todos os dias, dizendo ao prefeito: “Senhor Prefeito, esta cidade vai queimar. Conheço o sentimento das pessoas no gueto. Eu estou junto com elas. Conheço a sua alienação. Conheço o seu senso de abatimento. Eu sei isso; eu sei disso; e a cidade queimará”. O prefeito coloca-o em um comitê e lhe dá um emprego de US$ 30.000 por ano; então, a cidade explode e eles correm pelas ruas: “Acalme-se, irmãos, começamos o diálogo com o prefeito”.
Mas um revolucionário preto é um jovem irritado que quer derrubar e destruir todo um sistema que oprime o seu povo e o substitua por um novo sistema onde seu povo possa viver como seres humanos.
Este país está cheio de militantes pretos, mas há poucos revolucionários pretos. Precisamos de mais revolucionários pretos e menos militantes. O militante, em última análise, é um homem que se preocupa apenas com ele mesmo; além do que, ele usa os sentimentos do seu povo para se autopromover. Esse é o pior crime que você pode cometer".


sábado, 23 de setembro de 2017

James Baldwin sobre Malcolm

"Malcolm considerava-se propriedade do povo que o havia gerado. Não se considerava seu salvador, era modesto demais para isso e cedeu o papel para outro;mas considerava-se servidor dele e a fim de não trair essa confiança estava pronto a morrer - e morreu. Malcolm não era um racista,nem mesmo quando pensava que o era. Sua inteligência era mais complexa; contudo, se houvesse sido um racista, poucos neste país racista o teriam considerado perigoso. Ele teria sido familiar e até mesmo reconfortante; sua conhecida raiva confirmava a realidade da força branca e sensivelmente inflamava uma bizarra espécie culpa erótica sem a qual, estou começando a acredita, a maior parte dos americanos de maior ou menor convicção liberal simplesmente não poderia respirar. O que o fazia inusual e perigoso não era seu ódio por gente branca, mas o seu amor pelos negros, as razões disso, e sua determinação , portanto, para trabalhar nos corações e nos espíritos deles tinha por finalidade faze-los capazes de enxergar sua própria condição e transformarem-la eles próprios."

James Baldwin
"Sem comunidade não há libertação,só o mais vulnerável e temporário armísticio entre uma pessoa e sua opressão. Mas comunidade não deve significar uma supressão as nossas diferenças."

Audre Lorde

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Esperança revolucionária: uma conversa entre James Baldwin e Audre Lorde - Texto 2

