"Nzambi a tu bane nguzu um kukaiela"

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

PALAVRA AO RÉU - Por: Abiṣogun Olatunji Oduduwa - UCPA - 2004 / Revisão 2016

“A distância entre um audacioso e bajulado Tio Tom e um intelectual lambe botas reside apenas em sofisticação e estilo. Pensando bem Tio Tom aparece aqui muito mais limpo porque normalmente está apenas tentando sobreviver, preferindo pretender ser algo diferente do seu próprio ser, para agradar o homem branco e, assim, receber favores. Contudo o intelectual adulador não pretende ser diferente do que é, mas odeia o que é e procura modelar-se a imagem de seus ídolos brancos. Torna-se um homem branco num corpo preto. Escravo obstinado e autômato, passa a ser o mais valioso do homem branco na opressão dos outros pretos.” (Eldridge Cleaver)

Verão de 2004. Fazia uma quente tarde de verão quando iniciei este ensaio e, como já é de praxe nesta época do ano, estava chovendo – Aoboboí Oṣùmàré! A água da chuva – Obàtálá – caía sobre a terra – Odùdúwà e Onílé –, fecundando-a; ao mesmo tempo em que fazia exalar da mesma um aroma maravilhoso – o gosto e o cheiro da natureza. A mesma terra pela qual lutamos; a terra dos nossos ancestrais; a terra que os quilombolas conquistaram com trabalho, inteligência e bravura. O mundo criado pelos nossos ancestrais nos pertence.
Meu pai Ṣàngó também estava presente e se manifestava nos raios e trovões – Àṣe Kawó Kabiyèsílé! Ṣàngó! Naquele instante, sentir-me diferente. Era como se estivesse em relativo estado de transe; não um transe de possessão, mas uma sensação de liberdade plena. Essa sensação, que irradiava por todo o corpo, foi traduzida em grande disposição – Àṣe – para a luta e trouxe consigo um imenso senso de justiça e vontade de guerra; podia ser revanche, também. Então, naquelas circunstâncias, como arma só dispunha de papel e caneta; e o pior, encontrava-me sob o olhar de hiena do capitão-do-mato. Estava em uma espécie de cárcere. E, nessa atmosfera hostil, comecei a registrar em uma folha de papel os sentimentos e reflexões que brotavam no meu corpo.
***
A nossa origem é gloriosa. Hoje sabemos de nossa ascendência e história; pelo menos nós, que abraçamos a consciência Pan-africana como estilo de vida e morte. Temos plena ciência do processo histórico ao qual fomos submetidos: dos primórdios aos dias atuais.
Há vários milhares de anos, o primeiro ser humano se originava na África; este que era categoricamente preto; assim como você e eu. Também foi na África que as primeiras grandes civilizações da história da humanidade se originaram: Egito, Núbia, Meroé, Nok, Mali, Gana, Songhai, Ifé… Nós criamos a noção sociedade, de família, de escrita; o que depois haveria de ser chamado pelos apropriadores de dialética… Descobrimos e fundimos os metais e desenvolvemos as tecnologias agrícolas; embalsamamos nossos mortos; aprendemos a cultuar e invocar nossos ancestrais; compusemos poemas, músicas; criamos danças e comidas para os nossos deuses e filhos, nossas origens e descendências, nossos protetores de cabeça e norteadores da vida.
Nossos ancestrais, por milhares de anos e sem o barbarismo típico dos povos setentrionais, governaram o mundo. Entretanto, em determinado momento histórico, o povo branco e a cultura europeia surgiram. Nós, povo preto, dêmos origem ao povo branco – os fósseis mais antigos encontrados na Europa possuem características africanas. O clima, a geografia, a alimentação e o meio ambiente e social forneceram as condições necessárias para esta metamorfose. E, posteriormente e num passado não muito longínquo, fomos nós que ensinamos o povo branco a andar, caçar, falar, se organizar e escrever. No entanto, o isolamento deles, por milhares de anos, na desértica e gelada Europa, fez com que desenvolvessem um mecanismo de autodefesa altamente destrutivo para outros povos: a xenofobia. A base da xenofobia e da própria essência da supremacia branca é o medo do desaparecimento. Deste entendimento da própria existência surgiram atos como o infame comércio de gente, a escravização, os massacres, os estupros, os espólios, as colonizações, o capitalismo, o nazismo e outras formas de genocídio e de racismo epistêmico.