O Museu de Arte Contemporânea da Diáspora Africana republicou essa conversa entre os pensadores icônicos James Baldwin e Audre Lorde na página deles no Tumblr. (link abaixo) A conversa aconteceu no Hampshire College em Amherst, Massachusetts e foi originalmente publicada na reviste ESSENCE em 1984. O diálogo revela a importância de reconhecer que história raciais compartilhadas não podem ofuscar a história divergente de gênero entre homem e mulher Negra. Link para o texto original: http://mocada-museum.tumblr.com/…/revolutionary-hope-a-conv… JB: Um dos perigos em ser um americano Negro é ser esquizofrênico, e eu digo “esquizofrênico” no sentido mais literal. Ser um americano Negro é, de certo modo, nascer com o desejo de ser branco. Podemos retornar ao Vietnã, podemos retornar a Coréia. Podemos retornar até mesmo a Primeira Guerra Mundial. Podemos retornar a WEB Du Bois – um homem lindo e honrado – que fez campanha para persuadir o povo Negro a lutar na Primeira Guerra Mundial, dizendo que se lutássemos nessa guerra para salvar o país, nosso direito a cidadania não poderia ser nunca, nunca questionado novamente – e quem pode culpá-lo? Ele realmente quis dizer isso, e se eu estivesse lá naquele momento eu teria dito também, talvez. Du Bois acreditava no sonho americano. Martin também. Malcom também. Eu também. Você também. E é por isso que estamos sentados aqui. AL: Eu não, querido. Sinto muito. Eu simplesmente não posso deixar isso passar batido. Bem lá no fundo sempre soube que aquele sonho nunca foi meu. E eu chorei e lutei, mas eu sempre soube. Eu era negra. Eu era mulher. E eu estava de fora – fora – de qualquer construção em qualquer lugar que o poder estivesse estabelecido. Se eu tivesse que arranhar-me insanamente, se eu vivesse, eu teria que fazer isso sozinha. Ninguém estava sonhando comigo. Ninguém estava me estudando a não ser como algo a ser chicoteado. JB: Você está dizendo que não existe no sonho Americano a não ser como um pesadelo. AL: Isso mesmo. E eu sabia disso toda vez que abria o Jet, também. Eu sabia disso toda vez que abria uma caixa Kotex. Eu sabia disso toda vez que ia pra escola. Eu sabia disso toda vez que abria um livro de oração. Eu sabia, eu simplesmente sabia. JB: É difícil nascer em um lugar onde você é desprezado e que, também, te prometem que com empenho – com isso, com aquilo, sabe –você pode conseguir o impossível. Você está tentando lidar com o homem, a mulher, a criança – a criança de qualquer sexo – e ele ou ela e seu homem ou sua mulher tem de lidar com o os fatos da vida nesse país 24 horas por dia. Nós não iremos voar para outro lugar, sabe, melhor passarmos por cima de qualquer coisa que aquele dia seja e ainda ter um ao outro e criar nossas crianças – de alguma forma cuidar de tudo isso. E isso é 24 horas de todos os dias e você está rodeado por toda a parafernalha da segurança: se você conseguir essa barganha. Se se certificar que suas axilas estão inodoras. Cachear o seu cabelo. Ser impecável. Ser todas as coisas que o público Americano diz que você deve fazer, certo? Você faz todas essas coisas –e nada acontece. E o que é pior que isso é que nada acontece com seu filho também. AL: O que é ainda pior que o pesadelo é o vazio. E mulheres Negras são o vazio. Eu não quero acabar com isso, e depois ter que parar na parede de divisão masculino/feminino. Quando nós admitirmos e lidarmos com a diferença; quando lidarmos com a profunda amargura; quando lidarmos com os horrores dos nossos mais diversos pesadelos; quando virarmos eles e olharmos para eles, é como olhar para a morte: difícil, mas possível. Se você olhar diretamente para isso, mas sem abraçar, é que existe muito menos que se possa fazer pelo medo. JB: Eu concordo. AL: Bem, da mesma forma que olhamos para nossas diferenças e não nos permitimos estar divididos, quando as possuímos e não nos dividirmos por elas é quando seremos capazes de seguir em frente. Mas não alcançamos o ponto de partida ainda. JB: Não tenho certeza disso. Eu acho que a ideia negra (afrikana) de “masculino” e “feminino” é bem mais sofisticada que a ideia ocidental. Eu penso que homens e mulheres Negras são bem menos influenciados por essa questão de gênero ou preferência sexual – toda aquela coisa. Isso é, pelo menos, verdadeiro de acordo com minha experiência. AL: É, mas vamos nos remover dessa posição meramente reativa – isto é, homens Negros e mulheres (negras) reagindo ao que está por aí. Enquanto reagimos ao que está por aí, estamos também lidando entre com o que acontece entre nós – e entre nós existem diferenças de poder… JB: Ah, sim… AL: Lidar com a maneira que vivemos, reconhecer as diferenças uns dos outros é algo que ainda não aconteceu… JB: Diferenças e igualdades. AL: Diferenças e igualdades. Mas em uma crise, quando todos os nossos traseiros estão em jogo, parece que é mais fácil lidar com as igualdades. Quando lidamos somente com igualdades, nós desenvolvemos armas para usar uns contra os outros quando as diferenças tornam-se aparentes. E chicoteamos uns aos outros – homens Negros e mulheres (negras) podem chicotear uns aos outros – e muito mais efetivamente que as pessoas de fora fazem. JB: É verdade. AL: Nosso sangue está quente, estamos furiosos. Digo, é o que mulheres Negras fazem umas com as outras, homens Negros fazem uns com os outros e pessoas Negras fazem umas com as outras. Estamos com esse negócio de chicotear um ao outro de qualquer maneira – e fazendo o trabalho do nosso inimigido. JB: É bem verdade. AL: Precisamos tomar conhecimento dessas diferenças de poder entre nós e ver aonde elas irão nos levar. Uma grande quantidade de energia está sendo usada em negar as diferenças de poder entre homens Negros e mulheres (negras) ou lutar contra as diferenças de poder entre homens e mulheres Negras ou matar uns aos outros pelas suas costas. Estou falando de sangue de mulheres Negras escorrendo pelas ruas – e como ensinamos a um menino de 14 anos que eu não sou o alvo legítimo da raiva dele? Meu sangue não vai lavar o seu horror. É isso que estou interessada em fazer meninos Negros entenderem. Tem menininhas Negras tendo filhos. Mas não é uma concepção imaculada, e de outro lado temos meninos Negros fazendo filhos, também. Tem criancinhas Negras fazendo criancinhas Negras. Eu quero lidar com isso para que nossas crianças não tenham que repetir esse desperdício deles mesmos. JB: Eu te entendo – mas deixe-me recuar, por bem ou por mal. Sabe, por alguma razão seja certa ou errada, há gerações homens vieram ao mundo, instintivamente sabendo ou acreditando ou sendo ensinados que uma vez que são homens eles precisam, de qualquer maneira, serem responsáveis pelas mulheres e crianças, ou seja, o universo. AL: Hmmm. JB: Acho que não existe uma maneira de contornar isso. AL: Contornar isso agora? JB: Não acho que seja possível contornar esse fato. AL: Se conseguimos colocar as pessoas na lua e explodir esse planeta; se conseguimos considerar cavar 18 polegadas de sujeira de radioatividade dos atóis de biquínis e, de alguma maneira, encontrar alguma coisa a ver com isso – se podemos fazer isso, nós enquanto trabalhadores de cultura Negra podemos contornar isso – porque ninguém mais está comprando a “política das cavernas” – “Mate o mamute ou então a espécie será extinta’. Nós estamos além disso. Aquelas crianças inferiores no sexto ano – Eu quero que essas crianças Negras saibam que a força bruta não é uma maneira legítima de lidar com a diferença sexual. Eu quero estabelecer diferentes paradigmas. JB: É, mas existe uma diferença real entre o jeito que um homem olha para o mundo… AL: Sim, sim… JB: E o jeito que uma mulher olha para o mundo. Uma mulher sabe muito mais que um homem. AL: E por quê? Pela mesma razão que pessoas Negras sabem o que pessoas brancas estão pensando: tivemos que fazer isso por sobrevivência… JB: Tudo bem, tudo bem… AL: Estamos cansadas de servir como ponte. Você não vê? Não são as mulheres negras que estão derramando o sangue de homens Negros na rua – ainda. Não estamos rachando suas cabeças com machados. Não estamos atirando em vocês. Estamos dizendo, “Escutem, o que está acontecendo entre nós é relacionado ao que está acontecendo entre nós e outras pessoas,”, mas temos que resolver nossos próprios problemas ao mesmo tempo em que protegemos nossos traseiros Negros, porque se não o fizermos, estamos gastando energia que precisamos para sobrevivência conjunta. JB: Eu não estou discordando – mas se você coloca a discussão dessa maneira… veja, um homem também uma história para contar, somente porque ele é um homem… AL: Sim, sim, e é vital que eu esteja viva e apta a ouvi-la. JB: Sim. Porque somos a única esperança que temos. Uma desavença familiar é uma coisa; uma desavença pública é outra. E você e eu, sabe… - na cozinha, com as crianças, um com o outro ou na cama – temos muito que lidar um com o outro, mas temos de saber com o que estamos lidando. E não tem como contornar isso. Não tem como contornar isso. Eu sou um homem. Eu não sou uma mulher. AL: Tá certo, tá certo… JB: Ninguém vai me transformar em uma mulher. Você é uma mulher e não é um homem. Ninguém vai te transformar em um homem. E somos indispensáveis um para o outro, e as crianças dependem de nós dois. AL: É vital para mim que eu esteja apta a te ouvir, ouvir o que é que te define e para você me ouvir, ouvir o que é que me define – porque esse tempo todo que estamos operando do modo antigo não serve para ninguém, e, certamente, não tem servido para gente. JB: Eu sei disso. O que eu realmente acho é que nenhum de nós tem que provar alguma coisa, pelo menos não do mesmo jeito, se não estivéssemos na selva Norte-americana. E a inevitável discórdia entre irmão e irmã, entre homem e mulher… - vamos encará-la. Todas essas relações, as quais são