A invasão das Américas, o sequestro e deslocamento em massa de africanos que foram trazidos para estas terras, a escravização de seres humanos, durante 400 anos de forma licita e por mais de 100 anos de forma ilícita, culminou num estado de absoluta degradação. Hoje vivemos em favelas, cortiços e ruas. Somos marcados pelas constantes humilhações e execuções oriundas dos cachorros do Estado – a polícia. É contra estes poderes que a luta deve ser direcionada. Nosso objetivo e destruir o sistema ou se libertar dele. Das duas uma: ou matamos o senhor-de-engenho e destruímos a senzala e a casa-grande ou se insurgimos num levante total. E alcançaremos a liberdade dirigindo-se na mesma direção dos nossos ancestrais que, utilizando-se de coragem e audácia, construíram os quilombos; esses que foram, e ainda são, a extensão física, geográfica, social, cultural e espiritual da África. O resto é perfumaria. Então, a meta é construir o quilombo e fazer o enfrentamento.
A luta Pan-africana tem que ser, por dever e para melhor eficiência, contínua e composta exclusivamente pelo povo preto. Devemos romper com a agenda da integração racial. Pessoas não-pretas não devem participar de forma orgânica da nossa luta, jamais! E se tiverem um sentimento verdadeiro e honesto eles compreenderão e acatarão a nossa posição e enfrentarão o racismo no meio de seu próprio povo. O racismo é uma patologia psíquica e social e se manifesta por meio de vozes e silêncios, pela presença e ausência. Todos os brancos são brancos, não há outra saída para a branquitude que não o reconhecimento dos privilégios trazidos pela sua condição racial e a renúncia dos mesmos. Raros são os casos em que os brancos renunciaram dos privilégios trazidos pela cor da pele. Todo escorpião é um escorpião; alguns tipos – conservadores – picam logo de início enquanto outros – liberais – picam com o passar do tempo; no entanto, ambos nunca deixam de picar.
Seja como for, a nossa luta tem que ser de povo, de rua, de multidão e mutirão; no corpo-a-corpo e jamais a luta efêmera do gabinete. Os irmãos dos Black Panther já diziam coisas reveladoras sobre os revolucionários de escrivaninha: “Esses Tio Tom não passam de contrarrevolucionários…”. A luta Pan-africana tem que estar fundamentada na honestidade e jamais em interesses financeiros e pessoais; a causa deve ser coletiva e pelo bem comum; fora disso é qualquer coisa, menos Pan-africanismo. Nós, Pan-africanistas, conhecedores do passado de massacre e resistência, sabemos que a opressão da supremacia branca causou rupturas culturais e deixou sequelas em nossos irmãos; e isso afetou e deturpou suas percepções e suas concepções éticas e morais. No decorrer da História, de nossa gloriosa trajetória de resistência, sempre surgiram, como sempre surgirão, o tipo Pai Tomás ou Pai João. Por exemplo, contemporâneo a Palmares teve Henrique Dias – funcionário da coroa portuguesa que lutou contra os quilombolas –; teve, recentemente, Mobuto e Sanvibi – funcionários dos Estados Unidos, Reino Unido, Bélgica, Alemanha e França, enfim, do Ocidente –; esses do tipo que mataram Malcolm X, Lumumba, Amílcar Cabral e Thomas Sankara. Marcus Mosiah Garvey, no início do século passado, já se posicionava, firme e coerentemente, em relação às organizações financiadas por brancos e por fundações ou instituições filantrópicas; ele, em seus discursos inflamados, em seus escritos e ensinamentos verdadeiros, cheios de orientações e amor, exortava e não hesitava ao afirmar que: “Os negros da NAACP são traidores declarados do povo preto…”. Na época, a NAACP era financiada por judeus e por brancos liberais, fazendo jus ao slogan carregado pelos Estados Unidos de ser o “país da filantropia”. A NAACP tinha até um destes brancos como presidente.
Estamos cientes que a luta deve ir além das críticas aos Pai Tomás. Nunca devemos perder de vista os nossos primordiais objetivos e quais são os verdadeiros inimigos. Somos Pan-africanistas e amamos o povo preto na África e na Diáspora; em geral, amamos até os irmãos traidores, mas o nosso amor e tão verdadeiro e intenso que, para o bem comum do povo preto, poderemos tomar como referência as atitudes revolucionárias das crianças de Soweto, que, por sentimentos de coragem e justiça, juntamente, com uma postura e uma consciência política firme, colocavam os traidores dentro de pneus, jogavam gasolina, e ateavam fogo. Isso em nome da Revolução Pan-africana; em nome da consciência e libertação africana e do nacionalismo preto. Pois, somente Èṣù, dentro da cosmogonia nagô, pode se dar ao luxo de: “Jogar nos dois times sem nenhum constrangimento…”.
Como observamos, a luta tem que ir além das críticas ao aparato policial do Estado e aos Pai Tomás. A luta é contra uma série de mecanismos que, sistematicamente, visam a nossa destruição, o nosso enfraquecimento físico, mental e espiritual; sendo curto e grosso, o nosso genocídio em nível planetário. E um desses mecanismos é a desarticulação da resistência africana. Estão minando as nossas lutas. Esta tática vem se dando, principalmente, pela cooptação dos nossos líderes ou supostos líderes, alguns sinceros e verdadeiros, porém ingênuos, esses que se deixam enganar facilmente por qualquer promessa, migalha ou esmola; outros, em maior número, são canalhas por essência e quando entram na luta, visando a autopromoção, procuram, logo e desesperadamente, que o sistema ou que um branco liberal qualquer lhes comprem; resumindo, são marqueteiros de si próprios. A situação agravou-se nas duas últimas décadas, pois o desemprego, o consumismo e a ocidentalização do ser africano se intensificou e se alastrou de forma incontrolável. A opressão capitalista não poderia ficar de fora desta dinâmica e o medo branco, consequentemente, potencializou-se. Diante disso, estamos inclinados a pensar que o povo branco é conservador e teme perder o privilégio e o bem-estar social que usurpou. Sabemos, do mesmo modo, que todo povo que é oprimido um dia se levanta contra seus opressores; fator este que traz sérias complicações na manutenção das estruturas do poder branco. Visando remediar este estado de coisas, a supremacia branca tratou de intensificar a desarticulação da resistência africana e iniciou isso a partir do financiamento sistemático das ONG's negras, fazendo deste modelo a única forma viável de organização e luta. Muitos dos nossos acreditaram neste ouro de tolo.
Devemos lembrar das declarações do irmão Malcolm X sobre a Marcha de Washington; rotulada, pelo nosso príncipe negro, como: “A Grande Farsa”. E nossa reflexão e análise ganhará mais credibilidade se pontuarmos ainda que quem financiou tal marcha, dentre várias outras pessoas e instituições, foram as maiores instituições filantrópicas do mundo: Fundação Ford e Fundação Rockefeller. As mesmas que, após mais de meio século depois, continuam o financiamento de ONG's no Brasil e no mundo. Diante disso, não fica difícil constatar que os racistas brancos visam desarticular e destruir os pretos no mundo inteiro. Por isso, somos Pan-africanistas! A nossa luta é planetária: Angola, Brasil, Haiti, EUA, Granada, Gana, Equador, Jamaica… Todos os filhos da África unidos, tendo como princípio amor, respeito, união, fraternidade, verdade, autonomia, autossuficiência e ódio unânime pela exploração imposto pelo demônio oriundo dos cáucasos gelados. Todos esses são ingredientes fundamentais na metodológica de combate. Pois somos filhos da Natureza, somos a própria Natureza, e amamos os deuses e a Natureza; já o demônio, personificado no capitalismo e no eurocentrismo, odeia os deuses e a Natureza; se odeiam. Sendo assim, os deuses nos amam, pois estamos, continuamente, em contato com eles e nós os amamos.