baseadas no amor, também estão envolvidas nessa discussão. Porque nossa responsabilidade real é redefinir um ao outro infinitamente. Eu não posso viver sem você, e você não pode viver sem mim – e as crianças não podem viver sem nós. AL: Mas nós temos que nos definir por nós mesmos. Temos que nos redefinir por nós mesmos não importa quais são os alicerces da deturpação, o fato continua sendo que nós absorvemos isso. Todos nós absorvemos essa doença e ideias da mesma maneira que absorvemos o racismo. É fundamental que lidemos constantemente com o racismo, e com o racismo branco entre pessoas Negras – que o reconheçamos como uma área legítima de questionamento. Devemos também examinar a maneira como absorvemos sexismo e heterosexismo. Essas são as normas desse problema no qual nascemos – e precisamos examinar essas deturpações com o mesmo tipo de abertura e dedicação que examinamos o racismo… JB: Você usa a palavra “racismo”… AL: O ódio à pessoas Negras, ou à pessoas de cor… JB: -mas debaixo da palavra “racismo” dorme a palavra “segurança”. Por que é importante ser branco ou Negro? AL: Por que é importante ser homem em vez de ser mulher? JB: Nos dois casos é pressuposto que é mais seguro ser branco que ser Negro. E é pressuposto que é mais seguro ser homem que ser mulher. Essas duas suposições são masculinas. Mas essas são suposições que estamos tentando superar ou confrontar… AL: Confrontar, sim. A vulnerabilidade por trás dessas suposições masculinas é diferente para mim e para você, e nós devemos começar a olhar pra isso… JB: Sim, sim… AL: E a fúria que é gerada na negação dessa vulnerabilidade – temos que quebrá-la, porque tem crianças que estão crescendo acreditando que é permitido derramar sangue feminino, certo? Eu tenho que romper isso porque tem meninos que realmente pensam que a marca da masculinidade deles é engravidar uma menina da sexta série. Tenho que romper isso porque essa menina acha que a única coisa que ela tem na vida é o que está entre as pernas dela… JB: Sim, mas não estamos falando sobre homens e mulheres. Estamos falando sobre uma sociedade em particular. Estamos falando sobre um tempo e lugar em particular. Você estava falando do derramamento de sangue Negro nas ruas, mas eu não entendo -AL: Tá certo, os policiais estão matando os homens e os homens estão matando as mulheres. Estou falando de estupro. Estou falando de assassinato. JB: Eu não discordo de você, mas eu acho que você está atirando no alvo errado. Eu não estou tentando livrar homens Negros – ou sequer mulheres Negras – mas estou falando do reino onde vivemos. AL: Sim, eu concordo plenamente: o reino onde ocorrem essas deturpações tem que ser mudado. JB: Algo acontece com o homem que bate em mulher. Algo acontece com o homem que bate em sua avó. Algo acontece com o drogado. Eu sei bem disso. Eu andei pelas ruas do Harlem; Eu cresci lá, né? Agora você sabe que não é culpa do negro que me vê e tenta me assaltar. Eu aprendi isso. É responsabilidade dele, mas não é culpa dele. É uma nuance. Eu tenho que saber que ele não é meu inimigo quando ele bate na avó dele. A avó dele tem que saber disso. Estou tentando dizer que alguém tem que saber o que nos colocou na rua. Nós dois somos da mesma pista. Você entende o que eu digo? Eu já voltei para casa querendo bater em qualquer coisa que visse na minha frente – mas Audre, Audre… AL: Estou aqui, estou aqui… JB: Eu concordo com você. Sei exatamente o que quer dizer e isso me magoa tanto quanto magoa você. Mas como manobrar-se a passado este ponto? – como não perder a ele ou ela que podem estar no que é uma zona ocupada vigente? Essa é a situação Negra no país. Para o ghetto, tudo o que está faltando é arame farpado, e quando você encurrala as pessoas como animais a intenção é rebaixá-las e você as tem rebaixado. AL: Jimmy, não estamos discutindo. JB: Eu sei que não estamos. AL: O que estamos fazendo é discordar de verdade sobre a sua responsabilidade não só comigo, mas com meu filho e com nossos meninos. Sua responsabilidade com ele é fazer ele entender de um jeito que eu nunca serei capaz porque ele não saiu do meu corpo e tem outra relação comigo. Seu relacionamento com ele, como pai, é dizer a ele que eu não sou o alvo da fúria dele. JB: Certo, certo… AL: Está tão enraizado nele que virou uma parte dele tanto quanto a negritude é. JB: Tudo bem, tudo bem… AL: Eu não posso fazer isso. Você tem que fazer. JB: Certo, eu aceito – o desafio existe em qualquer caso. Nunca pensei que fosse ser o contrário. É absolutamente verdade. Eu só quero identificar onde está o perigo… AL: É, estamos em guerra… JB: Estamos atrás dos portões de um reino que é determinado a nos destruir. AL: Sim, exatamente. Estou interessada em ver nós não aceitarmos termos que irão ajudar destruirmos uns aos outros. E eu acho que uma das formas de destruir uns aos outros é agir sem pensar com nossas diferenças. Agir