Os brancos intensificaram a desarticulação e estão desmantelando a rebeldia africana. Utilizam-se dos trabalhos sujos das ONG's, das bandeiras partidárias, dos sedutores gabinetes, dos cargos e outras formas de aliciamento para tão nefasto fim. Desde a época que os brancos pisaram em nosso território africano, levando consigo a maldade, a cobiça, a individualização dos bens, a desordem e a cultura judaico-cristã, é que existem irmãos que se deixam levar por essas mentiras europeias, por esses sentimentos mesquinhos e medíocres. Os valores pagos por eles são sempre os mesmos: vagina e pinto branco, dinheiro, espelhos, cargos, quinquilharias, posição e status social. No correr dos séculos, os capitães-do-mato sacrificaram milhões de crianças, jovens, homens, mulheres e velhos – todo um povo africano foi espalhado pelo mundo – em troca do veneno do homem branco. Entregaram-nos em holocausto para seus deuses carniceiros, para o seu panteão de divindades, o panteão do Pai Tomás, que é composto pelo deus e a deusa suprema – homem branco e mulher branca – e pelos seguintes deuses: o deus cargo, a deusa carreira, o tão cultuado deus dinheiro, o deus consumismo, o deus capitalismo… Essa é a concepção de fé do opressor e do traidor.
Somos filhos de Ṣàngó, Àṣe Kawó Kabiyèsílé!, somos Oju Ọba, Olhos do Rei, e temos o dever de falar e apontar o que acreditamos ser o errado; temos o direito de bater o nosso Oṣé para rachar a escrivaninha e derrubar os palanques. Ọba Kòso ara dúdú àiyé; um raio na cabeça do traidor, não por eles, pois a morte para o traidor é pouco, eles nem se quer merecem Ikú – morte –, mas pelos irmãos que eles utilizam como massa de manobra, como escada e trampolim para se elevarem, para se autopromoverem. Além dos canalhas se venderem, por quinquilharias, ainda vendem os irmãos. E, se não fosse suficiente, ficam com o dinheiro e com o cargo. Não podemos nos enganar. Nos ludibriaram em Palmares, com as promessas do Cucáu; nos ludibriaram na Guerra do Paraguai, nos prometendo a alforria. Abolicionistas, republicanos, liberais, democratas, sindicalistas, esquerdistas, direitistas, filantropos; todos nos ludibriaram. Compraram alguns dos nossos e fizeram com que estes nos entregassem na bandeja em holocausto ao inimigo. Nestas jogadas políticas só tivemos baixas, uma atrás da outra. Pois é, Durban passou e deixou o seu legado, o legado de que lutar pelos negros é o que pede o novo mercado de trabalho social. Ser militante negro é a bola da vez.
Sabemos que o desemprego anda em alta e para completar o moral, a ética, a honestidade e a coragem, em baixa. E, motivadas por estas sombrias conjunturas, as filas na busca por novos empregos estão compridas: professores, vereadores, deputados, lideres comunitários, estudiosos e até mesmo o “líder” da nação estão na fila. Todos querem trabalhar com a questão racial. A maioria está conseguindo, pois a demanda é grande, pois existe um grande número de oprimidos e escravizados, prestes a se rebelar, para ser pacificado. Estes terão que ser ludibriados e amansados por programas assistencialistas e esmolas, por leis e propagandas. Porém, no mundo real, longe dos gabinetes, câmeras e holofotes, o genocídio continua a todo vapor!
A questão é a seguinte: os irmãos têm que serem levados a entender que não existem caminhos fáceis e menos ainda atalhos na nossa luta, na nossa libertação física, mental e espiritual. Luta que se faz necessária para nossa permanência na Terra. Existem alguns atalhos, porém esses atalhos nos conduzem direto para o covil das serpentes e não para o nosso verdadeiro objetivo. São atalhos fictícios e suicidas, que no decorrer encontraremos dinheiro, mulheres brancas, cargos, carros, status social; contudo e por fim, o veneno do homem branco e o caixão: o genocídio africano.