sem pensar no sexo, na sexualidade… JB: Eu não sei muito bem o que fazer por isso, mas concordo com você. E entendo exatamente o que quer dizer. Você está certa. Ficamos confusos com gêneros – com a noção ocidental do que é ser mulher, o que não é o que uma mulher necessariamente é. Não é certamente a noção Africana do que é ser uma mulher. Ou até mesmo a noção Européia do que é ser mulher. E, certamente, não existe um padrão de masculinidade nesse país que alguém possa respeitar. Parte do horror de ser um Negro norte-americano é estar preso em ser a imitação de uma imitação. AL: Não posso te dizer o que eu queria que você estivesse fazendo. Não posso redefinir o que é masculinidade. Nem posso redefinir masculinidade Negra, certamente. Estou nesse negócio de redefinir a mulheridade Negra. E você, a masculinidade Negra. E eu digo “Por favor, vá em frente e faça isso” porque eu não sei quanto tempo eu consigo segurar essa fortaleza, e eu realmente sinto que as mulheres Negras estão segurando-a e estamos começando a segurá-la de maneira que está deixando esse diálogo menos possível. JB: Sério? Por que você está dizendo isso? Eu não sinto isso. Para mim parece que você está culpando o homem negro pela cilada em que ele está. AL: Não estou culpando o homem negro; estou dizendo para não derramar meu sangue. Não estou culpando o homem negro. Estou dizendo que se meu sangue está sendo derramado, em algum momento eu vou ter uma razão legítima de sacar uma faca e cortar sua cabeça fora, e estou tentando não fazer isso. JB: Se você deixar um homem bravo, vai transformá-lo em uma fera – isso não tem nada a ver com a cor dele. AL: Se deixar uma mulher maluca, ela vai reagir como uma fera também. Existe uma estrutura maior, uma sociedade com a qual estamos em total e absoluta guerra. Vivemos na boca do dragão, e devemos estar capacitados a usar nossas forças para lutar contra isso juntos, porque precisamos uns dos outros. Estou dizendo que em uma batalha conjunta temos que desenvolver armas de verdade, e quando os colocamos contra eles mesmos ficam mais sanguinários, porque nos conhecemos de um jeito particular. Quando apontamos essas armas uns para os outros o derramamento de sangue é terrível. Pior ainda, estamos fazendo isso em uma estrutura onde já combatemos. Não estou negando. É uma discussão familiar que estou tendo agora. Não estou jogando culpa em ninguém. Não culpo homens negros pelo que são. Estou pedindo a eles para irem além. O que estou dizendo é: temos que olhar de forma diferente para o jeito que lutamos contra a opressão conjunta, porque se não, vamos nos explodir. Temos que começar a redefinir os termos do que é uma mulher, do que é um homem, como nos relacionamentos uns com os outros… JB: Mas isso significa redefinir os termos do mundo ocidental… AL: E todos nós temos que fazer isso; todos nós temos que fazer isso… JB: Mas você não compreende que nessa república o único crime real é ser um homem Negro? AL: Não, eu não compreendo isso. Eu entendo que o único crime é ser Negro, e isso me inclui também. JB: O homem negro tem um pau, e eles cortam fora. Um homem negro é um ***** quando tenta ser um modelo para seus filhos e proteger sua mulher. Esse é um crime principal nessa república. E cada homem Negro sabe disso. E cada mulher Negra paga por isso. E cada criança negra. Como você pode ser tão sentimental a ponto de culpar um Negro por uma situação em que ele não tem nada a ver com? AL: Você ainda não superou a questão da culpa. Não estou falando em culpa; estou falando de mudança… JB: Posso te dizer uma coisa? Posso te dizer uma coisa? Posso estar errado ou certo. AL: Não sei – me diga. JB: Você sabe o que acontece a um homem-? AL: Como eu vou saber o que acontece a um homem? JB: Você sabe o que acontece a um homem quando ele está envergonhando de si mesmo quando ele não consegue emprego? Quando as meias dele fedem? Quando ele não consegue proteger ninguém? Quando ele não pode fazer nada? Você sabe o que acontece a um homem quando ele não consegue encarar seus filhos porque ele está com vergonha de si mesmo? Não é como ser uma mulher… AL: Não, está certo. Você sabe o que acontece a uma mulher que dá a luz, coloca uma criança no mundo e tem que se prostituir para alimentá-la? Você sabe o que acontece a uma mulher quando ela enlouquece e bate em seus filhos do outro da sala porque está cheia de frustração e raiva? Você sabe o que é isso? Você sabe o que acontece a uma lésbica que vê sua mulher e seu filho apanhando na rua enquanto outros seis caras a seguram? Você conhece essa sensação? JB: Uhum.. AL: Bem, do mesmo jeito que você sabe como uma mulher de sente, eu sei como um homem se sente porque acontece do ser humano ficar frustrado e desvirtuado porque não conseguimos proteger as pessoas que amamos. Então, vamos começar daí -JB: Tudo bem, certo… AL: - vamos começar daí e entrar em um consenso.