Nós que somos, na medida do possível, revolucionários; que somos os guerreiros dispersos do povo preto; os remanescentes quilombolas; a vanguarda e retaguarda da luta; tomaremos como referência irmãos dignos, tais como: Ojéladê Odé Walê, José Correia Leite, Steve Biko, Winnie Mandela… Homens e mulheres que dedicaram suas vidas na luta pela liberdade de seu povo, nosso povo. Toda essa falange, composta em sua maioria por anônimos, que se viraram de todas as formas possíveis, mas sempre mantendo a dignidade, a integridade, a perseverança e a ética; sempre munidos com o amor e o respeito à causa Pan-africana. Seres humanos que jamais tiveram como finalidades os interesses pessoais. Essas são nossas referências e não àqueles que beberam e se lambuzaram do veneno do homem branco estuprador. Nesse grupo temos, também, Jomo Kennyata, o Grande Mau-Mau do Quênia, que foi, juntamente, com Kwame N’Krumah, o Redentor da África, sem sombra de dúvida, duas das maiores expressões do Pan-africanismo e sinônimo de honestidade e luta. Ambos foram garçons, lavaram copos e pratos no Ocidente para os brancos, mas estudaram e se prepararam; depois retornaram para suas terras de origem e tornaram-se chefes de Estados. Somos um povo composto por homens e mulheres inteligentes, arrojados e criativos, e com plenas capacidades para sobrevivermos com dignidade. Não precisamos de corruptores canalhas. Sabemos que as coisas não são fáceis, nunca foram. Porém, piorou depois que fomos arrancados da África, a terra de nossos ancestrais. Durante mais de cinco séculos só passamos por provações. E a honestidade diante dessas dificuldades será recompensada pela confiança e pelo respeito de todo o povo, uma vez que: “A mentira só dura, enquanto a verdade não chega…”. E os pretos do mundo estão chegando, estão espalhados, perdidos, iludidos, mas estão se encontrando nos labirintos da vida e da luta. Os combates serão longos e nossos filhos e netos, com perseverança, chegarão na terra prometida. Tiraremos nossos inocentes irmãos das garras do Tio Tom, esse que tem um lugar reservado na revolução: o mesmo que está reservado a seus controladores, os brancos colonialistas.
Por enquanto, temos que ouvir os mais velhos – aqueles que tem alguma coisa interessante para nos ensinar, pois idade não significa sabedoria –, estudar, ler, trabalhar, conhecer a nossa verdadeira história, tanto a do nosso território de origem – África – quanto da nossa presença e resistência nas Américas. Ancestralidade, permanência e linhagem africana no mundo, isto é o que nos interessa de fato: existência plena. Já que temos que ter referência, raiz e firmamento, para o que pensamos e falamos; agimos. Temos que ter em que se segurar, um apoio. Então, a partir daí, estaremos aptos a adotar a filosofia política e cultural do Pan-africanismo, da consciência africana, e as táticas de resistência e luta que foi legado pelos antigos. E tudo que engloba a consciência e ação. E com nossa sabedoria ancestral e milenar venceremos a opressão secular da supremacia branca. Já que estaremos revestidos com a nossa sagrada filosofia primitiva, a mesma que nos tornam aptos a refletir sobre o que está em nossa volta, sobre o passado, presente e futuro do nosso povo. E essa capacidade de refletir sobre o que nos foi imposto, sob a violência da cruz, da espada, do fuzil e da brancura, que nos conduzirá à liberdade.
Meu lindo e grandioso povo, para rompermos com as tão destrutivas prisões mentais, que o processo branco de aniquilação africana impôs, temos hoje, mais do que nunca, que adquirir um conhecimento libertador e revolucionário. Portanto, temos que ter em mãos alguns livros para lê-los e entendê-los. Livros que foram escritos pela família preta espalhada pelos quatro cantos do mundo, tais como: Malcolm X, de Malcolm X e Alex Haley; Escrevo o que eu quero, de Steve Biko; Racismo e sociedade e A África que incomoda, ambos de Carlos Moore; Alma no Exílio, de Eldridge Cleaver; Os Condenados da terra e Pele negra, máscaras brancas, ambos de Frantz Fanon; todos os escritos e a filosofia de Marcus Garvey; Unidade cultural da África Negra, de Cheikh Anta Diop; …E disse o velho militante, de José Correia Leite e Cuti; A arma da teoria, de Amílcar Cabral; Zenzele, de J. Nozipo Maraire; O poder negro, de E. U. Essien Udom; Parte de minha alma, de Winnie Mandela; Malcolm X: uma vida de reinvenções, de Manning Marable e o Quilombismo e O Brasil na mira do Pan-africanismo, ambos de Abdias do Nascimento. Esses são alguns dos vários livros ideais na aquisição da consciência africana; são eles os escritos da revolução preta. Porém, devemos lê-los com uma visão crítica, fria e analítica, e, a partir disso, absorver o que for de melhor serventia à nossa causa; após isso será, como profetizou Emmanuel Dongala, “um fuzil na mão, um poema no bolso”.

PALAVRA AO RÉU - Por: Abiṣogun Olatunji Oduduwa -  UCPA -  2004 / Revisão 2016

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