Essence Magazine, 1984.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Carta de Patrice Lumumba a sua esposa

Minha querida esposa,


Eu estou escrevendo estas palavras a você, não sabendo se elas um dia chegarão em suas mãos, ou se estarei vivo quando você as ler.
Ao longo da minha luta pela independência de nosso país nunca duvidei da vitória de nossa causa sagrada, da qual eu e os meus companheiros temos dedicado todas as nossas vidas.
Mas a única coisa que nós queremos para o nosso país é o direito a uma vida digna, a dignidade sem pretensões e a independência sem restrições.
Isso nunca foi o desejo dos colonialistas belgas e de seus aliados ocidentais, estes que receberam, direta ou indiretamente, aberta ou secretamente, apoio de alguns oficiais dos cargos superiores das Nações Unidas, o corpo sobre o qual nós colocamos toda a nossa esperança quando recorremos a ele para obter ajuda.
Eles seduziram alguns dos nossos compatriotas, compraram outros e fizeram de tudo para distorcer a verdade e manchar nossa independência.
O que eu posso dizer é o seguinte, que eu, – vivo ou morto, livre ou preso – não é o que importa.
O que importa é o Congo, nosso povo infeliz, cuja independência está sendo espezinhada.
É por isso que eles nos trancaram na prisão e por esta razão eles mantém-nos longe do povo. Contudo, minha fé continua indestrutível.
Eu sei e sinto profundamente em meu coração que mais cedo ou mais tarde meu povo irá se livrar de seus inimigos internos e externos, que eles levantar-se-ão como um só e dirão “Não!” ao colonialismo, a fim de conquistar sua dignidade em uma terra livre.
Nós não estamos sozinhos. A África, Ásia, os povos livres e os povos que lutam pela sua liberdade em todos os cantos do mundo estarão sempre lado a lado com os milhões de congoleses que não desistirão da luta enquanto houver um colonialista ou um de seus mercenários em nosso país.
Para meus filhos, que eu estou deixando e que, talvez, não os veja novamente, eu quero dizer que o futuro do Congo é esplêndido e que eu espero deles, assim como todo congolês, o cumprimento da tarefa sagrada de restaurar a nossa independência e nossa soberania.
Sem dignidade não há liberdade, sem justiça não há dignidade e sem independência não existem homens livres.
Crueldade, insultos e tortura jamais poderão forçar-me a implorar por misericórdia, porque eu prefiro morrer de cabeça erguida, com uma fé indestrutível e uma profunda crença no destino de nosso país, do que viver submisso e renunciar aos princípios que são sagrados para mim.
O dia virá quando a história falar. Mas não será a história que será ensinada em Bruxelas, Paris, Washington ou nas Nações Unidas.
Será a história que será ensinada nos países que terão se libertado dos colonialistas e de seus fantoches.
A África irá escrever sua própria história e tanto no Norte como no Sul será uma história de glória e dignidade.
Não chores por mim. Eu sei que meu atormentado país será capaz de defender sua liberdade e sua independência.

Vida longa ao Congo!
Vida longa à África!

Da Prisão Thysville,
Patrice Lumumba

Traduzido por Igor Dias